Como o cinema pode inspirar o conceito de autor na ciência – 04/05/2022 – Ciência Fundamental

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Polêmicas em torno da definição de autoria não são exatamente novas na ciência. Já no século XVII, Isaac Newton e Gottfried Leibniz se engalfinhavam pela primazia na invenção do cálculo – em larga parte porque a documentação do processo científico ainda era incipiente.

Com o advento do artigo científico, registrar a autoria de ideias ficou mais fácil, e o conceito se tornou central na organização da comunidade acadêmica. A autoria de trabalhos de pesquisa define praticamente todas as métricas de avaliação de cientistas, servindo como critério para distribuir empregos, verbas e reconhecimento. Não por acaso, boa parte das controvérsias no campo da integridade científica giram em torno dela, como em casos de plágio, autoria honorária ou disputas entre autores.

​Dito isso, o que significa ser autor de um artigo? A autoria na literatura já foi problematizada por pensadores como Michel Foucault ou Roland Barthes, mas estabelecê-la na ciência é bem mais difícil. Com pesquisas cada vez mais complexas e colaborativas, um trabalho científico comumente depende de dezenas ou centenas de pessoas. Algumas permanecerão envolvidas com o projeto por anos, enquanto outras farão contribuições pontuais – mas por vezes cruciais. Como traçar a linha imaginária que determina quem é um “autor”?

Áreas diferentes de pesquisa lidam de formas distintas com o problema. Muitas delas empregam os critérios do International Committee of Medical Journal Editors, que dizem que um autor deve preencher quatro quesitos: (a) contribuir substancialmente para a concepção ou o desenho do trabalho, ou para a coleta, análise, ou interpretação dos dados; (b) participar na redação ou revisão do artigo; (c) aprovar a versão final publicada e (d) concordar em ser responsável por todos os aspectos do trabalho.

A definição é vaga o suficiente para incluir qualquer um que tenha dado pitacos em diferentes etapas de um projeto, já que o que constitui uma “contribuição substancial” é bem subjetivo. Mas também é estrita o suficiente para excluir alguém que, embora tenha coletado todos os dados, não tenha lido a versão final do artigo. Para além disso, a ideia de que cada autor assuma responsabilidade pelo todo é insustentável – em um projeto envolvendo experimentos com técnicas diferentes em múltiplos laboratórios, é óbvio que ninguém poderá atestar sozinho a integridade de tudo o que foi feito.

Talvez por isso, áreas de pesquisa fortemente colaborativas optam por seguir modelos distintos. As grandes colaborações da física frequentemente publicam artigos com centenas ou milhares de autores, tipicamente listados em ordem alfabética: a medida da massa do bóson de Higgs pela Colaboração Atlas, por exemplo, enumera nada menos do que 5.154 deles. O critério é inclusivo, mas também é impreciso, ao nivelar contribuições muito distintas – e nem sempre especificadas – dentro da mesma categoria de “autor”.

Mas se todas as definições parecem problemáticas, o problema não estaria no conceito? Já em 1997, o então editor do Journal of the American Medical Association (JAMA), Drummond Rennie, afirmava que a autoria havia falhado. Com o avanço das colaborações na ciência, o modelo se tornara desatualizado e, esticado ao seu limite, não servia mais. A proposta de Rennie era substituí-lo por uma lista com as contribuições específicas de cada pessoa envolvida, que superasse a dicotomia entre ser ou não ser um autor.

Vinte e cinco anos depois, porém, a autoria segue firme e forte, o que atesta que algumas tradições são difíceis de romper. A noção de que um trabalho científico possui um ou mais “autores”, no mesmo modelo de uma obra literária, vem de um tempo em que cientistas atuavam sozinhos, ou no máximo em pequenos grupos. Determinar o autor de um trabalho científico, assim, não foi um problema durante boa parte da história.

