Empadinhas proustianas – Cozinha Bruta


Cada ida à cidade era uma alegria. Significava andar de teleférico, tomar picolé de limão e comprar uma quinquilharia qualquer nas arcadas da rua principal –sempre voltava para o hotel com um brinquedo barato, feito de madeira e barbante.

As férias da minha infância eram em Serra Negra, estância termal não muito longe de São Paulo. Ficávamos num hotel que não existe mais, na estrada, a meio caminho de Lindoia. Lá tinha piscina, pingue-pongue, pebolim, quadras e mato à vontade.

Fosse pelo meu pai, não arredaríamos pé do hotel. A comida era razoável e estava inclusa nas diárias. O velho padecia da inércia característica dos adultos e, mal sabia eu, de depressão. Ele só queria ficar, mas eu tinha o fogo no rabo típico das crianças. Passava os dias enchendo para irmos à cidade. As irmãs adolescentes reforçavam o coro.

Então o velho se arrastava para fora da cama. Íamos todos no Opala branco; eu, entre o pai e a mãe, no banco inteiriço da frente. Assim era o século 20.

O passeio invariavelmente terminava na padaria Serrana, na praça em frente ao teleférico que leva ao Cristo Redentor. Era lá que rolava o picolé de limão.

Mas a atração principal era a empada de palmito.

As empadas da padaria Serrana reavivavam o ânimo do meu pai. A família toda as adorava. Trazíamos bandejas delas na viagem de volta para casa.

Eu, estranhamente, não lhes dava tanta atenção. Gostava, mas estava entretido demais com o burrinho no barril que acabara de ganhar. Quanto às empadas, o que mais me marca a memória é a sujeira que eu fazia ao comê-las. A massa podre, quebradiça, virava farofa na primeira mordida e se espalhava pela mesa, pela roupa, pelo chão, atraindo os pombos.

A vida adulta me afastou de Serra Negra. Nas poucas vezes em que voltei ao mesmo hotel, já decadente, as reminiscências da infância me acompanhavam numa realidade paralela, de sonho vívido. Era mais incômodo do que divertido.

Nunca tive obsessão particular por empadas. Gosto, gosto bastante até. Mas não são uma tara, um fetiche, algo que me faça sair de casa para comer.

Preso em casa pelo vírus, minha vida social mora no Whatsapp, Twitter e no Instagram. Foi neste que eu recebi uma mensagem do Marcio, colega jornalista que eu não conheço pessoalmente, um pouco mais velho do que eu.

Ele montou uma pequena fábrica de empadas em Osasco e queria que eu as provasse. Demorei a responder, demorei demais, admito. Mas finalmente aceitei a oferta. Jantei empadas ontem.

A primeira mordida me atirou de volta à praça de Serra Negra, coisa que nenhuma outra empada me proporcionou. Senti o sol, o cheiro de cloro, da grama, da fumaça de óleo diesel do trenzinho Tia Linda –caminhonete tunada feito locomotiva, com reboques sem janela, que fazia passeios turísticos para as crianças.

Senti o picolé derretendo e pingando na minha perna, o calor do colo da minha mãe, a alegria de convencer meu pai a pular comigo na piscina gelada no fim da tarde. Senti nostalgia daquilo que eu era e daquilo que eu achava que viria a ser.

Quis saber se a padaria Serrana ainda existe. Existe, está no mesmo lugar e proclama, na página do Facebook: “Há mais de 50 anos servindo a melhor empadinha do Brasil”.

Não sei se é, mas agora acredito. As Empadas do Victor, filho do Marcio, não ficam atrás. Só não conte com o barato proustiano que elas me deram. Cada um com sua madeleine.

 

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