Por que Jesus morreu? Teólogo explica ideias sobre o tema – 14/04/2022 – Darwin e Deus

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Temos um texto muito especial, enviado por um leitor que acompanha o meu trabalho há anos, para marcar a Semana Santa por aqui. O teólogo e filósofo Zenon Lotufo Jr. escreveu o que talvez seja um dos posts mais eruditos, e ao mesmo tempo mais claros e acessíveis, que já tive o prazer de publicar por aqui.

A seguir, ele resume as principais ideias teológicas que surgiram ao longo da história do cristianismo para explicar para que e por que Jesus Cristo morreu na cruz. Ele destaca que a ideia de que o sacrifício do Nazareno foi uma simples retribuição “jurídica” pelo pecado humano está longe de ser a única explicação imaginada pelos pensadores cristãos. Recomendo fortemente a leitura. Feliz Páscoa para todos!

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​Para que Jesus morreu?

Por Zenon Lotufo Jr.

Filósofo, teólogo e analista transacional. Doutor em Psicologia da Religião pela PUC-SP. Autor de “Cruel God, Kind God – How images of God shape belief, attitude, and outlook”, com edição brasileira em vias de publicação sob o título “Teologia e Plenitude Humana”, do qual este texto foi extraído e adaptado

Dentro de alguns dias, cristãos de todo o mundo estarão comemorando a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, para muitos a data máxima da cristandade, bem mais importante que o Natal. Se perguntarmos a esses fiéis pelo significado da morte na cruz, a grande maioria deles, caso tenha alguma instrução teológica, responderá mais ou menos o seguinte: “Deus estava irado com os pecadores. Os judeus tinham tentado aplacar sua ira oferecendo-lhe simbolicamente a vida de animais em lugar deles mesmos com suas culpas. Mas isso era inadequado e por isso Jesus ofereceu um sacrifício perfeito. Ele morreu como nosso substituto para aplacar a ira de Deus.”

Ou, de forma um pouco mais sofisticada: “Voluntariamente desobedecendo à ordem de Deus de não comer o fruto proibido no Éden, Adão pecou. Por ser um pecado dirigido contra Deus, tinha proporções infinitas. Os pecados precisam ser expiados, caso contrário a justiça de Deus ficaria comprometida. Um pecado infinito exige uma expiação infinita, a qual só se realiza quando Deus assume a nossa culpa e paga a penalidade extrema correspondente àquele pecado: a morte. Deus fez esse pagamento por meio da Pessoa de Cristo e a dívida foi cancelada”.

Nesse contexto, a “ira de Deus” tem posição privilegiada. Ou, como escreve um teólogo conservador, “A ira é a reação divina ao pecado. A expiação é necessária porque os homens estão sob a ira e o juízo de Deus.”

Não é comum, contudo, que os fiéis saibam que a teoria acima esboçada para explicar a morte na cruz recebeu sua formulação mais ou menos elaborada, aquela que hoje encontramos nos compêndios teológicos, de um monge beneditino, canonizado como Santo Anselmo, arcebispo de Cantuária, entre 1093 e 1109.

Também é relativamente raro que se saiba que várias outras explicações foram aventadas para a morte na cruz e que a anselmiana, também conhecida como “substitutiva, “jurídica” ou da “satisfação penal”, tem sido enfaticamente rejeitada por grande número de teólogos contemporâneos, tanto católicos quanto protestantes, por ter como implicação a imagem de um Deus inclemente e vingativo, bastante diferente daquele que Jesus apresenta.

O cardeal Joseph Ratzinger (depois papa Bento 16), por exemplo, escreveu que se recusava a crer que Deus só se tornou misericordioso quando sua vingança foi realizada; que ele repudiava a teoria da “satisfação”, que situava a cruz “no interior de um mecanismo de direito lesado e restabelecido”, juntamente com a noção de um Deus “cuja justiça inexorável (teria) reclamado um sacrifício humano. O sacrifício do seu próprio Filho.” Ao que acrescenta: “Quanto mais difundida essa imagem, mais falsa ela é”.

As citações deste último parágrafo e dos dois seguintes foram colhidas em “À Espera da Aurora – Um cristianismo para o amanhã”, do historiador francês Jean Delumeau, católico, de quem sou admirador, sobretudo, mas não só, pelo seu notável livro “O Pecado e o Medo – A culpabilização no Ocidente (séculos XIII-XVIII)”. Pois bem, para mostrar que Ratzinger não está desacompanhado nessa matéria espinhosa, Delumeau reproduz ditos “pouco delicados” para com a doutrina de outros teólogos de relevo, também católicos.