Até meados do século XX, quando a ciência se institucionalizou em suas bases atuais, o modelo de poucos autores ainda dominava a maioria das áreas de pesquisa – e vigora até hoje em algumas delas. Talvez por isso, narrativas sobre ciência – ou honrarias como o prêmio Nobel – costumam ser focadas em indivíduos. Sendo assim, são invariavelmente injustas com dezenas ou centenas de pessoas que contribuíram para o processo de uma descoberta, mas não dividem o prêmio com os vencedores.

Curiosamente, existem tradições opostas fora do mundo acadêmico. No cinema, que também congrega equipes numerosas em torno de projetos, a autoria é resolvida de forma radicalmente diferente. Todos estamos acostumados com listas de créditos detalhadas, que deixam claro quem é o diretor, quem é o maquiador e quem é o eletricista. E a questão de quem é ou não é autor de um filme, mesmo que possa existir no plano filosófico, não tem grande relevância prática.

As diferenças não são por acaso: ao contrário da ciência, o cinema já nasce como indústria, devido à extrema complexidade técnica de filmar no início do século XX. A ideia de “cinema autoral” só viria a surgir mais tarde, com a atribuição de certa primazia ao diretor nesse quesito – ainda assim, é óbvio que filmes são frutos de muitas pessoas atuando em funções distintas.

Curiosamente, ciência e cinema evoluem de formas opostas – enquanto projetos científicos têm cada vez mais autores, é cada vez mais factível fazer filmes com equipes pequenas. No entanto, nenhuma das duas áreas mudou sua forma de atribuir crédito: cientistas seguem listando publicações das quais são “autores” sem especificar o que fizeram, enquanto cineastas só acabam conquistando um maior grau de “autoria” em um filme por meio do acúmulo de funções.

Propostas de mudar o sistema não faltam: o CRedIT, por exemplo, é uma taxonomia de catorze funções genéricas que podem ser usadas para descrever contribuições em um projeto científico, e é cada vez mais comum que tais informações sejam solicitadas na submissão de um artigo. Mas enquanto universidades e agências de fomento não pararem para olhar quem fez o quê no momento de distribuir cargos e recursos, ela seguirá sendo uma classificação para inglês ver.

A situação só vai mudar quando o mundo acadêmico admitir que adaptar seu modus operandi à divisão de funções é um imperativo para lidar com projetos cada vez mais complexos. Ao reconhecer a autoria de artigos como única forma de contribuição, o sistema não só erra na atribuição de crédito, mas também emperra a inovação na organização do trabalho científico.

Cientistas que coletam dados, por exemplo, hoje têm pouco estímulo para compartilhá-los a fim de que outros os analisem, já que a autoria de dados – em oposição a artigos – costuma ser invisível para instituições e financiadores. Já pesquisadores que queiram se especializar em funções específicas – seja realizando experimentos, gerenciando projetos ou analisando dados – não encontram carreiras compatíveis, devido ao modelo arcaico do cientista que faz tudo sozinho.

Novamente, não é preciso ir longe para ver que outras formas de organização são possíveis. Por mais que estudantes de cinema adquiram noções gerais sobre produção audiovisual, o mais provável é que acabem trabalhando em funções especializadas. A razão é que o mercado sabe reconhecer bons especialistas: não por acaso, a academia de Hollywood oferece Oscars para uma infinidade de categorias técnicas, e ninguém parece reclamar que seus vencedores não sejam autores dos filmes. E ainda que seja possível fazer filmes autorais com equipes mínimas, ninguém tentaria produzir um blockbuster nesse modelo.

Já na outra academia, seguimos obcecados com o modelo do cientista do século XIX, capaz de ser roteirista, diretor, montador e produtor ao mesmo tempo. Que pode seguir existindo, mas é insuficiente para construir por si só uma ciência robusta. Talvez seja hora de aprender com o cinema e instituir empregos – e prêmios – para bons microscopistas, analistas de dados ou gerentes de projetos. Só assim pararemos de nos estapear em disputas fúteis de autoria, e criaremos estruturas de trabalho compatíveis com a ciência do século XXI.

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Olavo Amaral é professor do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis da UFRJ e coordenador da Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade.

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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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