Um ovo de Páscoa com recheio de conversa mole – 01/04/2022 – Cozinha Bruta

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Neste primeiro de abril, o colega Leandro Narloch publicou um artigo cheio de pegadinhas retóricas para rebater meu texto sobre um ovo de chocolate vendido a R$ 5.950. Dói usar este espaço para divulgar a lógica capciosa de Narloch, mas é o meu nome na reta.

O título do texto, “Ovo de Páscoa de R$ 5.950 torna o mundo um lugar melhor” parafraseia –voluntariamente ou não– um slogan da hamburgueria Madero. Cruz credo.

Passando da forma ao conteúdo, Narloch precisaria ser tolo para acreditar no que escreveu. Conheço o cara há 20 anos, trabalhei com ele, já bebemos várias cervejas juntos, sei que é um sujeito de trato finíssimo e nada tonto.

Narloch se perdeu no personagem, como dizem por aí.

Ele apostou suas fichas em pinçar incongruências no consenso sobre este ou aquele assunto –escravidão, Guerra do Paraguai, o raio que o parta–e embrulhá-las numa armadilha lógica que esculacha a visão majoritária. Com argumentos tíbios, mas suficientemente bem-estruturados para convencer os bocós antissistema e negacionistas afins.

Foi uma boa aposta. Com a ascensão da extrema direita, os sofismas narlochianos deram fama, dinheiro e muita autoconfiança ao autor. Narloch se julga o inventor de uma tática politicamente incorreta capaz de virar o jogo em qualquer campo, até na alta confeitaria.

O ovo de R$ 5.950, vendido pela confeiteira Isabella Suplicy, é uma metonímia da indústria dos artigos de luxo. Que Narloch defende como inclusiva e distribuidora de riqueza, quase socialista.

Para falar de chocolate, ele mete um telefone celular na jogada.

O articulista afirma que, nos primórdios, o celular era artigo de luxo e que ostentá-lo era considerado esnobe. Concordo. Depois diz que os primeiros aparelhos caríssimos financiaram uma indústria que se popularizou. Também concordo.

Mas o que isso tem a ver com ovos de Páscoa?

Celulares podem ser comparados com computadores pessoais, fornos de micro-ondas ou inteligência artificial. Com tecnologias que já foram incipientes e, portanto, muito caras.

Deu-se algo bem distinto no chocolate de R$ 5.950. Pegou-se um troço banal para injetar-lhe valor artificialmente com marcas, exclusividade e outros fatores abstratos. Como se faz com um boné ou um tênis de lona.

Narloch também diz que o luxo “é um modo de convencer os ricos a desconcentrar voluntariamente seu patrimônio”. Então afirma que o dinheiro gasto em coisas caríssimas “fortalece uma cadeia produtiva mais qualificada e remunerada” do que a indústria das coisas comuns.

Tem mais: “Quem se preocupa com a desigualdade deveria ver com bons olhos quando milionários pagam R$ 200 no que gente comum compra por R$ 20.”. Num bolovo, talvez. Não: melhor ficarmos no chocolate.

A multiplicação mágica não obedece a mesma proporção para o agricultor, o confeiteiro, a tia que faz o pacote, o sujeito das redes sociais. Esses podem faturar uns trocados extras, nunca dez vezes mais.

Mas alguém aí pega o grosso dos R$ 180 excedentes porque, como o próprio Narloch diz, o dinheiro não desaparece. A grana circula entre os ricos, e só entre eles. Meio que tanto faz.

Se o Narloch acha bacana um chocolate de cinco salários mínimos num país em que 24% da população não têm o que comer, beleza. Pela incoerência ele não peca.

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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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