Nobel da Paz incentivou premiê da Etiópia a deflagrar guerra, dizem ex-apoiadores – 17/12/2021 – Mundo

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Reuniões secretas com um ditador. Deslocamentos clandestinos de tropas. Meses de preparativos feitos na surdina para uma guerra que se pretendia que fosse rápida e sem derramamento de sangue.

Evidências que surgiram recentemente indicam que o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, já vinha planejando uma campanha militar na região de Tigré, no norte do país, meses antes de a guerra eclodir, um ano atrás, desencadeando uma enxurrada de destruição e violência étnica que tomou conta do país que tem a segunda maior população da África.

Ganhador do Prêmio Nobel da Paz que foi visto recentemente de farda militar, comandando tropas na frente de batalha, Ahmed insiste que a guerra lhe foi imposta —que insurgentes dispararam os primeiros tiros em novembro de 2020, quando atacaram uma base militar federal em Tigré, massacrando soldados enquanto dormiam. Esse relato virou artigo de fé para o premiê e seus apoiadores.

Na realidade, foi uma guerra que Abiy Ahmed optou por travar e que começou a ser arquitetada antes mesmo da conquista do Nobel, em 2019 —prêmio que transformou o premiê por algum tempo em ícone global da não violência.

A conquista foi em grande medida decorrente do improvável acordo de paz fechado com Isaias Afwerki, líder autoritário da Eritreia, meses apenas depois de chegar ao poder, em 2018. O acordo encerrou duas décadas de hostilidades e guerra entre os países vizinhos e rivais, inspirando grandes esperanças de transformação na região.

Em vez disso, o Nobel incentivou Ahmed e Afwerki a tramar em segredo um caminho que levaria à guerra contra seus adversários mútuos em Tigré. Quem diz isso são atuais e antigos funcionários do governo etíope que falaram sob anonimato, para evitar represálias ou proteger familiares seus que ainda vivem no país.

Nos meses que antecederam o início dos combates, em novembro de 2020, Ahmed deslocou tropas para perto de Tigré e enviou aviões de carga militares à Eritreia. A portas fechadas, seus assessores e generais discutiram os prós e contras de um conflito. Aqueles que discordavam da ideia foram demitidos, interrogados sob a mira de armas ou obrigados a partir.

Ainda deslumbrado com o Nobel, o Ocidente ignorou aqueles sinais de alerta, disseram os funcionários. Mas, em última análise, foi o Ocidente quem ajudou a abrir o caminho para a guerra.

“Daquele dia em diante, Ahmed passou a se achar uma das personalidades mais influentes do mundo“, diz Gebremeskel Kassa, antigo alto funcionário da administração etíope, hoje exilado na Europa. “Ele sentiu que tinha muito apoio internacional e que, se começasse uma guerra em Tigré, não aconteceria nada. E ele tinha razão.”

O porta-voz do premiê, o ministro da Informação da Eritreia e o Comitê Norueguês do Nobel não responderam a perguntas para esta reportagem.

A vitória militar rápida e fácil que Ahmed prometeu não se concretizou. Ao longo do verão os insurgentes de Tigré expulsaram as tropas etíopes e seus aliados eritreus. Em novembro, chegaram a 250 quilômetros da capital, Adis Abeba, levando o premiê a declarar estado de emergência.

Mais recentemente o pêndulo moveu-se no sentido oposto, com forças do governo retomando duas cidades estratégicas que tinham sido capturadas. É a virada mais recente em um conflito que já provocou dezenas de milhares de mortos e empurrou centenas de milhares de pessoas para condições de fome.

Analistas dizem que a trajetória percorrida por Ahmed, de pacificador a comandante no campo de batalha, é uma história cautelar sobre como o Ocidente, ansioso por encontrar um novo herói na África, equivocou-se tão profundamente em relação a esse líder.

“O Ocidente precisa compensar por seus erros na Etiópia“, diz Alex Rondos, ex-diplomata-chefe da União Europeia na região do chifre da África. “O Ocidente avaliou Ahmed incorretamente e empoderou Afwerki. Trata-se agora de saber se será possível impedir um país de 110 milhões de habitantes de se desintegrar.”

