Quem é Daniel Nascimento, 2º lugar na São Silvestre e promessa da maratona brasileira – 31/12/2021 – Linha de Chegada

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Em uma prova dominada por africanos, um brasileiro conseguiu seu lugar de destaque na Corrida de São Silvestre nesta sexta-feira (31). Daniel Nascimento, 23, conquistou a segunda posição e, mais uma vez, foi o brasileiro mais bem colocado na disputa, atrás apenas do etíope Belay Bezabh, campeão em 2018.

Daniel esteve no pelotão de frente durante toda a prova, chegando a liderar em alguns momentos. Na subida da avenida Brigadeiro Luís Antônio, o africano abriu vantagem, mas o brasileiro manteve o ritmo, garantindo a segunda colocação.

A São Silvestre foi a mais recente prova em uma carreira que vem mostrando que não só africanos, em especial quenianos e etíopes, dominam provas de longa distância, como a maratona. Em meio a tantos atletas desses países, Daniel tem conquistado seu espaço no pelotão de frente.

O atleta é novo na idade e na maratona. Até hoje, correu “apenas” três provas de 42,195 km na vida: em Lima, em Sapporo e em Valência. A primeira foi sua estreia na modalidade e que lhe garantiu a ida para o Japão, como um dos três representantes brasileiros nas Olimpíadas de Tóquio. A segunda foi justamente a olímpica. A terceira colocou-o sob os holofotes.

Na prova espanhola, ele conquistou o segundo melhor tempo sul-americano em maratonas, ficando a 6 segundos da marca de Ronaldo da Costa, alcançada em Berlim, em 1998. Em Valência, Daniel terminou a corrida em 2h06min11seg.

Enquanto Ronaldo conquistava o tempo na capital alemã, Daniel estava prestes a completar dois meses de vida. Nascido em Paraguaçu Paulista (SP), ele começou no esporte como muitos brasileiros: no futebol.

“Eu corria muito para lá, muito para cá, e o treinador me falou que eu ia me destacar bem mais no atletismo”, conta Daniel à Folha. Com 13 anos, ele deu início então a sua carreira. Aos 15, levou a medalha de ouro nos 3.000 metros nos Jogos Sul-Americanos da Juventude, em Lima.

Com o resultado, ele foi para Campinas, para treinar no Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima, onde Daniel diz ter evoluído muito. “Ele [o treinador Alex Lopes] trabalhou comigo pensando no futuro, que era esse momento da maratona”, explica. “Na época, eu tinha feito alguns exames no Comitê Olímpico Brasileiro, e me falaram que eu ia ser muito bom quando chegasse na maratona.”

Antes de passar aos famosos 42,195 km, no entanto, Daniel precisou ultrapassar alguns obstáculos. Em 2018, depois de anos brilhando em provas de 1.500 metros a 10.000 metros, incluindo diferentes modalidades, ele chegou a sua primeira São Silvestre.

Os 15 km pelas ruas de São Paulo, porém, não foram completados. Ele teve uma lesão no tendão de Aquiles e achou que sua carreira acabaria ali. “Voltei para o interior. Decidi que ia abandonar o esporte.”

Durante seis meses, ele trabalhou na roça de mandioca. Acordava às 4h e trabalhava até às 18h. Até que sua mãe, Valdirene Ferreira, interveio. “Ele teve uma recaída muito grande, eu achava que não ia superar”, conta ela, hoje com 41 anos. “Mas a gente, como mãe, vendo um talento tão grande que tinha desenvolvido, disse que ele tinha que buscar o melhor para vida.”

No retorno, ele chegou à Associação Bauruense de Desportes Aquáticos, no interior paulista. Com um pouco de sobrepeso —para um corredor profissional—, ele retomou os treinos e, em agosto, conquistou o quarto lugar nos 10.000 metros do Troféu Brasil de 2019.

Em dezembro, estava de volta à São Silvestre. Desta vez, com os 15 km completados, conquistando a décima posição, o que o alçou ao brasileiro mais bem posicionado daquele ano. A carreira chamou a atenção de Gabriel Carvalho, sócio da Blu Logistics e entusiasta da corrida, que decidiu apoiar o atleta.