De Th. Rey-Mermet, “[Essa doutrina] apresenta Deus como um justiceiro sanguinário, um salafrário voraz, para o qual o preço não tem importância já que ele sacrifica o inocente em lugar do culpado. A menos que se veja apenas uma transação fictícia de Deus com Deus, um capital mudando de gaveta na mesma caixa. Mas, então, qual a razão dessa comédia? E, nesse ‘jogo’, qual a razão para o sofrimento e a morte de um homem? […] De qualquer modo, tanto em um caso como no outro, a Ressurreição perde a importância, pois tudo é pago, ‘resgatado’, pela morte.”

Agora, B. Seboüé: “Nossa salvação não é uma transação que teria sido realizada entre o Pai e o Filho. O Pai teria obrigado seu Filho a morrer para vingar-se nele, de alguma maneira, do pecado da humanidade. Por sua vez, o Filho teria aceitado essa condenação à morte como um castigo para expiar nossos pecados. Algumas pessoas chegaram mesmo a pensar que era preciso ‘compensar’ o peso do pecado com um peso de suplício equivalente. […] Pois esse Deus vingador, sanguinário e injusto, pois pune o inocente no lugar dos culpados, não é digno de que se creia nele: é um Moloch.” Ou seja, “é um demônio”.

Também não é difícil encontrar teólogos protestantes levantando a voz contra o que lhes parece a representação de Deus como um “sádico cósmico”. Um deles, também psicólogo, é o querido amigo (recentemente falecido) J. Harold Ellens, americano, autor de extensa obra nos campos da teologia e do que ele chamava de “psicoteologia”.

Em um de seus textos que obtiveram maior repercussão (“Religious Metaphors Can Kill” ou “Metáforas Religiosas Podem Matar”), escrito pouco depois do atentado às Torres Gêmeas, ele examina as raízes da violência religiosa – para ele, atuando como arquétipo no subsolo da cultura ocidental – e vai situá-las na imagem de Deus presente na teoria da expiação “elaborada por antigos teólogos cristãos e sintetizada na teoria jurídica de Anselmo”, na qual o Criador é descrito como perturbado de tal forma pela pecaminosidade humana que só lhe restam “duas opções: destruir-nos ou providenciar um sacrifício substitutivo para pagar por nossos erros. Escolheu a última. Matou Cristo.”

“Isso”, prossegue Ellens, “foi elaborado em termos teológicos sentimentais e nebulosos, e interpretado de forma a fazer da cruz, como expiação substitutiva, um extraordinário ato da graça. Contudo, em nível inconsciente, é, de fato, uma metáfora do pior tipo de violência: infanticídio ou sacrifício de crianças. A dinâmica inconsciente dessa metáfora tem a ver com a imagem ou modelo de Deus que o representa tão enraivecido que a única forma que encontra para por sua cabeça em ordem é matar alguém, nós ou Cristo.”

Essa explicação para a crucificação de Jesus de Nazaré, como metáfora há tanto tempo enraizada bem no centro da cultura ocidental, contradiz, salienta Ellens, ponto por ponto a ética do amor e da graça que ela se propõe a expressar, gerando e alimentando, em vez disso, a patológica tendência a recorrer ao conflito e à violência que nos caracteriza.

Vejamos o que escreve a respeito Walter Wink, também teólogo e americano, notabilizado por seus vários volumes sobre os “Poderes”. A citação é do livro “The Powers that Be” (“Os Poderes Estabelecidos”). “O Deus que Jesus revelou como não sendo mais vingativo, mas incondicionalmente amoroso, que não necessitava satisfação de sangue – esse Deus de misericórdia foi transformado pela igreja em um Deus cheio de ira, cuja exigência de expiação pelo sangue leva a requerer a morte de seu próprio Filho em benefício de todos nós. O Deus não violento de Jesus torna-se um Deus de violência inigualável, uma vez que não apenas, como se alega, exige o sangue da vítima que é a mais preciosa para ele, mas considera a humanidade responsável por uma morte que ele mesmo antecipa e requer. Contra tal imagem de Deus, a revolta do ateísmo é um ato de pura religião!” (O destaque é meu.)

Pois bem, se essa explicação substitutiva e sacrificial é tão discutível, que alternativas se oferecem? Elas podem ser divididas em dois grupos, usando como critério atribuírem ou não valor ao sacrifício em si.

Explico: uma mãe pode sacrificar seu descanso e muitas noites de sono parra cuidar de um filho doente. O sacrifício aqui é tão somente uma decorrência inevitável da situação. Mas pode, também, passar acordada as mesmas noites, não por alguma necessidade objetiva, mas como forma, como meio, de obter determinados resultados tais como agradar a Deus, despertar admiração, pagar pelos pecados etc. Desde os começos do movimento cristão, foram apresentadas doutrinas que se situam nesse modelo. Vou apenas mencionar algumas das que alcançaram maior divulgação.

