Traiu Bolsonaro e foi à Bienal – 01/12/2021 – Conrado Hübner Mendes

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“Faz escuro mas eu canto” dá título à 34ª Bienal de São Paulo (aberta até domingo). O verso de esperança foi extraído de poema do amazonense Thiago de Mello, publicado em 1965.

Perceber, descrever e entender esse escuro coletivamente é o maior desafio político brasileiro de 2022. Também o foi de outros momentos de grandeza histórica, como 1988.

Ninguém experimenta o escuro da mesma maneira e de um mesmo lugar, mas a democracia precisa traçar linhas compartilhadas que Bolsonaro não só rompeu como nega existir. A democracia precisa voltar a cantar seu canto dos desafinados. Apesar das divergências, tem inimigos comuns que rejeitam qualquer ideal de amizade cívica.

A Bienal ajuda a dar forma à enormidade da ruína bolsonarista, uma ruína jurídica e institucional, material e imaterial, visível e invisível. Muitas instalações jogam luz nesse presente que pede para passar despercebido.

Como tentou Hélio Oiticica, em “A Ronda da Morte”, uma festa dançante cercada por homens a cavalo, que deixam à vista o perigo iminente. Ou Carmela Gross, em “Barril”, uma lona que cobre objeto misterioso no meio da cidade e esconde o perigo e o malfeito. A lona “decreta sigilo”, rotina que já vale até para matrícula escolar de filha do presidente.

Lá se pode apreciar a experiência do cárcere de Joel Rufino dos Santos, professor preso em 1973 por integrar a redação de “A História Nova do Brasil”, parte de projeto de reformas na educação brasileira que antecederam a ditadura militar. Da prisão, escreveu cartas ao seu filho de oito anos, revisadas por censores. Romanceava sua ausência:

“Fui convidado pelo governo a contar algumas coisas que eu fiz. Por exemplo: eu dei algumas aulas sobre coisas que o nosso governo não gosta; escrevi alguns livros que o nosso governo também não gostou.”

“As aulas que eu dei, as histórias que eu contei e as coisas que eu escrevi —eu acho que são coisas certas. O governo não acha. O juiz é quem vai decidir.” O juiz tomou dois anos.

A CCJ do Senado aprovou nesta quarta-feira (1°) nomeação de um “juiz que vai decidir”.

Por André Mendonça, Rufino ainda estaria preso: “Para nós não, mas em muitos países a democracia foi conquistada com sangue derramado e vidas perdidas.”

Aqui, e só aqui, a democracia teria brotado de oração. No mesmo dia, soubemos que o Ministério da Mulher mandou a polícia atrás de professores em Resende. Andaram ensinando “coisas que o governo não gosta”.

A instalação “Evil.27: Notas de Selma” conta como o movimento por direitos civis nos Estados Unidos acompanhou a transição do rádio para a televisão, e o impacto nas conquistas sociais de então.

Na época do boicote aos ônibus de Montgomery, em 1955, a mobilização dependia mais da imaginação e do “horizonte mental complexo” construído pelas palavras do rádio.

O envolvimento no boicote não era produto de evidências visíveis. Já nas marchas de Selma, no Alabama, dez anos mais tarde, a disseminação da TV transferiu a “energia comunicativa para imagens e evidências”.

A ausência de imagens, no primeiro caso, ao contrário de atrapalhar os boicotes, teria desencadeado transformação mental coletiva que imagens cruas paralisariam. O conhecimento extraído de um “evento sem imagem” desenvolveria capacidade de imaginação moral que a evidência acachapante atrofiaria. A não visibilidade, argumentam, às vezes produz “a visibilidade mais revolucionária de todas”.

As imagens do Brasil contemporâneo não têm gerado reação à altura: o Pantanal em chamas, UTIs em colapso, Manaus sem tubos de oxigênio, criança indígena desnutrida, pessoas na rua em busca de troco para comer osso, 600 balsas de garimpo no rio Madeira. Não se tolera isso sem um sério déficit de imaginação moral e neutralização política.

Na instalação sobre o filme “Hiroshima Mon Amour”, a personagem feminina busca saber da explosão nuclear por meio de explicações e fotografias. O personagem masculino responde: “Você não viu nada em Hiroshima”. As coisas mais importantes que ali se passaram não foram visíveis.

Um coral infantil iugoslavo cantava, em Belgrado, no ano de 1987, “meu país é o mais bonito de todos”. Reunidos para cantar a mesma música 25 anos mais tarde, após guerra civil de 130 mil mortos, o triunfalismo patriótico se converteu em dor e vergonha.

Bienais assim podem deixar de acontecer. Artistas estão na mira porque fazem coisas que o governo não gosta.


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