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Republicanos acusam imigrantes de fraude nas urnas nos EUA – 29/04/2022 – Mundo

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Seis anos depois de o ex-presidente Donald Trump ter aberto caminho para a Casa Branca com uma campanha baseada em gestos nativistas e xenofóbicos para atrair o eleitorado branco, os 3.200 km da linha que divide o México dos Estados Unidos voltaram a ser uma obsessão do Partido Republicano.

Mas o ressurgimento da questão entre a direita vem acompanhado de um novo detalhe: cada vez mais líderes e candidatos republicanos agora declaram, sem base em fatos, que imigrantes que estão no país de forma ilegal ganharam direito ao voto.

Fraudes eleitorais são extremamente raras, e alegações de que grande número de imigrantes que vivem nos EUA ilegalmente estão votando foram desmentidas reiteradas vezes. Mesmo assim, essa mensagem fabricada, que capitaliza sobre uma ameaça inventada para reforçar a mentira mais ampla de Trump sobre eleições supostamente fraudadas, agora está encontrando uma audiência receptiva em mais de 12 estados do país, incluindo vários distantes da fronteira com o México.

No condado de Macomb, no Michigan, onde os republicanos estão fortemente divididos entre os que querem investigar a eleição de 2020 e os que querem deixar o assunto para trás, muitos eleitores na convenção republicana local este mês disseram temer que imigrantes estejam entrando no país ilegalmente não apenas para roubar empregos de americanos, mas também para roubar votos, acessando as urnas de forma fraudulenta para eleger candidatos democratas.

“Não quero que eles cheguem aos estados vermelhos [de maioria republicana] e os convertam em azuis [de maioria democrata]”, disse Mark Checkeroski, ex-engenheiro chefe de um hospital. Isso apesar de dados da eleição de 2020 terem mostrado que muitos lugares com expressiva população imigrante tiveram um desvio para a direita.

O discurso intransigente sobre imigração ilegal e segurança nas fronteira é uma constante na política americana há anos. Tanto republicanos quanto democratas –nos últimos anos, especialmente o Partido Republicano— têm historicamente aderido a estereótipos preconceituosos que vinculam imigração ilegal a criminalidade e retratam latinos e asiático-americanos como eternamente estrangeiros no seu país, ou, o que é pior, como ameaça econômica.

Mas o salto de fronteiras inseguras para eleições inseguras é mais recente. E não é difícil entender por que alguns eleitores fazem essa conexão.

Em Ohio, onde republicanos que disputam uma eleição primária apertada para o Senado falam em imigração em termos apocalípticos e publicam anúncios mostrando vídeos em preto e branco de câmeras de vigilância ou imagens pouco claras de pessoas atravessando a fronteira, Trump, num comício no último sábado (23), atiçou o medo de “fronteiras abertas e eleições horríveis”, pedindo leis mais rígidas exigindo documentos de identidade de eleitores e comprovantes de cidadania nos locais de voto.

As propagandas de campanha e os materiais de divulgação de documentários de direita exibidos em telões antes do discurso do ex-presidente pareceram alternar-se entre mentiras, dizendo que a eleição de 2020 foi roubada, e frases exageradas acusando de crimes imigrantes que estão no país de forma ilegal. No trailer de um filme de Dinesh D’Souza, autor e diretor de cinema conservador que Trump indultou por ter feito contribuições de campanha ilegais, pessoas denunciaram o suposto “tráfico de votos”, comparando o trabalho de aparentes grupos de contato com eleitores à “máfia mexicana” e descrevendo como “mulas” as pessoas que levavam votos enviados pelo correio a urnas postais.

É legalmente permitido em alguns estados que terceiros, como familiares de um eleitor ou organizações comunitárias, levem cédulas de voto preenchidas a urnas eleitorais postais. Durante a pandemia, a prática ganhou importância vital para muitas pessoas.

Mas as mensagens parecem feitas sob medida para pessoas que assistiram ao comício, como Alicia Cline, 40, que disse acreditar que os democratas no poder estão utilizando a crise na fronteira para atrair mais votos. “A eleição passada já foi roubada”, disse Cline, horticulturista de Columbus, Ohio. “Acho que o establishment está utilizando as pessoas que atravessam a fronteira em grande número para conseguir mais votos para ele próprio.”

A onda mais recente de instigação ao medo de que imigrantes estariam roubando votos é apenas uma entre várias linhas de ataque. Os republicanos estão fazendo da imigração um de seus focos nas eleições parlamentares deste ano, e governadores republicanos confrontam a administração Biden sobre o que descrevem como condições abissais na fronteira.

Na semana passada, governadores de 26 estados anunciaram a criação de uma “força de ataque na fronteira” para compartilhar informações de inteligência e combater o narcotráfico, isso enquanto a administração Biden diz que tem planos de cancelar uma norma adotada na era de Trump permitindo que funcionários de imigração federais rejeitem candidatos a asilo ou os deportem sumariamente.

Jane Timken, candidata ao Senado federal e ex-presidente do Partido Republicano estadual, disse que a fronteira do México tem importância enorme para os habitantes de Ohio, porque muitos consideram que os problemas do estado com drogas e criminalidade vêm da fronteira. “Hoje quase todos os estados são estados de fronteira”, ela disse.

