Continuo a acreditar que a inflação nos EUA é transitória – 14/09/2021 – Paul Krugman


Os preços ao consumidor subiram em 4.4% nos últimos seis meses nos Estados Unidos; isso representa um índice de inflação anualizado próximo dos 9%, o que quase nos leva de volta ao território da década de 1970. E há muita gente proclamando o retorno da estagflação.

Mas as pessoas que estão em posição de fazer alguma coisa a respeito —principalmente Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos— parecem bastante serenas. Insistem em que estamos observando apenas uma flutuação transitória propelida pelo desordenamento associado à saída dos Estados Unidos da pandemia. Mas será que essas pessoas estão certas? Como podemos ter certeza?

Para responder a essas perguntas, é preciso antes de tudo recuar e perguntar o que significa dizer que a inflação é transitória. E para fazê-lo, considerar as coisas em longo prazo ajuda.

Minha sensação é a de que muitas pessoas acreditam que a inflação não era algo que acontecesse nos Estados Unidos antes da década de 1970. Mas isso não é verdade. Os dados sobre preços ao consumidor começaram a ser registrados mais de um século atrás, e houve diversos episódios de inflação alta durante o período. A década de 1970 nem mesmo representa o pico.

Qual foi a diferença entre a inflação da década de 1970 e os surtos inflacionários associados à Primeira Guerra Mundial, ao final da Segunda Guerra Mundial, ou à guerra da Coreia? A resposta é que todos esses surtos de inflação surgiram rápido e se foram igualmente rápido. A economia não exatamente retornou de forma indolor à estabilidade de preços, mas as recessões associadas à desinflação foram breves. Pôr fim à inflação na década de 1970, em contraste, envolveu um período prolongado de desemprego relativamente alto.

Mas o que explica a diferença? Na década de 1970, a inflação se “entranhou” na economia. As pessoas que determinavam preços e salários o faziam com a expectativa de que haveria muita inflação no futuro. Por exemplo, empresas se sentiam dispostas a conceder aumentos de salários aos trabalhadores porque imaginavam que seus concorrentes terminariam fazendo o mesmo, e assim elas não ficariam em desvantagem competitiva.

A questão é determinar se a inflação está igualmente entranhada agora.

Costumávamos ter uma maneira bem fácil, simples e direta de responder a essa pergunta: o conceito de inflação subjacente. Na década de 1970, o economista Robert Gordon sugeriu que fizéssemos uma distinção entre os preços de commodities como o petróleo e a soja —que flutuam o tempo todo— e outros preços cujos ajustes são menos frequentes. Um indicador de inflação que excluísse os preços dos alimentos e da energia, ele argumentou, nos forneceria orientação muito melhor para calcular a inflação entranhada, ou seja, subjacente, em meio aos números da inflação mais ampla.

O conceito da inflação subjacente foi uma das maiores histórias de sucesso da política econômica decidida com base em dados concretos. Nos últimos 15 anos, passamos por diversas altas de preços de commodities, e por muita ansiedade, especialmente da parte da direita política, sobre o retorno da estagflação ou mesmo sobre uma hiperinflação iminente. Você se lembra de quando Paul Ryan, na época deputado federal republicano por Wisconsin, acusou Ben Bernanke, então presidente do Fed, de “degradar o dólar?”

Mas o Fed se recusou a abandonar sua política monetária frouxa, apontando para a inflação subjacente estável como motivo para que não houvesse preocupação. E o banco central estava certo.

Infelizmente, a esta altura o indicador tradicional da inflação subjacente não ajuda muito, porque a pandemia conduziu a aumentos de preços em setores incomuns, como os carros usados e as diárias de hotéis.

O Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca vem usando para seu trabalho um indicador de inflação subjacente que exclui não só os preços dos alimentos e energia mas os dos setores afetados pela pandemia. Isso faz sentido. Na verdade, eu defendi que essa ideia fosse adotada alguns meses atrás. Mas estou ciente de que ao excluir mais e mais itens do Índice de Preços ao Consumidor, as autoridades se expõem à acusação de que só estão dizendo que não existe inflação porque escolheram ignorar os preços que estão em alta.

Powell apontou para um indicador diferente: os aumentos de salários, que foram substanciais em alguns dos setores atingidos pela pandemia mas continuam a ser moderados, de acordo com estatísticas como o índice de crescimento de salários do Fed de Atlanta.

Recentemente, porém, comecei a imaginar se a melhor maneira de descobrir se a inflação está se entranhando seria perguntar às pessoas que respondem por isso. Ou seja, as empresas estão agindo como se antecipassem inflação sustentada no futuro?

Por enquanto, a resposta parece ser negativa. Muitas empresas estão enfrentando escassez de mão de obra, e estão tentando atrair pessoal por meio de coisas como bonificações de contratação. Mas ao menos de acordo com o Livro Bege do Fed —​um levantamento informal que é muitas vezes útil para interpretar a psicologia das empresas—, elas relutam em aumentar os salários de modo mais geral.

Para deixar meu argumento bem claro, não estou celebrando que as empresas não estejam dispostas a aumentar salários. O ponto, em lugar disso, é que as empresas não estão agindo como se antecipassem muita inflação no futuro, o que lhes permitiria elevar salários sem perder competitividade. Elas estão agindo, na verdade, como se vissem a inflação atual como uma flutuação temporária.

Por isso, pelo menos até agora, continuo a acreditar que a inflação é transitória. Minha impressão é de que as coisas estão mais parecidas com 1951, quando a inflação chegou a 9,3% por um breve período, do que com 1979. Se enfim conseguirmos colocar a pandemia sob controle, a inflação de 2021 não demorará a desaparecer da lembrança.

Tradução de Paulo Migliacci


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