Taiwan pede aos EUA para mudar nome de escritório, e China repudia movimento – 17/09/2021 – Mundo


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Uma mudança de nome pode despertar mais uma briga entre Estados Unidos e China. Nesta semana, o jornal britânico Financial Times revelou que Washington considera autorizar Taiwan a alterar o nome da representação oficial nos EUA de “Escritório de Representação Econômica e Cultural de Taipei” (Tecro) para “Escritório de Representação de Taiwan”.

Pode parecer pouco, mas, na visão de Pequim, trata-se de mais um passo norte-americano no reconhecimento tácito da ilha como um país soberano. Para os chineses, ela é uma província rebelde.

O território serviu de salvaguarda para os derrotados nacionalistas ao fim da guerra civil em 1949 e clama soberania sobre todo o território da China desde então.

Nas últimas décadas, com a expansão da economia e a implantação de uma democracia representativa, cresceu o número de taiwaneses que defendem o separatismo.

Os americanos mudaram o reconhecimento de quem consideram os legítimos representantes da China em 1979, e a antiga embaixada foi renomeada como “escritório de representação” em virtude da decisão.

No entanto, Pequim tem se mostrado irredutível nos últimos anos quanto a qualquer sinalização de independência taiwanesa e também pressionou por reversões semelhantes na Nigéria, na Jordânia e no Equador. Em julho, quando a Lituânia aceitou receber um “escritório de Taiwan”, a China expressou forte descontentamento e chegou a ameaçar chamar de volta o embaixador em Vilnius.

A mudança do nome em Washington demandaria uma ordem executiva assinada pelo próprio Joe Biden. A embaixada chinesa no país se adiantou e, em comunicado, disse que os Estados Unidos “devem interromper qualquer interação oficial com Taiwan, abster-se de enviar quaisquer sinais errados para as forças de ‘independência de Taiwan’ ou tentar desafiar os resultados financeiros da China e lidar de forma adequada e prudente com questões relacionadas a Taiwan, de modo a não prejudicar seriamente as relações China-EUA e a paz e estabilidade através do Estreito”.

Por que importa: reconquistar Taiwan é um objetivo histórico da China comunista desde o primeiro dia da fundação da República Popular. Por muitos anos, Pequim acreditava que conseguiria convencer os compatriotas em Taipei usando o modelo de “Um País, Dois Sistemas” implementado em Macau e Hong Kong. No entanto, a repressão a protestos e a erosão de movimentos democráticos nesta última em 2019 afastaram os taiwaneses de possíveis tratativas nesse sentido.

Os chineses devem continuar tentando o feito de forma pacífica. Parece haver consenso entre os burocratas comunistas de que uma guerra colocaria em perigo a trajetória econômica ascendente. Porém, movimentos americanos que garantam a independência da ilha certamente não serão tolerados, e o separatismo é a linha vermelha para Xi Jinping: se ocorresse, e ele se recusasse a usar a força, cairia em desgraça e seria engolido pelo partido e pela população.


o que também importa

Por falar na delicada relação sino-americana, os líderes dos dois países conversaram no último dia 10 em uma tentativa de administrar a rivalidade e encontrar áreas de possível cooperação. Foi a primeira chamada entre Joe Biden e Xi Jinping desde fevereiro, e as tratativas duraram cerca de uma hora e meia.

Durante a conversa, Xi pediu “coragem para colocar os laços China-EUA de volta nos trilhos”. O líder chinês destacou que o relacionamento é “a questão do século” e que acertar os ponteiros “não é uma opção, mas algo que devemos fazer e fazer bem”. Ele também alertou que “o mundo se beneficiará se a China e os EUA cooperarem, mas sofrerá se a China e os EUA se confrontarem”, de acordo com o comunicado divulgado pela chancelaria chinesa.

Biden respondeu que Washington quer “manter a dinâmica competitiva” com Pequim, mas que evitaria “confrontos não intencionais”. O presidente teria oferecido se encontrar pessoalmente com o líder chinês em uma cúpula bilateral, mas a imprensa americana reportou que, além das preocupações quanto ao deslocamento da liderança em tempos de pandemia, Xi demandou melhorias nas relações antes que a reunião acontecesse. A informação foi negada tanto por Joe Biden quanto por Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional.

A Casa Branca anunciou que pretende deixar o canal de comunicação aberto entre os dois países, mas não há previsão de uma nova conversa no futuro próximo.


Nas últimas semanas, falamos aqui sobre como a censura chinesa parecia estar mais permissiva em relação a denúncias online de má conduta sexual. Para não deixar dúvidas sobre o quanto o tema permanece um tabu, o Tribunal Popular do Distrito de Haidian (Pequim) rejeitou na quarta (15) as alegações de uma mulher que diz ter sido abusada pelo chefe, um dos primeiros casos do tipo a chegarem às cortes do país.

