Terremoto: Tragédia no Afeganistão abre janela ao Talibã – 22/06/2022 – Mundo

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O Afeganistão foi esquecido do noticiário internacional durante quase uma década, no ocaso da ocupação americana realizada na esteira dos atentados do 11 de setembro de 2001, planejados por Osama bin Laden sob a guarda do Talibã.

Em agosto de 2021, em uma campanha militar espetacular, os fundamentalistas islâmicos tomaram o país de assalto e aceleraram a retirada anunciada por Joe Biden do país. Foi um vexame internacional para os EUA, mas também um choque geopolítico na região, que viu as forças de Washington se desengajarem de seu maior atoleiro para poderem atuar contra a China no Indo-Pacífico.

Da mesma maneira com que recuperaram o holofote, os talibãs se viram retirados deles. Parece uma década, politicamente, desde os extraordinários eventos ocorridos há menos de um ano: o mundo vive uma nova guerra na Europa, a economia mundial está sob um enorme teste de estresse.

Tudo isso permitiu ao Talibã endurecer seu regime como havia prometido que não faria. Mulheres perderam progressivamente os direitos conquistados nos 20 anos de presença ocidental e voltaram a ter de cobrir o rosto. Há relatos de violência contra minorias e, nas regiões rurais ao menos, regras draconianas de conduta ressurgiram.

A oposição remanescente fugiu ou encastelou-se no interior. Com o drama da Guerra da Ucrânia e as convulsões internacionais, tudo isso passou relativamente sob o radar do interesse da mídia ocidental, como seria do jogo.

Os problemas dos talibãs, contudo, não desapareceram. O país enfrenta uma crise humanitária contínua há décadas, mas que agravou-se com o fim da ajuda externa oficial ao governo. Ela cresceu exponencialmente durante os anos da ocupação, chegando a US$ 6,7 bilhões em 2011, em valores corrigidos do Banco Mundial.

Aí está incluído tudo, inclusive a montagem do que parecia poderoso Exército Nacional Afegão, desmontado pelos bem treinados e experientes guerreiros fundamentalistas em meras duas semanas de ofensiva. Mas a ajuda humanitária era parte central: dos 39 milhões de afegãos, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), 23 milhões são considerados extremamente vulneráveis à fome e à doença.

Os valores de ajuda foram caindo e, em 2019, chegaram a US$ 4,3 bilhões. Tanto EUA quanto União Europeia, ocupantes e maiores doadores, cortaram ajudas ao governo assim que os radicais chegaram voltaram ao poder do qual haviam sido expulsos em 2001. Aos poucos, auxílio humanitário voltou, organizado por entidades não governamentais e supranacionais, como a própria ONU.

Até abril, último dado disponível, US$ 1,8 bilhão havia chegado em comida e remédios, basicamente. A ONU calcula que são necessários ao menos US$ 4,4 bilhões para garantir, neste ano, a subsistência afegã. Isso para não falar na crise com refugiados.

Antes da volta dos fundamentalistas, 80% da receita do governo vinha de fora. O Talibã também viu US$ 10 bilhões em reservas estrangeiras congeladas por seus antigos rivais no exterior, e não há crédito. Países com Emirados Árabes Unidos e Turquia estabeleceram canais de comunicação e negócios, que de resto já mantinham antes, assim como China e Rússia. Mas não está clara o quão esses aliados, velados ou não, estão a ajudar.

Assim, a tragédia em curso do terremoto que atingiu o país em sua instável, politicamente e geologicamente, fronteira com o Paquistão abre uma janela de oportunidade para o regime. Não por acaso, o governo já pediu ajuda externa.

Deverá recebê-la em sua triste volta ao protagonismo mundial por algumas horas ou dias; manter o apoio enquanto retoma práticas medievais na lida com seus cidadãos, contudo, é uma história bem diferente. Quando foi alvo de terrorismo islâmico pior que o seu próprio no ano passado, a janela também se abriu, só para ser fechada na sequência.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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