Rebelde, Caleb Landry Jones foca papel pequeno com diretor de prestígio – 13/04/2022 – Cinema e Séries

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The New York Times

Até os acontecimentos recentes no Oscar, o discurso mais memorável de premiação de um ator na temporada tinha sido obra de Caleb Landry Jones, 32. Em julho, o Festival de Cinema de Cannes deu a Jones o prêmio como melhor ator do ano por sua interpretação de um assassino em massa no drama australiano “Nitram” (ainda não disponível no Brasil).

Jones já tinha estado em Cannes duas vezes, e passado por aquela experiência de medo, estimulada pelo excesso de bebida, falta de sono e pela sensação de que todos os olhos estavam voltados para ele e tentando descobrir o quanto ele era importante (“Los Angeles, mas 50 vezes mais intenso”, ele explicou). Mas naquela ocasião, todos os olhos estavam mesmo voltados para ele, enquanto ele se segurava ao pódio à beira de um desmaio.

“Acho que vou vomitar”, disse Jones. A audiência riu, incerta, sem saber se o pânico era uma brincadeira. E foi naquele momento que Jones fugiu correndo do palco, deixando em sua esteira aquelas nuvens de poeira que caracterizam um personagem de desenho animado. “Lamento muito. Não consigo fazer isso. Muito obrigado”.

“Eu queria ser invisível”, recordou Jones. “Mal conseguia formar palavras, e pensei comigo mesmo que o melhor seria desistir”. Reencenando o momento, ele estronda: “Caleb Landry Jooones”, depois bate palmas como uma foca e imita seus movimentos apavorados.

O ator nascido no Texas, cujo sotaque forte ele ainda exibe, parecia infinitamente mais relaxado no dia em que conversamos no quintal da casa alugada, de 101 anos de idade e não muito bem conservada, em que ele vive em Los Angeles. Em um bairro da cidade que ainda não se aburguesou, as pessoas que o cercam em geral não se incomodam quando ele toca guitarra às 2h, ou que ele e a namorada, a artista Katya Zvereva, coloquem na calçada pratos de papel cheios de atum para alimentar os gatos vadios do bairro. Lá, é aceitável que Jones se prepare para enfrentar o estresse enrolando uma sucessão de baseados ao sol, como fez durante nossa conversa. Horas depois, na mesma tarde, ele tinha uma consulta no dentista para um tratamento de canal em quatro dentes. “É por isso que quero fumar o máximo que puder antes de ir para lá”, disse.

“Invisível” não é uma palavra que costume ser aplicada a Jones. O ator ruivo tem uma presença de tela distinta desde que fez sua primeira audição para o cinema, para um papel de uma cena só em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Coen, como um menino que se aproxima de bicicleta do ensanguentado Anton Chiguhr (Javier Bardem) e pronuncia a memorável sentença: “Há um osso saindo do braço do senhor”. Ele encarnou um filho racista ameaçador em “Corra!”, de Jordan Peele, interpretou um personagem que sofre de uma terrível doença de pele em “Antiviral”, filme de terror biológico de Brandon Cronenberg, e ateou fogo a si mesmo em “Amor, Drogas e Nova York”, dos irmãos Safdie. Pela maior parte de sua carreira, Jones preferiu papéis pequenos para diretores de prestígio –Jim Jarmush, Sean Baker, Martin McDonagh, Lone Scherfig, David Lynch– a filmes menos importantes mas que lhe ofereceriam mais tempo na tela.

Jones é rebelde, mas um rebelde estranho –não um clone de James Dean, mas um texano que só faz aquilo que quer. Ele é meticuloso e desleixado ao mesmo tempo. Depois de um diagnóstico de distúrbio obsessivo-compulsivo, na infância, ele se conscientizou da necessidade de permitir que entropia entrasse em sua vida. Em casa, embora seu cérebro parecesse altamente preocupado com detalhes –será que ele tinha colocado exatamente duas colheres de pimenta vermelha no chimichurri que preparou na noite passada?—, ele projetava desordem: calças manchadas de tinta, um suéter amarfanhado, cavanhaque descuidado. (Ele certamente parece ter esquecido de levar um pente, em sua visita a Cannes.)

Zvereva, que saiu ao quintal durante a entrevista para nos oferecer mais café, disse que quando Jones a abordou pela primeira vez, em uma rua de Nova York, ela achou que ele fosse morador de rua, mesmo depois de ela o convidar para visitar seu estúdio de arte e de ele levá-la ao estúdio em que estava filmando, onde o diretor parecia feliz por Jones ter encontrado uma pessoa que vive em sua frequência.

