Prêmio por escalada pode ser o último para os seus ganhadores – 30/11/2021 – Esporte

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No alto do monte Lunag Ri, Nepal, o alpinista austríaco David Lama começou a se preocupar com a possibilidade de perder os dedos do pé. O frio na montanha de 6.894 metros de altura era um dos piores que ele já havia experimentado.

Lama, tentando escalar a montanha sozinho em 2018, poderia ter morrido caso fosse apanhado em uma tempestade e sofresse congelamento severo, ou se sofresse uma queda e se ferisse. Um resgate seria praticamente impossível.

Mas os dedos dos pés de Lama não chegaram a congelar de todo, e por isso ele prosseguiu na escalada até o topo da montanha. A imagem que o mostra em silhueta sobre a formação rochosa com jeito de púlpito que coroa a montanha é o tipo de coisa com que os alpinistas sonham. Ele disse, depois da escalada, que havia chegado muito perto de seu limite de tolerância a riscos. Lama conquistou o Piolet d’Or (Machado de Gelo Dourado), o maior prêmio do alpinismo, por essa escalada.

Mas Lama não compareceu à cerimônia de entrega do Piolet d’Or, em Ladek-Zdroj, Polônia, em setembro de 2019.

Ele tinha morrido cinco meses antes em uma avalanche, enquanto tentava desbravar uma nova rota para escalar o perigoso Howse Peak, nas Montanhas Rochosas Canadenses. Os dois parceiros dele na escalada, o americano Jess Roskelley e o austríaco Hansjorg Auer, também morreram no acidente. Auer também receberia um Piolet d’Or na Polônia, por uma escalada solo desafiadora do Monte Lupghar Sar Oeste (7.157 metros), no Paquistão.

A dissonância entre as mortes dos alpinistas e a celebração de suas arriscadas escaladas solo provocou uma questão desconfortável com relação ao Piolet d’Or: será que escolher vencedores, e com isso perdedores, é uma má ideia no montanhismo?

O alpinismo de elite já parece suficientemente perigoso; não é incomum que praticantes morram praticando o esporte. No entanto, será que a concessão de prêmios não reforça uma cultura de apego ao risco em uma atividade que já é potencialmente letal?

Conceder os prêmios a Lama e Auer era como “organizar uma festa regada a álcool para alguém que morreu de cirrose”, disse Rolando Garibotti, 50, alpinista americano de origem argentina com mais de 30 anos de experiência no esporte, falando por telefone de Innsbruck, na Áustria. Garibotti é um dos diversos alpinistas importantes para os quais as implicações de conceder prêmios por escaladas são difíceis de aceitar.

“Há diversas escaladas alpinas nas quais as pessoas têm sorte se conseguem escapar ilesas”, disse Garibotti. “E nenhuma dessas pessoas, ou dessas escaladas, deveria, em minha opinião, se qualificar para o Piolet d’Or. Se desejamos criar uma cultura em que número menor dos principais atletas praticantes morra, há coisas que precisam ser mudadas.”

O comentário de Garibotti sobre a morte de alpinistas importantes não é hipérbole. De 2008 para cá, sete ganhadores do Piolet d’Or, entre os quais o alpinista suíço Ueli Steck, morreram em acidentes de escalada.

O Piolet d’Or de 2021, a 30ª edição do prêmio, foi entregue no final de semana passado em Briançon, um polo do alpinismo na França. O evento envolvia troféus reluzentes, discursos de agradecimento e espectadores aplaudindo de pé. As escaladas que foram premiadas este ano apresentavam margens de segurança superiores às de Lama ou Auer. Mas o espectro persistia.

Christian Trommsdorff, alpinista e organizador do prêmio Piolet d’Or, disse por telefone da Grécia que “o risco não é um fator no processo de seleção” dos ganhadores, o que significa que escaladas consideradas como arriscadas demais não são consideradas para a premiação. “Mas isso é parte do jogo”, ele disse, referindo-se aos riscos intrínsecos do alpinismo.

O prêmio Piolet d’Or foi criado em 1992, na França, como uma colaboração entre a revista Montagnes e o Group de Haute Montagne, uma organização de alpinismo presidida por Trommsdorff.

