Quem foi o ‘rei do lixo’ em Portugal – 24/05/2022 – Mundo

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Lixo, essa palavra que acarreta todos os maus sentidos. Se o sentido for literal, repugna, diz-nos o dicionário. Se for figurado, é ralé. E nem em verbo significa sentimento bom.

O lixo pode também ser controverso quando chamado à discussão sobre uma cidade: a gestão da coleta em Lisboa sempre deu azo a polêmica. Mas há um homem para quem significou riqueza e a quem valeu o nome escrito na história: Manuel Martins Gomes Júnior, conhecido pela comunidade que o viu crescer como “o rei do lixo”.

Quem passa numa das retas da estrada Nacional 10, na freguesia de Coina, Barreiro, vê-a ali, pousada sobre um terreno baldio, de sobreiros largados ao acaso: uma torre, com ar de castelo de outros tempos, altiva, vazia de gente e de janelas. Foi uma paisagem elogiada em tempos, mas vendo agora, a Torre de Coina (ou Torre do Inferno, como também ficou conhecida) não faz adivinhar que foi palco de uma das histórias mais enigmáticas partilhadas entre Lisboa e a margem vizinha. E casa deste homem, Manuel Martins Gomes Júnior.

O aspecto faz adivinhar anos de degradação antiga e a presidente da União de Freguesias de Palhais e Coina, Naciolinda Silvestre, avança um número: este edifício encontra-se “ao abandono há cerca de 40 anos”. Sobre a sua origem já cá andam poucos para a contar. Os que “tinham bastante conhecimento do assunto e apreço” já não podem explicar como se tornou esta torre o castelo de Manuel Júnior.

Mas um estudo realizado pelo pesquisador Vitor Manuel Adrião, da Universidade de Lisboa em História e Filosofia, imortaliza esta história, que terá tido início ali “nas primeiras décadas do século 20”. E tudo terá começado com a compra de um moinho de água.

Nascido em Santo Antônio da Charneca, em 1860, “de uma família humilde”, Manuel Júnior terá crescido com a ambição de inverter a sua condição socioeconômica. Não bastava conquistar uma vida mais estável, prometeu a si mesmo “tornar-se rico”, conta o pesquisador.

“Como marçano” em Lisboa, ocupou o seu tempo e guardou todo o dinheiro para, mais tarde, investir. Chamaram-lhe visionário, porque decidiu com esse dinheiro comprar um moinho de água. Um moinho entretanto destruído por um incêndio de cuja responsabilidade foi acusado pelo povo da terra. Tudo porque o contrato com a seguradora lhe terá permitido, após a destruição, amealhar elevada indenização.

Qual a relevância deste capítulo da sua vida? É que foi precisamente com esta quantia que ele adquiriu “uma pequena propriedade e se entregou à especulação agrícola, emprestando dinheiro, sob pesados juros, aos proprietários vizinhos de Coina para cultivarem os seus terrenos”, lê-se no documento do pesquisador Vitor Manuel Adrião.

A mesma propriedade onde, depois de uma “época em que as colheitas foram más”, obrigando os agricultores a endividar-se, Manuel terá acabado por unir parcelas (dos devedores) e formado a sua quinta de 300 hectares. A quinta onde nasceria a Torre de Coina.

Num ápice, saltou de uma vida modesta para a de um grande proprietário. Escolheu a suinicultura e se tornou um rico exportador de carnes. Do outro lado da margem, encontrou um segundo negócio e com potencial para o ajudar no primeiro: ele “atingiu o auge ao assegurar o controle da coleta dos lixos em Lisboa”, então composto apenas por matéria orgânica, que servia de alimento para os porcos que criava.

O transporte foi garantido através das suas cinco fragatas que percorriam o Tejo de uma ponta para a outra. Cada uma batizada com um nome, num exercício de ironia: Mafarrico, Lúcifer, Belzebu, Demônio e Satanás. Na verdade, conta o pesquisador Vitor Manuel Adrião, foi “uma provocação desaforada ao regime eclesiástico secular que a recente Revolução de 5 de Outubro depusera”. Foi, aliás, assim que ficou com fama de antiteísta obstinado.

Fama já ele a tinha —acabou chamado de “rei do lixo”—, mas faltava tirar um verdadeiro usufruto dela. Por isso, construiu o tal edifício que ainda hoje chama atenção na paisagem: à medida das suas posses e ambições, nasce a Torre de Coina, também conhecida como Torre do Inferno. Ali terá permanecido vários anos, até a data da sua morte, em 1943, com 83 anos. Morreu sob “circunstâncias estranhas cujas causas nunca foram apuradas”, diz o pesquisador.

A morte, no entanto, não significou o desaparecimento do seu nome. Na verdade, foi eternizado numa rua na sua localidade natal, Santo António da Charneca: rua Manuel Martins Gomes Júnior.

Hoje não haveria lugar para um “rei do lixo”. Não só porque o município de Lisboa é atualmente a entidade responsável pela coleta e transporte dos resíduos, sejam eles de lixo comum ou materiais recicláveis. Mas também porque Manuel Gomes Júnior viveu em tempos em que os resíduos eram apenas orgânicos e só por isso conseguiu fazer deles alimento para os seus animais.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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