Trabalho: você está feliz? Seu chefe quer saber – 23/05/2022 – Mercado

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Garry Ridge, que dirige a empresa química WD-40, tem um estilo de liderança guiado por duas fontes —Aristóteles e o CEO da BlackRock, Larry Fink.

“O prazer no trabalho coloca perfeição no trabalho”, disse Ridge primeiro, citando o filósofo grego.

Então ele pegou um memorando recente da BlackRock. “As empresas que criaram fortes laços com seus funcionários tiveram níveis mais baixos de rotatividade e retornos mais altos durante a pandemia”, Ridge leu em voz alta.

Isso ele pontuou com seu próprio comentário: “Bem, dã!”

A WD-40, que vem numa lata azul e amarela conhecida em muitas casas que tinham portas barulhentas, é um produto de limpeza com uma fórmula secreta que consegue soltar um parafuso enferrujado, remover giz de cera da parede, tirar insetos grudados no carro e eliminar a ferrugem de correntes de bicicleta.

Ridge gosta de lembrar aos quase 600 funcionários de seus 17 escritórios como seu trabalho é útil. Mas ele também acredita que alguns são inspirados pela cultura pouco ortodoxa da empresa. A WD-40 não tem gerentes, apenas treinadores. Os trabalhadores podem receber prêmios “Madre Teresa” por doarem seu “tempo, talentos e tesouros” à comunidade. Eles podem lembrar seus colegas durante as reuniões para criarem juntos “memórias positivas duradouras”.

Muito antes da pandemia, vários deles desconfiavam de empresas que se anunciavam como dedicadas a manter os empregados felizes. Havia as empresas de tecnologia cujos escritórios em estilo de campus universitário tinham piscinas de bolinhas e escorregadores. Havia escritórios com bufês de almoço e vinho rosé gelado. Um número crescente de empregadores avaliava a felicidade dos funcionários com pesquisas, muitas vezes contratando consultorias para criar diversão no local de trabalho.

Para algumas pessoas, a busca da felicidade no trabalho –e o preço associado a isso, como um programa de US$ 18 mil para gerentes sobre como liderar equipes felizes– pode parecer uma alquimia corporativa que tenta transformar sentimentos em produtividade. Pode parecer um incentivo para sorrir e pôr de lado as demandas menos convenientes para os chefes, como trabalho remoto ou aumento de salários.

Essas críticas assumiram uma nova urgência à medida que trabalhadores e empregadores discutem os planos de retorno aos escritórios, no que os economistas continuam caracterizando como um mercado de trabalho apertado. Alguns trabalhadores dizem que preferem flexibilidade, ou aumentos ajustados pela inflação, a engodos corporativos como um show de Lizzo para os funcionários do Google e degustação de cervejas na Microsoft.

“É o ‘não vou ajudá-lo a definir seu horário antecipadamente de uma maneira que o ajude, mas aqui está um código de desconto'”, disse Jessica Martinez, 46, diretora de programa de uma fundação global que há muito mantém as Quartas-Feiras do Vinho e agora está distribuindo presentes de volta ao escritório, como garrafas de água.

“As pessoas estão tentando fazer tudo voltar ao ‘normal’, mas a verdade é que o normal era terrível para algumas pessoas”, disse ela. “Por que não lhes dar o que elas realmente querem?”



As pessoas estão tentando fazer tudo voltar ao ‘normal’, mas a verdade é que o normal era terrível para algumas pessoas. Por que não lhes dar o que elas realmente querem?

Em alguns locais de trabalho, “felicidade” pode significar deixar os funcionários escolherem seus próprios supervisores. Pode significar livrar-se das avaliações de desempenho. Também significa normalmente medir os níveis de felicidade –embora nem todos concordem sobre o significado de “felicidade”. Veja os de Dalai Lama, Dale Carnegie e Barbara Ehrenreich, por exemplo.

Nos últimos anos, economistas e psicólogos comportamentais têm mostrado aos empregadores que há uma tese comercial em sua fixação por positividade. Um estudo publicado no Journal of Labor Economics descobriu que as pessoas que receberam chocolates e vídeos de comédia –itens geradores comuns de felicidade– eram 12% mais produtivas do que um grupo que não ganhou presentes. Outro estudo do Journal of Financial Economics mostrou que as empresas que aparecem na lista dos cem melhores locais de trabalho têm maiores retornos para os acionistas do que seus pares.

“Há evidências de que entendemos errado a flecha causal da felicidade”, disse Laurie Santos, cientista cognitiva que dá um popular curso sobre felicidade na Universidade Yale. “Você pensa: ‘Estou me sentindo produtiva no trabalho e as coisas vão bem no trabalho e, portanto, estou feliz’. Mas as evidências parecem sugerir que a outra seta também existe, que a felicidade pode realmente afetar seu desempenho no trabalho”.

A ideia de que as empresas devem se preocupar com a felicidade surgiu com o aumento dos empregos não manuais, disse Alex Edmans, professor de finanças na London Business School. À medida que a produtividade de alguns trabalhos se tornou mais difícil de medir –mudando para a qualidade e quantidade de ideias, não para o número de alfinetes fabricados ou tampas parafusadas em tubos de creme dental–, os gerentes decidiram que deveriam fazer seus funcionários se sentir motivados. A compensação era importante, mas também o modo como as pessoas se sentiam no emprego.

Mas muitos veem um risco para os trabalhadores em acreditar que seus patrões estão cultivando um relacionamento emocional com eles, quando na realidade o relacionamento é ligado ao dinheiro.