Mesmo desconsiderando o risco, houve debates ao longo dos anos sobre como julgar escaladas, um processo que tem um aspecto subjetivo, já que os alpinistas frequentemente discutem questões de “estilo”, ou seja, a forma pela qual alguém chega ao topo de uma montanha.

Os desacordos culminaram em 2007, quando o alpinista esloveno Marko Prezelj se recusou a aceitar o Piolet d’Or. Mais tarde naquele ano, ele escreveu um artigo publicado pela edição anual do American Alpine Journal no qual argumentava que os prêmios estimulavam a criação de um ambiente no qual os alpinistas eram “encorajados a exceder suas capacidades, a usar substâncias de melhora de desempenho e a correr riscos insensatos”.

Por isso, em 2009, o Piolet d’Or introduziu um novo formato, no qual diversas escaladas foram reconhecidas, todas anunciadas meses antes da cerimônia. Isso satisfez muitos dos oponentes mais abertos da escola do “estilo”, mas, para outros alpinistas, entre os quais Garibotti, ainda deixava intocados os problemas fundamentais referentes a risco.

​​Garibotti conhece o perigo em primeira mão. De acordo com seus cálculos, mais de 30 pessoas de quem ele foi companheiro de escaladas morreram praticando alpinismo. O Piolet d’Or tentou por duas vezes indicar Garibotti para um prêmio, uma em 2006, por uma nova rota de escalada no Cerro Torre, na Patagônia, e uma em 2009, pela primeira travessia completa do maciço do Cerro Torre. Mas ele recusou a indicação nas duas ocasiões.

O mais chocante foi a equipe que o júri decidiu premiar em 1998: um grupo de alpinistas russos que tinha realizado a primeira escalada pela face oeste do Makalu, um pico do Himalaia, no ano anterior. Dois dos participantes da expedição morreram durante a escalada. Os organizadores introduziram um novo critério depois das reações negativas que o prêmio despertou naquele ano, exigindo que “o alpinista retorne da escalada inteiro”, segundo Trommsdorff.

O problema, na opinião de Garibotti, não é que os prêmios encorajem os alpinistas a correr mais riscos, mas que, ao premiarem escaladas de alto risco, eles validem comportamentos imprudentes. “Se você dá representação a escaladas imprudentes, o resultado será um número maior de escaladas imprudentes”, ele disse.

Depois de conquistar um Piolet d’Or em 2019 com seus colegas eslovenos Ales Cesen e Luka Strazar, o alpinista britânico Tony Livingstone escreveu, em um texto publicado em seu site, que o prêmio “manipula meu ego humano” de maneiras preocupantes.

“Já tenho um diabinho pousado sobre meu ombro quando completo uma etapa aberta” –uma seção de escalada com pouca proteção e que pode resultar em quedas perigosas –”e ele está sempre sussurrando que ‘xi, você vai levar um tombo dos grandes’”, escreveu Livingstone. “Não preciso de outro diabinho que me ofereça um troféu dourado”. Ele só aceitou o prêmio porque seus companheiros de escalada insistiram.

É claro que, para muitos alpinistas, o perigo é parte importante dos atrativos do esporte.

“Temos de reconhecer que, no montanhismo tradicional, a morte é uma possibilidade”, disse Reinhold Messner, 77, um dos alpinistas mais laureados do século passado. “Se isso não for uma possibilidade, então não estamos falando de montanhismo. A arte de sobreviver é literalmente isso: uma arte”.

Embora em 2010 Messner tenha aceitado um Piolet d’Or pelo conjunto de sua carreira, um prêmio criado no ano anterior, ele é um dos alpinistas que descartam os prêmios como redutivos. Em 1988, ele recusou uma medalha olímpica honorária por se tornar a primeira pessoa a escalar os 14 picos de mais de 8.000 metros de altura do planeta.

“Sempre fui contra a ideia de encarar as escaladas tradicionais como competição”, disse Messner. “Em geral, não apoio medalhas. O prêmio pelo conjunto da carreira é uma demonstração de respeito.”

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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