Quando recebeu o Nobel, Ahmed, um ex-militar, inspirou-se em sua própria experiência para descrever o horror da guerra com eloquência. “A guerra é a epítome do inferno”, ele disse à plateia distinta reunida em Oslo. “Sei disso porque já fui até lá e voltei.”

Para seus admiradores estrangeiros, o discurso altivo foi mais uma prova de que ele era um líder excepcional. Em seus primeiros meses no poder, libertou presos políticos, revogou controles impostos à imprensa e prometeu eleições livres na Etiópia. Seu acordo de paz com a Eritreia, um estado pária, representou um avanço enorme e improvável para o chifre da África, região mergulhada em conflito.

Mesmo assim, o Comitê Norueguês da Paz, com cinco integrantes, sabia que estava se arriscando ao apostar em Ahmed, segundo Henrik Urdal, do Peace Research Institute Oslo, que analisa as decisões do comitê.

As reformas abrangentes empreendidas pelo premiê de 41 anos eram frágeis e facilmente reversíveis, afirma o especialista, e a paz com a Eritreia era baseada no relacionamento de Ahmed com Afwerki, autocrata implacável e endurecido pela guerra. “Meu parceiro e camarada na paz”, disse Ahmed em Oslo.

Ao fazer sua escolha, o comitê do Nobel esperava incentivar o líder etíope a avançar mais no caminho das reformas democráticas, segundo Urdal.

Mas mesmo então havia sinais de que o acordo de paz não era tudo que parecia. Seus frutos iniciais, como voos comerciais diários entre os dois países e a reabertura das fronteiras, foram revertidos em questão de meses. Os pactos comerciais prometidos não se concretizaram, e, segundo autoridades etíopes, houve pouca cooperação concreta.

Visões inconciliáveis levam à guerra

Desde seus primeiros dias no poder, Abiy Ahmed enxergou a TPLF (Frente de Libertação do Povo do Tigré) como uma ameaça à sua autoridade, possivelmente até à sua vida. Os insurgentes haviam preferido outro candidato como primeiro-ministro, e Ahmed teria dito a amigos temer que autoridades de segurança de Tigré estavam tentando assassiná-lo.

Na residência do premiê, soldados foram postados em todos os andares para montar guarda. Ele expulsou etíopes da etnia tigré de sua equipe de segurança e criou a Guarda Republicana, unidade sob seu controle direto —com integrantes escolhidos a dedo e enviados para fazer treinamento nos Emirados Árabes Unidos, poderoso novo aliado que também tinha laços estreitos com a Eritreia, segundo uma ex-autoridade.

O assassinato ainda não explicado do então comandante militar etíope, general Seare Mekonnen, tigré morto a tiros por um guarda-costas em junho de 2019, agravou tensões.

A rixa também foi motivada por divergências políticas profundas. Semanas depois de receber o Nobel, Ahmed criou o Partido da Prosperidade, que encarnava sua visão de um governo forte e centralizado. Mas a ideia era fortemente rejeitada por milhões de etíopes que ansiavam por autonomia regional maior, em especial os tigrés e membros do grupo étnico do próprio Ahmed, os oromas.

Em setembro os tigrés realizaram uma eleição regional, desafiando abertamente uma ordem do premiê. Este deslocou tropas das regiões somali e oroma para perto de Tigré.

Numa videoconferência em meados de outubro, Ahmed disse a líderes do partido governista que interviria militarmente em Tigré e que só levaria três a cinco dias para afastar os líderes da região. A informação é de Gebremeskel, ex-alto funcionário agora vivendo no exílio.

Em 2 de novembro o chefe de política externa da União Europea, Josep Borrell, lançou um apelo público a ambos os lados para “cessar os deslocamentos militares provocantes”. Na noite seguinte, forças tigrés atacaram uma base militar etíope, descrevendo a ação como ataque preventivo.

Soldados eritreus invadiram Tigré pelo norte. Forças especiais de Amara chegaram do sul. Ahmed demitiu o chefe do Exército, general Adem Mohammed, e anunciou uma “operação policial” em Tigré. A ruinosa guerra civil começara.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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