Trabalhadores americanos abandonam empregos em massa – 13/10/2021 – Lúcia Guimarães


No mês de agosto, um número recorde de 4,6 milhões de americanos pediram demissão. Não sabemos quantos foram para casa cruzar os braços, quantos trocaram de profissão, quantos —a maioria mulheres— não têm condições de trabalhar por causa do alto custo de creches.

A longa quarentena imposta pela pandemia acelerou o descontentamento em toda a força de trabalho, e essa tendência tem diferentes motivos a depender das profissões e das faixas de renda. Os americanos trabalham mais do que qualquer outra população nos países ricos; não é incomum uma semana de 50 horas de jornadas.

O recorde de demissões voluntárias foi impulsionado por empregados de restaurantes, bares e hotéis. Os salários baixos, a dependência de gorjetas e o clima de guerra civil criado pelo público radicalizado em torno de máscaras, distanciamento e obrigação de vacinar-se contra a Covid tornou boa parte da indústria de serviços uma atividade de risco.

A pandemia viu nascer em Nova York o grupo Los Deliveristas Unidos, que reúne um número estimado de 80 mil entregadores de refeições e alimentos, a maioria trabalhando para serviços de aplicativos como Uber Eats. Em setembro, a Câmara Municipal aprovou a primeira lei do país de proteção para os “deliveristas” —salário mínimo, acesso a banheiros e outras melhorias para a explorada categoria que se mostrou crucial durante a quarentena.

As cenas de agressão física a bordo de aviões viraram rotina. Comissários de bordo agora recebem aulas de defesa pessoal. Dezenas de milhares desses profissionais que se ausentaram durante a quarentena não retornaram.

Há escassez de professores na rede pública, especialmente em disciplinas como matemática e ciências, pelo fato de que especialistas nessas áreas podem ser atraídos por empresas em áreas ligadas a, por exemplo, tecnologia. Um distrito escolar da Califórnia recorreu ao gesto desesperado de colocar flyers nas lancheiras dos alunos anunciando vagas abertas. Aqui pesa também o estresse no trabalho. Com o retorno das aulas presenciais, pais passaram a encenar revoltas contra medidas sanitárias.

Há uma aguda escassez de enfermeiros e trabalhadores na área de saúde agravada pela entrada em vigor da exigência de vacinas. O maior complexo hospitalar de Nova York demitiu 1.400 funcionários na primeira semana de outubro. E pelo menos em um hospital mundialmente famoso da cidade fui informada de que havia dez médicos entre os demitidos por recusar a imunização contra a Covid.

Entre profissionais com alto nível de educação e renda confortável, o isolamento forçado e a viabilidade do home office despertaram o que é descrito como a “corrida para Walden Pond”. É uma referência ao lago imortalizado na obra do filósofo Henry David Thoreau, que escreveu sobre sua experiência minimalista de dois anos vivendo sozinho na área.

Há mais de um ano lemos relatos de casais que trocam seus empregos competitivos por atividades com remuneração mais baixa, depois de se mudarem para locais com mais acesso à natureza e moradia mais barata. São privilegiados em busca de inverter o clichê “americanos vivem para trabalhar, enquanto europeus trabalham para viver”.

A direita demagógica falsamente responsabiliza Joe Biden e os pacotes de auxílio na pandemia pela escassez de mão de obra. Mas a Covid apenas exacerbou décadas de descontentamento com o declínio de salários e das condições de trabalho, o esgarçamento da rede de proteção social e as rupturas trazidas pela economia digital.


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