Réplica: Negação da lusofobia existente no Brasil por acadêmicos só confirma aquilo que defendo – 09/01/2022 – Mundo

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Apenas com base nas declarações que fiz à correspondente da Folha em Lisboa —e manifestamente sem terem ainda lido o livro que acabei de publicar sobre o tema—, seis acadêmicos procurados pelo jornal vieram a terreiro para, no essencial, negar unanimemente que exista antilusitanismo no Brasil. Uma negação que, a meu ver, só vem precisamente confirmar, afinal, aquilo que defendo. Vejamos.

Para a historiadora Gladys Sabina Ribeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), o antilusitanismo teria existido sim, mas apenas no contexto da disputa por lugares no mercado de trabalho, na sequência da onda imigratória para o Brasil, e pelo fato de se considerar que os lusos “representavam um modelo de vida que já não interessava mais”. Extrapolar essa situação seria, para Gladys, cometer o pecado mortal da generalização e da essencialização, anátemas no mundo acadêmico.

A verdade, porém, como mostra a pesquisa histórica, é que o antilusitanismo brasileiro começou antes: vem pelo menos desde a independência, em 1822, quando os portugueses do Brasil, com D. Pedro e José Bonifácio à cabeça, procederam à inversão de sentido com que justificaram a separação.

Aqueles mesmos que tinham sido até aí os maiores expoentes do antigo regime, apresentaram-se como vítimas da “tyrania portugueza”, inaugurando assim —como escreveu Eduardo Lourenço— “o discurso ressentido de uma nação sem pai”. É então que, em carta enfurecida a D. João 6º, já depois do 7 de Setembro, D. Pedro declara: “De Portugal, nada, nada; não queremos nada”.

Esse ressentimento passou depois a ser cultivado de forma sistemática, tendo-se agravado na República, quando os jacobinos de São Paulo puderam escrever, em mensagem de apoio ao presidente Floriano Peixoto —o “marechal de ferro” que havia cortado relações com Portugal—, que iriam combater os estrangeiros, especialmente “os portugueses, raça inferior, povo refratário ao progresso, nosso inimigo de todas as épocas, causador de todos os nossos males e do nosso atraso” (Queirós, 1986:105).

O antilusitanismo está assim inscrito, ab initio, na matriz, no DNA da nacionalidade brasileira. Como a própria Gladys, aliás, em tempo reconheceu: “Definitivamente, ser brasileiro era, antes de mais, negar o português —um nacionalismo às avessas” (Ribeiro, 1987:192).

Para negar também o antilusitanismo, Thiago Krause, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), defende, por seu turno, que, quando os brasileiros procuraram em Portugal a origem do atraso brasileiro, o fizeram por razões econômicas, não xenófobas. “Portugal era um dos países mais pobres da Europa Central (sic); a tentativa era entender as raízes do subdesenvolvimento brasileiro.”

Isto estaria certo se não fosse todo o resto. Mas Krause insiste que tudo vai bem. Segundo ele, hoje em dia, é crescente a aproximação intelectual entre portugueses e brasileiros, o que seria demonstrativo de que “a lusofobia não encontra terreno fértil em espaços como a academia”.

Assim é, de fato, só o que podemos saudar. Esse é o meu objetivo com este livro: tornar mais evidente um problema para que ele possa ser ultrapassado. Em geral, não há portas fechadas, no Brasil, para os portugueses, como não há para todas as outras nacionalidades. Mas essa colaboração intramuros é limitada, e nela há muitas vezes interesses em jogo, não se podendo por isso generalizar para concluir que não há antilusitanismo (não falo de xenofobia!) no Brasil.

Já o antropólogo português João Leal, da Universidade Nova de Lisboa, critica a atribuição de lusofobia à sociedade brasileira, com a qual –afirma– nunca se deparou. Mais: segundo ele, “não existe ‘o Brasil’ ou ‘os brasileiros’, mas os Brasis e os brasileiros”. É de novo o pecado da generalização que me é imputado.

Sim, como é óbvio, há vários Brasis, como há vários Portugais. Mas há também –e isto é crucial– uma ação comum do Estado Federal brasileiro no sentido de imprimir aos seus manuais escolares uma orientação ora de crítica feroz da colonização portuguesa e implicitamente dos portugueses ora de esquecimento da vertente lusitana –como se os brasileiros de hoje nada tivessem a ver com os portugueses de ontem, de quem são herdeiros no sangue, na língua, no patrimônio e na história.

