Por enquanto, Pequim absorve impacto do boicote olímpico – 20/12/2021 – Edgard Alves

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Após o susto inicial, o boicote liderado pelos Estados Unidos contra os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, em Pequim, não ganhou proporções de risco grave aos eventos.

Pelo menos até agora, com os desfiles de abertura das competições programados para 4 de fevereiro e 4 de março, do ano que vem, respectivamente, o movimento pode ser avaliado como fraco. Mesmo porque o protesto desencadeado pelos Estados Unidos tem alguma expressão (pouca, aliás) mais a nível de oratória do que uma pesada carga contra os Jogos, sua organização e seus preparativos.

O movimento é um boicote diplomático, um gesto político que consiste na deliberação de não enviar representantes do governo às cerimônias olímpicas. Os países que aderirem ao boicote não deverão bloquear a participação de seus atletas nas competições.

O motivo para o protesto não são os Jogos em si. O evento é utilizado como instrumento para reverberar as denúncias de supostas violações dos direitos humanos na China. Os debates envolvem questões relacionadas aos muçulmanos da etnia uigur na região de Xinjiang, além de denúncias de repressão política no Tibete e Hong Kong.

O conflito subiu de tom porque a China abriga pela segunda vez um evento do COI (Comitê Olímpico Internacional), de grande repercussão mundial, e grupos defensores dos direitos humanos destacam que promessas de melhorias não foram cumpridas após os Jogos de Verão de 2008, também na capital chinesa.

Os últimos Jogos de Inverno, em 2018, ocorreram sob clima de confraternização em PyeongChang, na Coreia do Sul, com participação de 2922 atletas (1680 homens e 1242 mulheres) de representações de 92 países.

Um dos fatos marcantes naquela oportunidade foi a união das Coreias, a do Norte e a do Sul, no desfile de abertura, quebrando um impasse nas relações entre os dois países. Ambos também competiram unificados com uma equipe de hóquei no gelo, que perdeu as cinco partidas disputadas. Pela relevância da iniciativa, pode-se dizer que foram doces derrotas.

Nas vésperas de PyeongChang, houve apreensão por conta de um surto de norovírus, tipo de vírus com alta capacidade infecciosa e de resistência que provoca sintomas como diarreia, vômitos e febre alta. Mais de 200 casos foram notificados, mas a onda não progrediu e as competições ocorreram sem tropeços.

Hoje, mesmo com a pandemia do Covid-19 e suas variantes ainda ceifando vidas, as pesquisas avançaram, permitindo um controle mais eficiente das contaminações. O surgimento da onda de gripe, por enquanto, não coloca em risco os grandes eventos esportivos, que adotam medidas rígidas para garantir a segurança dos participantes e dos torcedores, quando a presença destes é permitida nos estádios.

Estados Unidos, Grã-Bretanha, Austrália, Canadá e Nova Zelândia foram precursores no anúncio do boicote diplomático. Sábado (18), o primeiro-ministro da Bélgica, Alexander De Croo, também revelou que seu país não enviará nenhum representante do governo federal aos Jogos.

A Lituânia entrará no boicote, mas por outro motivo: a disputa com a China relacionada à permissão de uma embaixada de Taiwan na sua capital, Vilnius. Em contrapartida, a Rússia, via seu comitê olímpico, descreveu a atitude de Washington como “contraproducente”. A embaixada chinesa nos Estados Unidos classificou a medida como “pretensiosa”, “uma manipulação política” e “uma grave distorção do espírito da Carta Olímpica”.

A troca de farpas é tradicional da Rússia e dos Estados Unidos em celeumas internacionais, pois os dois países têm interesses conflitantes na aplicação de suas políticas e nas intervenções nos mercados, sempre marcadas por disputas nas relações diplomáticas.

Ao lado da China, ambos lideram a economia mundial. Wladimir Putin, o líder russo, confirmou que irá a Pequim para os Jogos. Uma lembrança desagradável: em 1980 e 1984, russos e norte-americanos boicotaram as Olimpíadas quando elas aconteceram no território de um e do outro.

E uma curiosidade: desde 2019, a Rússia continua suspensa por falcatruas gravíssimas de doping de atletas, com respaldo governamental, e não compete sob a bandeira e hino do país, mas sim do COI.

Potências europeias, como França e Itália, já anunciaram que não vão aderir a qualquer iniciativa do tipo. A explicação é simples: a França promoverá as Olimpíadas de Verão de 2024 em Paris e a Itália será sede dos Jogos de Inverno de 2026, em Milão e Cortina d’Ampezzo, cidades no nordeste do país.

Em outras palavras, aceitam não atirar pedras agora, pois em pouco tempo virarão vidraça. Claro!


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