“O Daniel estava num momento que precisava de apoio, era revelação desde novo, um diamante a ser lapidado.” Potencial que foi observado pela Adidas e Strava, hoje apoiadoras do atleta. No início de 2020, após ganhar a Meia Maratona de São Paulo ainda em fevereiro, antes de as provas serem suspensas devido à pandemia de Covid-19, Carvalho perguntou se Daniel não queria ir para o Quênia, treinar onde estão as estrelas da maratona.

Era seu sonho. Ainda que as provas tenham sido escassas em 2020, o brasileiro seguiu seu treinamento em meio aos quenianos. Com o adiamento das Olimpíadas de Tóquio para 2021, em maio deste ano ele se preparava para conquistar o índice olímpico dos 10.000 metros. Mas sua cabeça já estava nos tão sonhados 42,195 km.

A duas semanas da prova de Lima, ele encontrou um treinador que topou o desafio. “Ele me falou: ‘O que você está tentando é impossível, mas é do impossível que a gente gosta’”, lembra Daniel.

Em 23 de maio, ele não só conquistou o índice olímpico para a modalidade em sua prova de estreia como venceu a Maratona do Bicentenário do Peru. Em 8 de agosto, estava em Sapporo para as Olimpíadas.

A prova, marcada pelo forte calor e umidade, castigou os atletas, entre eles Daniel Nascimento. Ele vinha bem na prova, no pelotão da frente, mas a inexperiência cobrou seu preço. Nos primeiros postos de hidratação, o brasileiro não conseguiu pegar água e sua garrafa individual porque estava no meio do pelotão.

No quilômetro 15, ele estava ao lado do maior maratonista da atualidade, Eliud Kipchoge, trocando sorrisos e soquinho. No quilômetro 20, conseguiu pegar sua primeira hidratação. Em um ritmo forte, sem repor o suficiente aquilo que gastava, o corpo de Daniel esgotou por volta do quilômetro 25.

“Veio aquela piscada profunda e ali eu já senti um choque”, lembra. “Apagou tudo, a mente ficou escura e eu lembro de ter batido a cabeça na grade. Fiquei chacoalhando para ver se voltava um pouco.”

Ainda assim, ele tentou continuar a corrida. Precisou se situar para saber para que lado correr, levantou e foi. A vista estava embaçada e Daniel batia na cabeça para tentar enxergar. “Eu só lembro de ter botado a mão e deitado acho que no meio da rua, porque estava quentinho ali.”

O brasileiro deixou a prova de ambulância. Chegou com a pressão baixa e hipoglicemia severa. “Acho que só não morri pela misericórdia de Deus”, conta Daniel, em declaração que mostra sua ligação com a religião —frases da Bíblia aparecem como legendas de suas publicações em redes sociais. Ao acordar, um membro da equipe que o atendeu contou que já pensavam em reanimá-lo. Daniel conta, rindo, que seu corpo pedia um refrigerante gelado.

O sorriso, aliás, é uma marca sua. Seja na prova de Sapporo ou falando sobre os tempos difíceis, Daniel mantém o rosto leve e um jeito de moleque que já sabe que nasceu para brilhar. Desde pequeno, dona Valdirene conta que ele dizia que se tornaria um atleta olímpico. No Japão, ele já começou a traçar esse caminho e, mesmo com o revés, manteve o foco e conquistou a marca em Valência.

Para isso, segue uma rotina de treinos regrada, que começa entre 5h e 6h, quando, junto com um grupo de atletas que correm por volta do mesmo tempo, sai para treinar. Na volta, café da manhã e dormir. Depois vem o almoço e um momento de relaxamento à tarde. De noite, é dormir cedo para recomeçar no próximo dia.

A disciplina é uma marca sua desde criança. Sua mãe lembra que ele sempre foi um menino estudioso, chegava da escola, fazia as tarefas e já corria para os treinos da noite.

E para as corridas do futuro, Daniel pensa em participar de sua primeira major –circuito das seis principais maratonas do mundo– no ano que vem em Londres, para quebrar a marca sul-americana. Já em 2024, nas Olimpíadas de Paris, ele pretende chegar mais preparado para, quem sabe, trazer uma medalha para o Brasil.

A disputa promete, pois Kipchoge já disse querer buscar o tri olímpico. Dona Valdirene, no entanto, não tem dúvidas sobre o sucesso do filho. “Acredito que meu menino vai trazer muito orgulho para o Brasil.”

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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