Alguns estrategistas republicanos avisam que o foco em imigração pode ser um tiro que sai pela culatra e acabar prejudicando o partido, na medida em que a nação se torna cada vez mais diversa. Mas historiadores e cientistas políticos dizem que, ao aproveitar os medos suscitados pelas mudanças demográficas e a pandemia, os republicanos podem mobilizar seus eleitores mais ardentes.

“Quando estamos sentindo tanta ansiedade, este é o momento quando o sentimento xenofóbico e anti-imigrantes pode crescer”, afirmou Geraldo L. Cadava, que estuda a presença dos latinos nos Estados Unidos e é professor adjunto na Northwestern University.

Poucas disputas eleitorais em todo o país captam a dinâmica da questão tão perfeitamente quanto a primária republicana pelo Senado no Ohio. Os pré-candidatos ali estão seguindo o exemplo de Trump, que, em 2016, tentou colocar a culpa pela crise letal dos opioides na imigração ilegal e nos cartéis mexicanos do narcotráfico.

Quando empresas fecharam fábricas e transferiram empregos para outros países, a raiva e o ressentimento contra estrangeiros começaram a crescer. A crise dos opioides intensificou a devastação, com farmacêuticas e médicos inescrupulosos lucrando em cima de medicamentos contra dor.

Mas, segundo autoridades policiais federais e locais, após o fechamento de chamadas “clínicas de dor”, clínicas médicas especializadas no diagnóstico e controle da dor, organizações criminais mexicanas assumiram seu lugar. Em Ohio, essas organizações transportam grandes volumes de metadona e fentanil, muitas vezes na forma de pílulas falsificadas, pela rodovia 71, que atravessa o estado e passa por Columbus. Os índices de overdose no estado estão entre os mais altos do país.

J.D. Vance, autor de “Era Uma Vez um Sonho” e endossado por Donald Trump, joga sal nessas feridas, dizendo a eleitores em um anúncio que quase perdeu sua mãe, dependente de drogas, para o “veneno que nos chega vindo do outro lado de nossa fronteira”.

Republicanos como Vance argumentam que são atacados injustamente por levantar preocupações legítimas, apontando para apreensões de volumes enormes de drogas e para um aumento das apreensões na fronteira, que em junho do ano passado chegaram ao nível mais alto dos últimos 20 anos.

Advogados que defendem os direitos de imigrantes dizem que os republicanos estão caracterizando incorretamente uma emergência de saúde pública como problema de segurança nacional e contribuindo para o preconceito contra latinos e imigrantes, independentemente de serem cidadãos americanos ou não.

Eles dizem também que a crítica feita pelos republicanos não tem base na realidade: muitos, senão a maioria, dos imigrantes que chegam ao Ohio já foram triados por agências federais de imigração. Muitos deles são refugiados e candidatos a asilo, e cada vez mais deles chegam com vistos de trabalho.

Angela Plummer, diretora executiva da ONG Community Refugee and Immigration Services, descreveu o modo como os candidatos republicanos ao Senado andam caracterizando imigrantes como um flashback perturbador do discurso de campanha de Donald Trump em 2015. “É bom ter políticos com plataformas diferentes sobre a imigração, mas não é bom que eles enveredem pelo racismo e acusações danosas.”

Na mesma campanha, J.D. Vance diz que a política imigratória do presidente Joe Biden acarreta em “mais eleitores democratas inundando este país” –afirmando explicitamente que imigrantes não autorizados atravessam a fronteira e ganham acesso às urnas para apoiarem a esquerda.

O discurso sobre imigração começou a esquentar no ano passado, em meio a um fluxo de migrantes e candidatos a asilo vindos do Haiti, Guatemala e Honduras. No Texas, o governador Greg Abbott e autoridades locais descreveram a imigração ilegal como uma “invasão”, e Abbott anunciou planos para concluir o muro de Trump na fronteira.

As acusações só têm se intensificado com a campanha para as eleições parlamentares. Desde janeiro, candidatos republicanos em 18 estados, incluindo o Wisconsin, Pensilvânia e Michigan, já publicaram anúncios mencionando a fronteira e atacando a imigração legal. A informação é da AdImpact, que monitora os gastos com campanhas eleitorais. No mesmo período de 2018 isso foi feito em apenas seis estados, e a maioria dos anúncios saiu no Texas.

Pelo menos um dos anúncios fala de uma “invasão”. Outros trazem ecos da noção da “grande substituição”, teoria conspiratória racista que alega falsamente que as elites estão usando imigrantes negros e pardos para tomar o lugar dos brancos nos Estados Unidos.

No Alabama, um anúncio da campanha para reeleger a governadora Kay Ivey traz uma foto de latinos atravessando a fronteira usando camisetas brancas com o logotipo da campanha de Biden e as palavras “por favor nos deixem entrar”. Se Biden continuar a “transportar” imigrantes ilegais para os Estados Unidos, em breve os americanos podem ser obrigados a aprender espanhol, diz a governadora, encerrando com “no way, José”.

Uma porta-voz de Ivey descartou como “absurda” a sugestão de que o anúncio reforça o medo de substituição ou perpetua o preconceito contra latinos e imigrantes.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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