A isso acresce também uma ação comum da mídia, em particular a televisão e o cinema, em geral de viés antilusitano. Veja-se, por exemplo, o filme “Carlota Joaquina”, da diretora Carla Camurati, em que se ridiculariza sem limites o desempenho da Corte portuguesa no Rio de Janeiro –contra a própria historiografia brasileira mais destacada sobre o período, como é a obra de Oliveira Lima.

A cientista social brasileira Ana Paula Costa, pesquisadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, nega também a existência de antilusitanismo entre os imigrantes brasileiros em Portugal. E assinala, com justiça, que têm sido os brasileiros a trazer uma outra narrativa sobre o passado colonial: “Isso não é antilusitanismo, é só uma tentativa de trazer uma nova versão da história que sempre existiu, mas que não conseguia ser contada”.

Nisto estamos de acordo –mas esse não é o ponto da minha tese nem do meu livro. O antilusitanismo de que falo é o que se formou historicamente desde a independência e que, de tão matraqueado no ensino e na mídia, naturalizou-se a ponto de não ser sequer percebido como tal. Um antilusitanismo histórico, que não se refere ao Portugal contemporâneo, onde muitos brasileiros procuram hoje uma vida melhor e mais segura.

O historiador Lourenço Cardoso, professor do Instituto de Humanidades da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), justifica o afastamento brasileiro em relação a Portugal pelo fato de a hegemonia cultural ter passado a estar centrada nos EUA. Mas isso não significa –afirma– que os brasileiros não tenham e até reverenciem traços da herança portuguesa, como a cordialidade e o complexo de vira-lata.

Quanto à sugestão de se assinalar o Dia de Cabral (que na realidade não fiz, limitando-me a pontuar ser significativo que o Brasil não o faça), Cardoso perde o porte acadêmico e revela a sua posição totalmente ideológica, ao afirmar tratar-se de proposta “de mau gosto, colonial e racista”.

Como se o fato do descobrimento não pudesse ser comemorado pela sua importância histórica intrínseca. Um fato que está completamente vinculado à existência do próprio Brasil, o seu ato de nascimento. O fato de se assinalar —como mereceria— não exclui que fosse aproveitado justamente para aprofundar e denunciar o processo de colonização que se seguiu. Estamos aqui em pleno recalcamento ressentido gerador de autofagia —o esquecimento da raiz portuguesa.

Por fim, o ex-ministro brasileiro da Defesa Aldo Rebelo, ainda que reconheça que o Brasil podia fazer mais pela revalorização da herança portuguesa, mantém o registro de negação da lusofobia, acentuando que a relação luso-brasileira está coberta de demonstrações de afeto e simbologia.

“No 7 de Setembro, por exemplo, o que nós mais lembramos é de Portugal. O líder da nossa Independência era português.” Sim, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Também não nego que exista lusofilia no Brasil —apoiada e fomentada, aliás, num esforço titânico secular, pela comunidade portuguesa. O que digo é que a lusofilia é minoritária e o que prevalece é um antilusitanismo histórico, ora exacerbado, ora difuso, que, de tão reiterado, tornou-se quase inconsciente, a ponto —como vemos— de muitos intelectuais o negarem.

Aliás, a comunidade portuguesa não tem feito outra coisa no Brasil desde a independência —o magnífico exemplo das Beneficências e dos Reais Gabinetes, com o seu trabalho abnegado, com destaque para o do Rio de Janeiro— não tem feito outra coisa que contrariar precisamente esse antilusitanismo.

Antilusitanismo que está sempre latente e que pode irromper em gestos como no caso de Maitê Proença cuspindo de forma insolente numa fonte dos Jerónimos. Ou já se esqueceram?

Mais realistas têm sido os jornalistas. Marcelo Coelho, colunista da Folha, por exemplo, escreveu: “Não há coisa a que sejamos mais refratários do que à cultura portuguesa. Para nós, é quase uma contradição nos próprios termos. Fernando Pessoa e Saramago só passaram pela nossa alfândega porque recalcamos a lusitanidade deles… Tomamos posse virtual desses dois grandes escritores portugueses, portanto, sem abandonar nossa estranheza, nosso desdém pela lusitanidade” (Coelho, 1999).

O mundo acadêmico, na sua torre de marfim, pode até ignorar ou não se dar conta; o mundo político e diplomático, por conveniência, pode também preferir deixar para lá. Mas se queremos de fato —como ensinou Lourenço— avançar no aprofundamento da relação, nada melhor do que encarar a realidade de frente, sem medo de dar nomes aos bois.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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