  • Zhou Xiaoxuan acusava o famoso apresentador Zhu Jun de acariciá-la e beijá-la à força quando trabalhou como estagiária do programa dele no canal estatal CCTV em 2014. Após ser exposto por ela nas redes sociais, o apresentador negou as acusações e processou em 2018 a ex-funcionária, pedindo mais de R$ 520 mil em reparações por difamação.

Zhou resolveu então entrar com uma ação contrária formal, tornando-se um símbolo do movimento que na China ficou conhecido como #MiTu (em referência ao #MeToo americano).

Após mais de três anos de batalhas judiciais, a corte em Haidian decidiu que “não havia provas suficientes” para levar o caso adiante. De acordo com Zhou, o tribunal recusou o pedido dela para incluir novas evidências no processo, incluindo um vídeo mostrando o suposto incidente e uma avaliação psicológica com um especialista em casos de assédio sexual. A decisão é definitiva e não caberá recurso.


Conhecido pelas reportagens que produziu no caso “Watergate”, o jornalista Bob Woodward lança no próximo dia 21 o livro-reportagem “Peril” (“Perigo” em tradução livre). Cópias da obra que começaram a circular entre as Redações americanas trouxeram uma grande revelação: a de que altos oficiais militares americanos trabalharam por meses para conter o ex-presidente Donald Trump e evitar uma guerra com a China.

De acordo com Woodward e Robert Costa, que cobre a Casa Branca para o The Washington Post, o presidente do Estado-Maior Conjunto americano, o general Mark A. Milley, realizou dois telefonemas secretos ao homólogo chinês, Li Zuocheng, general do Exército da Libertação Popular. Milley temia que a inconstância de Trump durante a campanha eleitoral levasse a um conflito militar com os chineses.

A primeira chamada, feita em outubro do ano passado, teria sido motivada por relatórios de inteligência que indicavam a crença entre os chineses sobre um possível ataque americano. Ele teria apelado aos laços de amizade entre os dois e prometido que avisaria antes caso os EUA resolvessem entrar em um conflito armado com a China.

A segunda ligação ocorreu após a invasão do Capitólio, no dia 6 de janeiro. Os chineses teriam ficado exasperados com a possibilidade de um golpe. Milley reduziu os temores ao dizer que o país estava “100% firme” e que a “democracia pode ser desajeitada às vezes”.

Milley se manifestou por meio de um porta-voz. Ele negou ter ignorado a autoridade de Trump e, embora não tenha confirmado a íntegra dos diálogos revelados no livro, declarou que “conversas [com homólogos] permanecem vitais para melhorar a cooperação mútua dos interesses de segurança nacional, reduzir as tensões, fornecer clareza e evitar consequências ou conflitos não intencionais”.


fique de olho

Em viagem para participar da abertura dos Jogos Nacionais em Xi’an, Xi Jinping fez uma parada para visitar ícones da história revolucionária comunista: a vila Yangjiagou e o condado de Suide, ambos na província de Shaanxi. Além de serem importantes para o partido, os dois locais carregam significado familiar para o líder chinês: em 1947, o pai dele, Xi Zhongxun, participou de uma reunião com Mao Tsé-tung em Yangjiagou, e Suide foi o local onde os pais dele se conheceram.

Por que importa: nostalgia à parte, vários observadores e sinólogos apontaram a viagem como uma sinalização de Xi antes da realização do 6º Plenário do Comitê Central, reunião histórica que promete consolidar o líder chinês como o centro do desenvolvimento nacional. Ao entrelaçar a história do partido comunista com a sua própria, Xi confirmaria suas “credenciais vermelhas” junto aos colegas correligionários, tirando do caminho possíveis dúvidas sobre a lealdade à legenda.


para ir a fundo

  • A pressão para conseguir boas notas no Gaokao, exame de acesso às universidades chinesas, é tão massacrante que muitos adolescentes sofrem de transtornos emocionais. O Sixth Tone conta como uma empresa oferece terapia por mensagem para jovens da zona rural massacrados pelas cobranças e pela competitividade. (gratuito, em inglês)
  • Quando anunciou a abertura de uma filial em Budapeste, a prestigiosa Universidade de Fudan em Shanghai esperava receber os louros pelo primeiro campus chinês no exterior. A iniciativa, porém, encontra dura resistência dos húngaros. A prefeitura tem renomeado ruas próximas ao local do futuro campus para termos provocativos aos chineses, como “rua Dalai Lama”, “rua Liberte Hong Kong” e outros. O China Media Project explica a confusão. (gratuito, em inglês)
  • O músico chinês Coco Zhao, conhecido por misturar sons tradicionais e jazz, fez uma música em parceria com o capixaba Zé Renato, que a publicou no YouTube. Batizada de “Sutil Cintilar”, a canção foi composta pelo brasileiro e gravada pelos dois a distância. Eles devem se encontrar novamente no fim de setembro, em uma live que conectará músicos da China e do Brasil. (gratuito, em português)

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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