Um peculiar caso de ansiedade amplificada por movimentos anormais – 20/08/2021 – Luciano Melo


Fasciculações são contrações de uma pequena parte de um músculo causadas por descargas elétricas aleatórias geradas por apenas um dos muitos neurônios que compõem o mesmo nervo.

Essa é a explicação simplificada para aquelas tremulações repetitivas e estranhas que, provavelmente, todo mundo já experienciou, em alguma parte do rosto, como pálpebras, ou quiçá, em outra região do corpo. Quase sempre causam apenas aborrecimentos e desaparecerão espontaneamente, deixando o organismo como era antes. Entretanto, quando acontecem associadas a outros distúrbios, o contexto muda e passam a denunciar a possível presença de alguma doença muito grave. Por estarem presentes em situações tão distintas, da banal à extremamente preocupante, as fasciculações podem alarmar, quando nem mereceriam atenção.

O alerta errado às vezes afeta a quem menos esperaríamos suscetibilidade. Basta ver o exemplo de Laurent Vercueil, um neurologista de 47 anos que se define como um homem comum, a viver uma vida bastante comum. Em uma noite, ele foi repentinamente acordado por uma sensação esquisita em suas pernas, que durou poucos minutos. Para sua angústia, duas semanas depois, aquela coisa estranha voltou intensamente.

O meu colega identificou a fasciculação em seus membros inferiores. Congelou de medo, reconheceu-a como um sintoma clássico de doença do neurônio motor, condição progressiva, sem cura e fatal. A partir daquela data, ele não mais dormiria adequadamente. Era impossível relaxar, a sensação tátil provocada pelo incontrolável movimento muscular o fazia imaginar o toque frio da morte, a lhe informar sobre seu futuro.

Convicto, nem mesmo os resultados normais de exames laboratoriais aplacaram suas pessimistas elucubrações. Vercueil se afastou de compromissos acadêmicos, das sociedades médicas e começou a contatar os administradores de seu seguro de saúde. Para ele qualquer atividade não direcionada a espichar sua sobrevida se tornara um fardo sem sentido.

Outro neurologista e antigo amigo foi informado das desistências repentinas do insone médico. Preocupado, foi visitá-lo.

Vercueil foi franco, não escondeu seu temor, mostrou as fasciculações e apontou outros dois sintomas que, na ocasião, estava certo de que sofria: rigidez muscular e fraqueza. Seu par foi objetivo, disse que deveria dormir. Bastariam duas noites de bom sono para tudo se resolver, e assim sugeriu um remédio.

Animado pela ideia, o tenso homem acatou o conselho. Usou as pílulas e dois dias depois seus sintomas desapareceram, como magia.

Síndrome da ansiedade e fasciculação, esse era o diagnóstico correto para Laurent Vercueil. Ele mesmo descobriu isso, dias após o sufoco ter passado. Essa afecção, descrita há menos de uma década, faz de alvos pessoas como o neurologista: ansiosas, insones e consumidoras abusivas de café.

Fazia sentido. Antes da primeira fasciculação, já há alguns meses, ele havia aumentado sua jornada de atendimento médico, além de trocar horas de sono por tempo despendido a preparar exaustivamente aulas para congressos e reuniões científicas. Fasciculações, em seu caso, eram a emersão física da ansiedade. A tensão piorou quando pensou sofrer uma doença grave.

A ansiedade é uma emoção adaptativa, pois aumenta nossa vigília e nos faz mentalmente antecipar o que acontecerá no futuro, para permitir um melhor preparo. Porém, quando muito intensa, estreita a atenção. Com a cognição concentrada em apenas algumas particularidades, outros fatores, eventualmente mais relevantes, são ignorados.

Meu colega neurologista se conectou à ideia da doença grave. Convicto, não valorizou resultados de exames e ficou longe da sensatez. Sua ansiedade alimentou sintomas que alimentaram a ansiedade, e assim foi até uma opinião amiga quebrar este ciclo vicioso.

Referências:

1-Vercueil L. FASICS: fasciculation anxiety syndrome in clinicians. Pract Neurol. 2020 Dec;20(6):514-515. doi: 10.1136/practneurol-2020-002770. PMID: 33229449.

2-Simon NG, Kiernan MC. Fasciculation anxiety syndrome in clinicians. J Neurol. 2013 Jul;260(7):1743-7. doi: 10.1007/s00415-013-6856-8. Epub 2013 Feb 12. PMID: 23400500.


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