Por que primeira ‘fazenda’ de polvos do mundo está gerando polêmica – 21/12/2021 – Bichos

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BBC News Brasil

A notícia de que a primeira fazenda comercial de polvos do mundo está mais perto de se tornar realidade na Espanha foi recebida com consternação por cientistas e conservacionistas que têm defendido que os animais não devem ser criados em cativeiro.

Especialistas argumentam que, além de inteligentes, esses invertebrados são criaturas “sencientes” —ou seja, consideradas capazes de sentir dor e emoções. Assim, como o polvo nunca chegou a ser domesticado, com as informações disponíveis hoje não seria possível garantir seu bem-estar em um criadouro.

Em Bristol, no Reino Unido, a aquarista Stacey Tonkin trabalha diariamente com esses animais. Ela faz parte de uma equipe de cinco profissionais do aquário da cidade que se revezam para cuidar de Davy Jones, DJ, um polvo gigante do Pacífico —e diz que ele reage de maneira diferente a cada um deles.

Quando ela levanta a tampa do tanque para alimentar DJ, ele frequentemente sai de sua caverna para vê-la e coloca os braços no vidro. Isso se estiver de bom humor.

Os polvos vivem cerca de quatro anos —então, com um ano, segundo ela, DJ é o equivalente a um adolescente. “Ele definitivamente mostra o que você esperaria de um adolescente – alguns dias está bem mal-humorado e dorme o dia inteiro. Em outros, é muito brincalhão, ativo, quer ficar dando voltas no tanque e se exibir.”

Os cuidadores alimentam o polvo com mexilhões e camarões e pedaços de peixe e caranguejo. Às vezes, colocam a comida em um brinquedo de cachorro para que o animal possa brincar com seus tentáculos e praticar suas habilidades de caça.

A cor do polvo, conta Stacey, muda conforme seu humor. “Quando está marrom-alaranjado, é mais como um tipo de sentimento ativo ou lúdico. Já com manchinhas é mais curioso e interessado. Às vezes ele está nadando em tons de laranja e marrom, vem para perto de você e fica cheio de manchinhas, só observando. É incrível.”

Para ela, o animal mostra sua inteligência através dos olhos. “Quando você olha para ele e ele olha para você, você pode sentir que há algo ali.”

A mudança vem depois que uma equipe de especialistas examinou mais de 300 estudos científicos e concluiu que havia “fortes evidências científicas” de que esses invertebrados podiam sentir prazer, excitação e alegria, além de dor e angústia.

Os autores disseram estar “convencidos de que a criação de polvos em condição de alto bem-estar era impossível” e que o governo “poderia considerar a proibição da importação de polvos cultivados em criadouros” no futuro.

O consumo desses animais, contudo, segue numa crescente —da Ásia ao Mediterrâneo e, cada vez mais, nos Estados Unidos. Na Coreia do Sul, as criaturas às vezes são comidas vivas.

O número de polvos na natureza está diminuindo e os preços, subindo. Estima-se que 350 mil toneladas são capturadas a cada ano – mais de 10 vezes o volume de 1950.

Nesse contexto, a corrida para descobrir o segredo para se criar polvos em cativeiro se arrasta há décadas. Isso porque não é simples “domesticá-los”, já que comem apenas alimentos vivos e precisam de um ambiente cuidadosamente controlado.

Empresas em países como México, Japão e Austrália já investiram nessa área, mas foi uma multinacional espanhola, a Nueva Pescanova (NP), a primeira a anunciar o início de fato do cultivo, previsto para 2022. A carne do animal começaria a ser comercializada em 2023.

A companhia desenvolveu seu método com base em uma pesquisa do Instituto Oceanográfico Espanhol que aborda os hábitos reprodutivos do polvo comum (Octopus vulgaris).

Conforme a PortSEurope, a fazenda comercial estará localizada perto do porto de Las Palmas, nas Ilhas Canárias, com produção prevista de de 3 mil toneladas de polvo por ano. Ainda de acordo com o portal, a iniciativa, segundo a empresa, ajudaria a reduzir a quantidade de animais selvagens retirados da natureza.

Procurada diversas vezes pela reportagem da BBC, a Nueva Pescanova não respondeu aos pedidos de detalhamento sobre as condições em que os polvos serão mantidos. Informações como tamanho dos tanques, a comida com que os animais serão alimentados e como serão abatidos não foram reveladas.

Um grupo de pesquisadores dos EUA, Austrália e Inglaterra descreveu alguns anos atrás a criação dos animais em cativeiro como “ética e ecologicamente injustificada”.

Em outubro deste ano, a organização ativista Compassion in World Farming (CIWF) tentou contato com governos de vários países incluindo a Espanha instando-os a banir a iniciativa.

“Esses animais são incríveis. São solitários e muito espertos. Colocá-los em tanques estéreis sem estimulação cognitiva é errado”, diz Elena Lara, gerente de pesquisa da CIWF. Segundo ela, qualquer pessoa que assistiu ao documentário vencedor do Oscar de 2021 —”Professor Polvo” (“My Octopus Teacher”)— entenderá a questão.

