Problema do emprego e da produtividade do trabalho não nos deixará tão cedo – 13/09/2021 – Cecilia Machado


De um lado, são mais de 8 milhões de americanos buscando emprego. De outro, são quase 11 milhões de vagas em aberto. Seria o fim do desemprego? Pior que não. As empresas querem contratar, mas não conseguem. Mostram-se preocupadas com a escassez de mão de obra. Os trabalhadores, por sua vez, ou não estão qualificados para as vagas disponíveis ou não se interessam por elas. Sem consenso entre as partes, a vaga segue vazia.

À medida que a vacinação avança e a economia reabre, o processo de recontratação dos trabalhadores que foram dispensados durante a pandemia se mostra desafiador. É cada vez menos provável que fatores temporários estejam por trás da lenta recuperação do emprego. Por exemplo, o medo do contágio ou de novas variantes perde força agora que a vacinação é mais abrangente.

Também parece pouco aderente a associação entre as generosos transferências de renda e o desincentivo ao trabalho. Nos EUA, o montante do seguro-desemprego foi expressivo —com o suplemento de US$ 600 por semana no início da pandemia, 76% dos desempregados tiveram reposição de renda acima de seus salários—, mas os efeitos em emprego foram pequenos. Entre os estados que abandonaram o programa federal de seguro-desemprego antes do prazo, a redução do desemprego foi bastante modesta.

Uma terceira explicação está relacionada ao fechamento das escolas, que dificulta o trabalho de pais com filhos pequenos. Entretanto, apesar de a perda de emprego ter sido maior entre as mães quando comparadas aos pais, o reemprego tem se dado de forma semelhante entre mulheres com e sem filhos, indicando que a volta ao trabalho está pouco ligada à situação das escolas.

Ainda há enorme incerteza sobre as causas do descasamento entre a oferta e a demanda por trabalho, mas é razoável considerar que mudanças mais estruturais na economia tenham parte na culpa, seja através de produtos e serviços que passaram a (e deixaram de) ser demandados, seja em como e onde a atividade produtiva se organiza. No auge da pandemia, a atividade se contraiu em setores e localidade específicas, e agora, com a reabertura da economia, há dúvidas sobre o retorno da demanda aos mesmos lugares de antes e sobre a perda de mercado dos setores e das empresas mais afetados, e consequentemente, sobre a capacidade de empregar trabalhadores especializados nestas atividades.

Ao que tudo indica, o choque da Covid-19 está associado a uma realocação permanente na economia. Os custos associados à mudança no capital físico, humano e organizacional das empresas aumentam o desemprego da economia e diminuem a velocidade da recuperação. Tal qual ocorreu na grande crise de 2008-09, já é visível a mudança na relação entre as taxas de desemprego e as taxas de vagas, representada pela curva de Beveridge. O deslocamento da curva para a direita —para um dado desemprego, a taxa de vagas é maior— está em linha com uma menor eficiência nos pareamentos de emprego.

No Brasil, infelizmente, não há informações disponíveis sobre a abertura de vagas como na Job Openings and Labor Turnover Survey (Jolts) dos EUA—fica aqui uma dica para o IBGE ou Ministério do Trabalho—, mas os fatos trazidos por Joana Cunha aqui nesta Folha apontam nessa mesma direção. Ao longo das últimas décadas, parte expressiva do crescimento do mercado de trabalho no Brasil se deu em empregos de baixa remuneração e pouco produtivos, justamente os mais afetados pela pandemia e para os quais uma realocação do trabalhador é mais difícil.

Enquanto a agenda reformista segue mirando uma nova estrutura tributária com pouco ganhos de eficiência, um novo programa social marginalmente diferente do atual Bolsa Família, e uma reforma administrativa que deixa parte importante do funcionalismo de fora e economiza poucos recursos, o problema do emprego e da produtividade do trabalho permanece à deriva. Ao contrário da pandemia, não nos deixará tão cedo.


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