Jones cresceu no subúrbio de Dallas, e sempre foi encorajado a ser criativo. Seus pais, um empreiteiro e uma professora de educação especial, permitiam que ele desenhasse no chão da casa, até que o piso original fosse substituído por um piso de madeira nobre. A mãe o matriculou em aulas de balé e sapateado, o incentivou a fazer testes em uma instituição local de arte, e servia chá e biscoitos enquanto eles assistiam a horas de comédias britânicas –Monty Python e Wallace e Gromit, mas também trabalhos mais densos como “Only Fools and Horses”.

Ele ia à igreja quando criança, e não tinha autorização para ler quadrinhos dos X-Men; só veio a fazê-lo quando interpretou Banshee em “X-Men: Primeira Classe”. Embora ame música –e tenha acabado de lançar seu segundo disco de psicodelia distorcida—, na adolescência preferia a banda de rock cristão DC Talk ao Nirvana (e certa vez viu o grupo tocar em um show de abertura para uma palestra do pastor Billy Graham). Isso durou até que ele se obcecasse por Bob Dylan e passasse a imitar seu novo ídolo, andando com os ombros caídos e usando calças justas.

“As coisas me afetavam demais”, disse Jones. Cada nova obsessão, como a banda Radiohead ou o escritor Charles Bukowski, terminava por sobrepujar seu temperamento artístico, por algum tempo. “Por isso foi tão bom descobrir a atuação”, ele acrescentou. Explorar um personagem –especialmente se ele for enigmático e fizer escolhas que desafiem as expectativas– lhe oferece a linguagem de que precisa para lidar com seus próprios desejos.

“Ele é o ator mais imersivo com quem já trabalhei”, disse Justin Kurzek, o diretor de “Nitram”, em uma conversa via Zoom. “Um verdadeiro artista”. Ainda que seja difícil dizer isso a Jones diretamente. “Sempre que você elogia Caleb, percebo que ele se sente muito desconfortável”. O filme deles foi inspirado por um homicídio em massa em Port Arthur, Tasmânia, em 1996, que motivou o governo da Austrália a aprovar o Acordo Nacional Sobre Armas de Fogo, que proíbe a venda de armas automáticas e semiautomáticas no país. O filme dominou o Australian Academy of Cinema and Television Arts Awards, em dezembro, e valeu a Jones seu segundo prêmio como melhor ator. (Dessa vez, ele preferiu gravar com antecedência seu discurso de agradecimento.)

O personagem dele –que é referido apenas como Nitram, para não glorificar o criminoso real, que continua preso– cambaleia pelo filme como se fosse uma criança excessivamente crescida e intimidadora. Ele tem acessos de raiva e irritação; sofre ao se sentir rejeitado por razões que nem sempre é capaz de controlar. E, no final do filme, encontra uma comunidade que o acolhe (e acolhe seu dinheiro): a das lojas de armas, que tratam bem aquele sujeito visivelmente instável e lhes vendem as armas que deseja.

Jones, a quem o diretor pediu que emagrecesse pela duração da filmagem, na Austrália, preferiu um regime sigiloso de engorda via tortas de carne, para ocupar mais espaço. “Não, vamos com o Homem Bebê Gorducho”, ele disse, rindo. Boa parte do filme foi improvisada. Eles interpretavam uma cena de um jeito espalhafatoso, e depois a repetiam silenciosamente. Para compreender a distância entre a maneira pela qual Nitram se via e a maneira pela qual os outros percebiam aquele jovem furioso e inarticulado, Kurzel pediu a Jones que se filmasse com uma câmera de vídeo e se desenhasse em um caderno. “Eu me desenhava musculoso e escrevia ‘sexy’ como legenda”, disse o ator.

“Não sei se cheguei a conhecer Caleb”, disse sua colega de elenco no filme, Judy Davis, pelo telefone. “Ele falava o tempo todo com sotaque australiano”. Nas dolorosas cenas que faziam como mãe e filho, Davis, ela mesma uma veterana do cinema muitas vezes premiada, admirava a abertura e a falta de pretensão de Jones. “Ele é provavelmente o ator mais responsivo com quem já trabalhei”. Quando ele não estava no set, Davis tentava truques para forçá-lo a usar sua voz real. Só no último dia, antes do final da filmagem, Jones a surpreendeu, deixando de lado o personagem e correndo para lhe dar um abraço de despedida.

Enquanto a filmagem se aproximava de sua explosão final de violência, que Kurzel escolheu não mostrar na tela, Jones foi se retraindo mais e mais. A equipe local, que conhecia dolorosamente a tragédia real, começou a se manter distante do ator, especialmente depois que as armas chegaram ao set. “Ficou difícil encontrar amigos”, disse Jones.

Pode parecer doloroso para um artista se sentir tão sozinho em um trabalho que o levou ao outro lado do mundo, e no qual ele tinha de lidar com material tão intenso. “Mas foi ótimo!”, insistiu Jones “Foi realmente maravilhoso para mim, porque eu não sei atuar”. Talvez ele devesse deixar a palavra final para os seus prêmios.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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