Resgate: esposada pelo teólogo Orígenes (c.185-253) e considerada por bom número de autores como a mais antiga na história do cristianismo, explica a morte de Jesus como um resgate pago ao Diabo. Este nos teria em suas mãos e teria aceitado a oferta de Deus de resgatar-nos, trocando-nos por seu Filho. Oferta aceita, mas que, em função da ressurreição, resultaria na derrota de Satanás, cujas mãos terminam vazias.

Christus Victor: de certa forma uma modificação da anterior, foi apresentada pelo teólogo sueco Gustaf Aulén, cujo livro “Christus Victor” (Cristo Vencedor) tornou-se um clássico no tema. Ele vê a morte na cruz como a culminação de um embate entre as forças do bem e as do mal, combate do qual Cristo, pela ressurreição, resulta vencedor. Um ponto fraco da teoria é que não ficam claras as consequências dessa vitória, nem como esta se processa.

Influência Moral: tem como proponente o teólogo Abelardo (1075-1142), praticamente contemporâneo de Anselmo, e é conhecida também como “teoria psicológica” ou “subjetiva”. A morte de Jesus na cruz seria antes de tudo uma demonstração de até onde pode chegar o amor de Deus por suas criaturas. Por um processo de identificação com Cristo – místico, em essência – os humanos encontrariam orientação e forças para superar as inclinações perniciosas que costumeiramente os dominam.

Mas, nesse contexto, qual seria a necessidade da morte sacrificial? Considero cabível como resposta uma interpretação que, naturalmente, não se encontra em Abelardo; mas sugerida por texto de Karl Jaspers. Em seu livro “A Fé Filosófica”, o filósofo alemão compara as atitudes de Galileu e Giordano Bruno frente ao tribunal da Inquisição: Galileu defendia uma verdade demonstrável; tratava-se apenas de usar um telescópio para verificar o que era afirmado. A verdade, em casos como esses, não depende de quem a sustenta; não faz sentido querer morrer por uma exatidão suscetível de ser demonstrada. No entanto, quando uma ideia só tem a sustentá-la o testemunho pessoal, retratar-se dela pode ser sentido como uma traição à própria consciência, como expressa Martinho Lutero diante da Dieta de Worms e da ameaça a sua vida: “Não posso e não vou retratar nada, pois ir contra a consciência não é certo nem seguro”.

Girardiana: aventada pelo pensador francês René Girard, tem encontrado certa repercussão entre teólogos por verem nela uma explicação não violenta da morte na cruz. Para esse autor, em todas as sociedades humanas ocorre uma disputa pelos bens que são considerados mais valiosos e que são escassos. Com o decorrer do tempo, disso resulta inevitavelmente um embate, que Girard chama de “conflito mimético”, e que, ao se agudizar, coloca em risco a própria sobrevivência do grupo, cujos integrantes instintivamente se mancomunam para encontrar um pretenso culpado, o “bode expiatório”, que passa a ser o foco da agressividade de todos os demais.

A tarefa comum de perseguir, expulsar e, eventualmente, matar o “culpado” produz um período de harmonia no interior da sociedade, harmonia que perdura até surgir novo ciclo de conflito, repetindo-se o processo. Aplicando essa interpretação à morte de Jesus, argumenta Girard que pela primeira vez na História o relato do acontecimento se fez da perspectiva da vítima – Cristo, no caso – em vez de narrado do ponto de vista dos executores. O impacto dessa mudança teria o efeito de denunciar os demais ciclos de violência e perseguição de supostos culpados.

Essa teoria, evidentemente mais complexa do que o descrito neste espaço, apresenta pontos interessantes, mas falha em aspectos como o de se pretender panexplicativa do que sucede nas interações humanas, e revelando-se insatisfatória quanto a demonstrar o efeito antiviolência do sacrifício de Cristo.

Sacrifício aceito mas involuntário: Os proponentes desta explicação para a morte de Jesus na cruz, cujo número é crescente, têm como principal ponto em comum a rejeição radical de qualquer teoria que faça do sacrifício uma condição para modificar a atitude de Deus com relação à humanidade ou que veja em sua prática qualquer valor em si, seja como oferta, pagamento ou moeda de troca, seja como elemento que, por si, valorize alguma atitude humana como, p. ex. oferecer a Deus um sofrimento evitável.

Ou seja, Cristo teria sido condenado à morte cruel por homens poderosos e temerosos de seus ensinamentos, vistos como subversivos. Sua morte, então, só pode ser considerada resultado da maldade (ou do pecado, em termos teológicos) humana em reação à sua pregação de amor, bondade, mansidão, humildade, compaixão: os valores do Reino de Deus. E que denuncia a maldade, o egoísmo, a hipocrisia e o apego ao poder, às honrarias e às riquezas materiais. Nesse contexto, a ressurreição representa a garantia de que a vitória final será do Reino e dos que o buscam com prioridade e empenho.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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