Pensamento mágico e burocracia falha minaram combate à pandemia, diz Niall Ferguson – 13/10/2021 – Mundo


Mesmo depois do conhecimento acumulado em tantas catástrofes e pandemias ao longo da história, e ainda que pesquisas se acumulassem de forma a desenvolver vacinas seguras em tempo recorde contra o coronavírus, o que impediu uma resposta mais eficaz à Covid-19 para evitar que quase 5 milhões de pessoas morressem da doença no mundo?

Para o historiador britânico Niall Ferguson, a resposta é uma trágica combinação entre uma desconfiança geral com os imunizantes e um estamento burocrático falho, que não soube reagir efetivamente à doença.

Autor de “Catástrofe – Uma História dos Desastres – Das Guerras às Pandemias – E o Nosso Fracasso em Aprender como Lidar com Eles” (Penguin Press), Ferguson participou do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento nesta quarta (13).

Para tentar explicar a desconfiança com a vacina que pode por fim à pandemia, o historiador empresta da antropologia e da psicologia o conceito de pensamento mágico, que tenta explicar a realidade a partir de correlações sem lógica. Na era da disseminação desenfreada de notícias falsas, ele propõe o que chama de “pensamento mágico online”.

“Você pode ter a elite científica mais sofisticada do mundo, com professores, pesquisadores, médicos conduzindo trabalhos em várias disciplinas, da virologia à ciência de redes. Se a população permanece cientificamente analfabeta e suscetível ao pensamento mágico e a teorias da conspiração, então todos os seus avanços científicos vão fracassar diante da aceitação pública”, diz.

É o que explica o fato de as vacinas, altamente eficazes e com risco baixíssimo, serem rejeitadas por um quinto dos americanos adultos, segundo ele.

A isso se somou a dificuldade de governos de gerir crises, e Ferguson cita não só a Covid-19, mas também a resposta à crise econômica de 2008. Um ano antes, diz, “era muito claro que o mercado de hipotecas estava descontrolado”, mas a situação foi esticada até que bancos inteiros decretassem falência.

Para ele, o Estado “é extremamente bom em produzir planos de 36 páginas para se preparar para desastres como a pandemia”, que parecem eficazes em solucionar o problema apresentado, “mas não lida bem com crises reais”.

A responsabilidade, nesse caso, seria menos de líderes populistas que não souberam lidar com a pandemia —como Jair Bolsonaro, no Brasil, ou Donald Trump, nos Estados Unidos— e mais de tomadores de decisão em escalas intermediárias. “O erro humano é sempre presente em todo desastre”.

“Apesar do conhecimento que acumulamos, não somos melhores em lidar com desastres do que éramos no passado”, afirma.

Conhecido por opiniões polêmicas, Ferguson ressalta que as quase 5 milhões de mortes pela pandemia configuram uma tragédia, mas coloca a Covid-19 em perspectiva histórica para dizer que “é um desastre relativamente menor” em comparação com pestes que assolaram a humanidade —a exemplo da gripe espanhola, no começo do século passado, ou da peste negra, no século 14.

O historiador argumenta que temos uma espécie de memória curta, que nos faz ignorar períodos graves da história, e dá o exemplo de um inverno mortal entre 1950 e 1951 no Reino Unido, quando o excesso de mortalidade em relação a anos anteriores (métrica usada hoje para estimar casos subnotificados da Covid) foi mais grave que o da pandemia atual.

“Por que ninguém mais se lembra disso hoje em dia? É possível que um esquecimento como esse aconteça com a Covid?”, questiona.

Ele defende ainda que é fácil se acostumar a uma nova realidade e esquecer como o mundo era antes —e dá o exemplo de que já nos acostumamos a regras rígidas de segurança em aeroportos, nos esquecendo de como era mais simples pegar um avião antes do 11 de Setembro.

Por isso, nas palavras de Ferguson, é preciso que as medidas de contenção do vírus, como o uso de máscara, testes constantes e distanciamento social, só sejam exigidas enquanto são de fato necessárias, sob o risco de nos acostumarmos a essa nova realidade. “Sou um grande defensor de medidas emergenciais apenas para emergências, e é importante reconhecer quando elas estão acabando.”

O historiador levanta preocupações sobre a explosão da dívida pública e da inflação na retomada pós-Covid-19 e alerta que os “loucos anos 1920”, como se convencionou chamar o período de efervescência cultural e econômica do pós-Primeira Guerra e pós-gripe espanhola, podem virar “os tediosos anos 2020” se formos acometidos por crises econômicas.

Ferguson, por fim, defende que o próximo desastre global pode não ser algo que esperamos hoje e que é perigoso apostar apenas nas mudanças climáticas. Segundo o historiador, elas têm consequências mais lentas do que problemas capazes de gerar impactos urgentes, como uma guerra entre China e EUA.

Um conflito bélico entre superpotências pode envolver grandes ataques cibernéticos, diz ele, que usa o exemplo do apagão dos serviços do Facebook na última semana para medir os impactos disso. “Imagine se toda a internet caísse não só por 6 horas, mas por 6 dias. Um grande ciberataque é muito provável.”

Crítico do que chama de radicais ambientalistas, Ferguson defende que sofremos de uma miopia. “Queremos falar de mudanças climáticas porque está na moda. Mas 2020 nos lembrou que há desastres que ocorrem muito mais rápido.”

Cientistas apontam, porém, que as mudanças climáticas já têm impactos reais. Pesquisa publicada em maio na revista Nature mostrou que 37% das mortes por consequência do calor de 1991 a 2018 foram causadas pelo aquecimento global.

E um estudo da Organização Meteorológica Mundial apontou que, em cinco décadas, de 1970 a 2019, 2 milhões de pessoas morreram devido a eventos climáticos extremos. Ainda que a capacidade de resposta dos sistemas de saúde tenha melhorado —o que leva a menores cifras de mortos a cada década—, a ocorrência desses eventos se multiplicou por cinco.

Fronteiras do Pensamento 15 anos

Oito pensadores indispensáveis para entender o nosso tempo

Temporada 2021. Saiba mais em: www.fronteiras.com

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

Deixe um comentário

Este site usa cookies para que você tenha a melhor experiência do usuário. Se continuar a navegar, dará o seu consentimento para a aceitação dos referidos cookies e da nossa política de cookies , clique no link para obter mais informações. CONFIRA AQUI

ACEITAR
Aviso de cookies
Translate »