Única certeza hoje no Peru é a instabilidade, afirma ex-ministra – 07/10/2021 – Mundo

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Diante de mais uma crise política no Peru, que desta vez levou o presidente Pedro Castillo a reformular seu gabinete dois meses depois de tomar posse, a ex-ministra da Economia María Antonieta Alva, 36, afirma que “a única certeza hoje no país é a instabilidade”.

Em busca de melhor relação com o Congresso, no qual seu partido (o esquerdista Perú Libre) não tem maioria, Castillo demitiu o controverso primeiro-ministro, Guido Bellido Ugarte, além de outros seis ministros.

Todos são acusados de corrupção, e o premiê era o que mais enfrentava resistência do Parlamento, em razão do vínculo com Vladimir Cerrón, líder do Perú Libre, e de ações judiciais das quais é alvo —uma delas por fazer apologia do grupo terrorista Sendero Luminoso.

“É uma figura que jamais deveria ter ocupado esse cargo. Castillo, ao indicá-lo, fez uma provocação, um gesto de alguém que não quer chegar a um consenso no país”, disse Alva à Folha, por videoconferência.

A ex-ministra da gestão de Martín Vizcarra (2018-2020) participa nesta sexta-feira (8) do 3º Global Forum – Fronteiras da Saúde, evento virtual idealizado pelo Instituto Lado a Lado pela Vida. A conferência tem como proposta discutir a sustentabilidade dos sistemas de saúde no mundo.

A peruana discorrerá sobre a experiência como titular da pasta da Economia no momento em que o Peru enfrentou a primeira fase da pandemia do coronavírus, no início de 2020.

Na quarta (6), houve mais uma mudança de gabinete no Peru, desta vez causada pela possibilidade de o Congresso vetar ministros do presidente Pedro Castillo. O atual sistema político favorece esse clima de instabilidade que o país vive nos últimos anos? Enquanto a conduta dos políticos for a de manter essa mentalidade em torno das possibilidades de impedimento de ministros e do presidente, a instabilidade continuará, e a crise institucional será constante.

No momento, com a agenda política tão polarizada, não vejo um fim para esse cenário. Seria importante repensar a questão da confiança. Os ministros e o primeiro-ministro terem de pedir voto de confiança ao Congresso é um absurdo. Num cenário tão polarizado e no qual há tantas acusações de corrupção, a confiança acaba sendo usada politicamente de modo não apropriado. A única coisa estável que temos no Peru hoje é a certeza da instabilidade.

A senhora sentiu isso quando era ministra? Totalmente. Fui interpelada duas vezes pelo Congresso. O clima que se cria é o de que não se pode prever nada. Se o Executivo não tem uma bancada grande no Parlamento, fica refém dessas ameaças de censura, ao mesmo tempo que vê projetos de lei que vão completamente contra seus planos serem discutidos e ganharem força todos os dias.

Outro desafio de ser ministra é o enfrentamento com a Procuradoria, que vem fazendo mais política do que Justiça.

Qual o principal problema do governo? Qual sua posição sobre o ministro Pedro Francke, da Economia? Ele me parece preparado, e gosto da equipe que ele escolheu. Quanto ao governo em geral, vejo uma dificuldade imensa de convívio com a bancada do Perú Libre. O governo e o partido não chegam a um acordo, não se vê claramente qual é a agenda da bancada do Perú Libre e como ela deve conviver com o governo do ponto de vista institucional.

Não me pareceu um bom sinal quando o presidente indicou Bellido Ugarte como primeiro-ministro. É uma figura que jamais deveria ter ocupado esse cargo. Castillo, ao indicá-lo, fez um primeiro gesto de provocação, de alguém que não quer chegar a um consenso no país.

E o que mais a preocupa hoje? Que não exista nenhuma força política realmente preocupada com o futuro do Peru. Temos, de um lado, na direita, o fujimorismo, que representa o passado e os interesses já estabelecidos. E, do outro, uma esquerda arcaica, cujas propostas incluem receitas que já fracassaram em muitas partes do mundo. Gostaria de voltar à política, mas sinto falta de uma proposta, de uma liderança que busque consenso e olhe para o futuro.

O Peru foi um dos países mais impactados pelo coronavírus na América Latina. Como foi conduzir a economia nesse cenário? Foi um momento de revelação para os peruanos sobre sua própria realidade. Tínhamos nos acostumado à ideia de ser um país-estrela na economia regional, com altas cifras de crescimento, com um Banco Central respeitado e que mantinha a força da moeda. Mas a pandemia deixou claro que, se o país cresceu muito, deixou ao mesmo tempo de atender a temas estruturais. Nos demos conta de que deveríamos ter aproveitado o tempo de bonança para reformar as bases da economia.

Os cidadãos, subitamente, sentiram-se abandonados, porque se deram conta que o sistema de saúde não estava à altura do problema que tínhamos adiante. Além do colapso do sistema sanitário, assistimos a vários abusos de poder, com pessoas influentes desviando oxigênio de hospitais no auge da pandemia, por exemplo. Ficou evidente que o sistema não funcionava bem para todos.

O que levou o governo a impor uma quarentena dura logo de início? As cifras eram espantosas, e foi o que decidimos de emergência —e creio que corretamente. Mas então fomos nos dando conta da seriedade de outros problemas. Desenhamos, por exemplo, um plano de ajuda para um enorme número de pessoas, até percebermos que a exclusão financeira, ou seja, gente que não tem acesso a uma conta bancária, assim como a falta de caixas eletrônicos para poder retirar os benefícios, eram grandes barreiras.

Decidimos permitir que a mineração continuasse operando, com protocolos, por se tratar de uma atividade muito importante no país, até que surgiram surtos nas minas e tivemos problemas com os sindicatos. A nossa economia ficou muito debilitada [o PIB do país caiu 11% em 2020]. Ao mesmo tempo, havia dificuldades com o Congresso. Enquanto tínhamos um plano para a economia, eles queriam aprovar leis de controle de preços, de retirada antecipada de aposentadorias, com os quais não concordávamos. Como era um Congresso novo, eleito depois de o presidente Vizcarra fechar o anterior, o diálogo era difícil, nossa bancada não tinha representatividade suficiente.

Um dos principais problemas da quarentena foi o número de trabalhadores informais, de mais de 70%, que não podiam ficar em casa. Essa questão persiste. Como seria possível resolvê-la? Essa é a pergunta do milhão. Passaria por rever o modo como contratos de trabalho são feitos. E também por facilitar o acesso ao sistema bancário. Nós propusemos algumas saídas, como a conta vinculada à identidade, e outros estímulos estatais para que a formalização de mais postos de trabalho, mas eles não foram adiante.


Raio-x

María Antonieta Alva Luperdi, 36

Nasceu em Lima e estudou economia na Universidad del Pacífico. Fez mestrado em administração pública na Universidade Harvard. Pertence ao diretório do consórcio Covax, para a distribuição de vacinas, participa regularmente dos projetos Women and Public Policy, de Harvard, e leciona liderança política na Universidade Georgetown, em Washington, nos EUA.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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