Os polvos têm cérebros grandes e complexos. Sua inteligência foi comprovada em vários experimentos científicos —em que foram, por exemplo, observados usando coco e conchas do mar para se esconder e se defender e em que mostraram que podem aprender tarefas rapidamente.

Também conseguiram escapar de aquários e roubar armadilhas colocadas por pescadores.

Os animais não têm esqueletos para protegê-los e são altamente territoriais. Portanto, poderiam ser facilmente machucados em cativeiro. Se houvesse mais de um polvo em um tanque, os especialistas dizem que eles poderiam começar a comer uns aos outros.

Se a fazenda de polvos for instalada na Espanha, aparentemente as criaturas criadas lá receberão pouca proteção sob a lei europeia. Os polvos —e outros cefalópodes invertebrados— são considerados seres sencientes, mas a legislação da UE que cobre o bem-estar dos animais de criação só se aplica aos vertebrados – criaturas que têm espinha dorsal.

Além disso, de acordo com a CIWF, não existe atualmente nenhum método cientificamente validado para seu abate humanitário.


CULTIVO DE ANIMAIS AQUÁTICOS

– Aquicultura é o termo dado à criação de animais aquáticos para alimentação

– É o setor de produção de alimentos que mais cresce no mundo

– O mercado global de aquicultura está crescendo cerca de 5% ao ano e a projeção é que seu valor chegue a quase US$ 245 bilhões até 2027

– Cerca de 580 espécies aquáticas são cultivadas em todo o mundo

– À medida que a população humana cresce, a aquicultura global pode fornecer uma fonte vital de alimentos

– Os peixes mantidos em cativeiro tendem a ser mais agressivos e a contrair mais doenças

– A União Europeia publicou recentemente diretrizes reconhecendo a “falta de boas práticas de manejo” e “lacunas de pesquisa” no impacto da aquicultura na saúde animal e pública


Humanos e polvos tiveram um ancestral comum 560 milhões de anos atrás. Esse é um dos fatos citados pelo biólogo evolucionário Jakob Vinther, da Universidade de Bristol (Reino Unido), ao falar de suas preocupações em relação ao tema da criação em cativeiro.

“Temos um exemplo de organismo que evoluiu para ter uma inteligência extremamente comparável à nossa.”

Suas habilidades de resolução de problemas, para brincadeir e desenvolver a curiosidade são muito semelhantes às dos humanos, diz Vinther —e ainda assim são “de outro mundo”.

“Isso é potencialmente como seria se fôssemos encontrar um alienígena inteligente de um planeta diferente.”

A Nueva Pescanova afirma em seu site que está “firmemente comprometida com a aquicultura como um método para reduzir a pressão sobre os pesqueiros e garantir recursos sustentáveis, seguros, saudáveis ​​e controlados, complementando a pesca.”

Lara, da CIWF, argumenta, no entanto, que as ações da NP são puramente comerciais e o argumento ambiental da empresa não é lógico. “Isso não significa que os pescadores vão parar de pescar (polvos).”

Ela afirma que a criação de polvos pode aumentar a pressão crescente sobre os estoques de peixes selvagens.

Os polvos são carnívoros e precisam comer de duas a três vezes o seu próprio peso em alimentos para viver. Atualmente, cerca de um terço dos peixes capturados ao redor do planeta é transformado em ração para outros animais —e cerca de metade dessa quantidade vai para a aquicultura.

Assim, o polvo de criação poderia ser alimentado com produtos de peixe provenientes de unidades populacionais já superexploradas.

A ativista está preocupada com os consumidores que desejam fazer a coisa certa e podem pensar que comer polvo de criação é melhor do que polvo capturado na natureza. “Não é nada mais ético —o animal vai sofrer a vida inteira”, diz ela.

Um relatório de 2019 liderado pela professora associada de estudos ambientais da New York University, Jennifer Jacquet pontua que proibir a criação de polvos não deixaria os humanos sem comida suficiente.

Isso significará “apenas que os consumidores ricos pagarão mais por polvos selvagens cada vez mais escassos”, afirma. Todo o debate está repleto de complexidades culturais.

A agricultura industrial em terra evoluiu de forma diferente em todo o mundo. Os porcos, por exemplo, demonstraram ser inteligentes —então qual é a diferença entre um porco de criação industrial produzindo um sanduíche de bacon e um polvo de criação industrial sendo colocado no prato espanhol Pulpo a la Gallega?

Os conservacionistas argumentam que a sensibilidade de muitos animais de criação não era conhecida quando os sistemas intensivos foram configurados e os erros do passado não deveriam ser repetidos.

Como os porcos foram domesticados há muitos anos, temos conhecimento suficiente sobre suas necessidades e sabemos como melhorar suas vidas, diz Lara.

“O problema com os polvos é que eles são completamente selvagens, então não sabemos exatamente do que eles precisam, ou como podemos proporcionar uma vida melhor para eles.”

Dado tudo o que sabemos sobre a inteligência dos polvos, e o fato de eles não serem essenciais para a segurança alimentar, uma criatura inteligente e complexa deveria começar a ser produzida em massa para alimentação?

“Eles são seres extremamente complexos”, afirma Vinther. “Acho que, como humanos, precisamos respeitar isso se quisermos cultivá-los ou comê-los.”



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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