“Seu chefe não está lá para lhe proporcionar felicidade”, disse Sarah Jaffe, autora de “Work Won’t Love You Back” (O trabalho não vai retribuir seu amor). “Não importa o quanto eles digam que estão focados na felicidade, eles estão focados nos lucros.”

“Alguém está sendo pago para trazer essa nova e excitante cultura de felicidade no local de trabalho”, acrescentou Jaffe. “Eu gostaria de saber quanto meu chefe está gastando.”



Alguém está sendo pago para trazer essa nova e excitante cultura de felicidade no local de trabalho. Eu gostaria de saber quanto meu chefe está gastando.

A consultoria britânica Happy Ltd. chama o programa que administra para líderes seniores de Happy MBA. O custo é de aproximadamente US$ 18 mil (R$ 90 mil), e os participantes recebem um certificado, não um diploma real, por meio do Institute of Leadership and Management. Em uma sessão recente, gerentes de empresas e organizações sem fins lucrativos trocaram dicas que incluíam permitir que os funcionários escolhessem seus supervisores.

A Woohoo, empresa dinamarquesa que ajuda a criar pesquisas de felicidade, e sua parceira de software, Heartcount, normalmente cobram das empresas cerca de US$ 4 por funcionário por mês, além de taxas de consultoria que o fundador da Woohoo, Alexander Kjerulf, não quis informar porque variam muito.

Woohoo e Heartcount consultam psicólogos e estatísticos para garantir que suas avaliações se concentrem nas respostas emocionais, e não nas lógicas, das pessoas ao seu trabalho. As pesquisas semanais, enviadas por email às sextas-feiras, incluem perguntas como: Você se orgulha do trabalho que faz? Você tem sido elogiado ultimamente pelo excelente trabalho que tem feito? Depois a Woohoo ajuda os empregadores a interpretar os dados.

Esses dados, no entanto, levantam seu próprio conjunto de perguntas mais capciosas do que aquelas normalmente cobertas por uma pesquisa online. O que significa mesmo ser feliz?

Kjerulf define como a medida em que as pessoas experimentam emoções positivas no trabalho, ou enquanto pensam sobre o trabalho durante seu tempo pessoal. Os líderes da WD-40 entendem que isso inclui uma combinação de trabalho significativo com o sentido de pertencimento.

Outra empresa de avaliação do local de trabalho, a Culture Amp, que atende cerca de 4.500 empresas, não acredita em medir a felicidade, preferindo métricas como engajamento e bem-estar. Seus líderes veem a felicidade como algo instável que difere de pessoa para pessoa e está muito além do controle do empregador.

“Admiro o sentimento por trás disso, mas para medir fica complicado”, disse Myra Cannon, diretora de ciência de pessoas da Culture Amp. “A felicidade é passageira.”

Uma das empresas que a Woohoo apoiou é a Vega, uma desenvolvedora de software na Sérvia. Ela publica um boletim mensal chamado Happiness Central, parte de sua intenção de “comunicar demais nossas conquistas”. Nas “guerras de memes” que ocorrem duas vezes por ano, os funcionários são recompensados por criar memes que “zombam das pessoas em cargos de nível C” na empresa. O CEO às vezes surpreende a todos que passam pela porta com salada de frutas.

“Se as pessoas tiverem melhores relacionamentos entre si, especialmente dentro das equipes, podemos esperar um melhor desempenho”, disse o CEO e cofundador da Vega, Sasa Popovic. “Podemos esperar que as pessoas sejam mais engajadas e, no final, nossos clientes recebam um serviço melhor e fiquem mais felizes com nosso trabalho.”

Mas esses relacionamentos no escritório não pagam as contas dos trabalhadores, crítica que cresceu à medida que a felicidade se torna um assunto comum nas salas de reuniões.

“No início, muitas startups davam benefícios ótimos às pessoas e sobrecarregavam seus funcionários, e eles tentavam encobrir isso comendo lanches na cozinha”, disse Martinez, diretora da fundação. Mas ela observou que a escassez de mão de obra está dando a um número maior de trabalhadores a oportunidade de dizer que não vão tolerar o que faziam antes.

“As vagas não estão sendo preenchidas porque você tratava mal as pessoas”, disse ela.

A flexibilidade de trabalhar em casa deixou alguns trabalhadores mais à vontade para dizer aos empregadores o que realmente os deixa felizes –a liberdade de passar mais tempo com a família, e não almoços gratuitos no escritório.

“Comer cereal na sala de descanso não compensa não poder pegar seus filhos na escola”, disse Anna King, 60, mãe que trabalha numa empresa de energia em Portland, no Oregon. “As verdadeiras preocupações são: seus funcionários se sentem parte da equipe –não porque estão jogando pingue-pongue juntos, mas porque estão cumprindo metas reais e têm um horário de trabalho decente?”

Enquanto milhões de empregados fazem exigências ousadas a seus patrões, especialmente em torno da flexibilidade permanente, alguns dizem que o foco na felicidade é uma distração. Afinal, os prêmios “Madre Teresa” não melhoram as condições dos trabalhadores –e, na verdade, podem incentivá-los a dedicar mais horas à comunidade corporativa, às custas de suas vidas pessoais.

“Não acho que coisas como meditação ou qualquer outra que os patrões estejam fazendo para aumentar o bem-estar sejam iniciativas ruins”, disse Heidi Shierholz, presidente do Economic Policy Institute, um grupo de pensadores progressistas. “Mas elas não substituem salários decentes, benefícios decentes, horários saudáveis.”



Não acho que coisas como meditação ou qualquer outra que os patrões estejam fazendo para aumentar o bem-estar sejam iniciativas ruins. Mas elas não substituem salários decentes, benefícios decentes, horários saudáveis.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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