Pets seguem dietas da moda adotadas por donos e preocupam veterinários – 03/03/2022 – Equilíbrio e Saúde

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Karl Malone começa seu dia com um desjejum que inclui raiz de ashwagandha, ou ginseng indiano, e casca de psílio moída. Seu jantar sempre é temperado com cúrcuma moída, e ele não deixa de tomar suplementos para suas articulações. Ele faz duas caminhadas diárias em ritmo acelerado e evita comida de restaurante, já que seu médico recomendou que ele perca peso.

Karl Malone é um cachorro –um mestiço de pastor-australiano, de cor castanha e 11 anos de idade.

Darshna Shah, sua dona, acha que a saúde de seu companheiro melhorou muito graças a esse regime de “wellness” –um misto de conselhos de amigos, de seu veterinário e de boletins sobre pets, aliado a remédios nutricionais usados por sua família na Índia em sua infância.

Ex-executiva de seguradora que vive em Cerritos, Califórnia, Shah, 64, pensava no passado que, desde que seus pets tivessem casa e fossem bem alimentados, estariam bem. Mas o foco crescente sobre o conceito de “wellness”, especialmente entre pessoas mais jovens, a convenceu de que ela precisava fazer mais. “A qualidade de vida deles depende da saúde.”

O número de pessoas que adotaram animais de estimação nos EUA subiu vertiginosamente durante a pandemia, chegando a 1 milhão em 2021, o mais alto em quase seis anos. E os donos de pets têm dedicado atenção e dinheiro ao que consomem seus cães, gatos, hamsters, peixinhos-dourados e outros animais de estimação.

Para muitas pessoas, a solução está em customizar a dieta de seus pets para assemelhar-se a seus próprios hábitos alimentares.

Há pets que seguem dietas crudivoristas, dietas sem glúten, dietas sem grãos, dietas veganas ou vegetarianas. Alguns pets consomem quitutes ou bebidas condimentadas, como lattes com cúrcuma ou com CBD (canabidiol). Outros não ficam sem um probiótico ou suplemento de vitamina C. Alguns donos de pets criam cardápios especiais para eles em casa, enquanto outros preferem escolher entre a gama cada vez maior que existe no mercado de produtos feitos sob medida para esses regimes.

Oscar, um cruzamento de terrier com chihuahua que vive no Brooklyn, em Nova York, é vegetariano, assim como sua dona, Roopa Kalyanaraman Marcello, 42. Especialista em política de saúde pública, ela alimenta seu cão com comida vegetariana comprada.

“Ele faz parte da família”, ela explicou. “Eu acharia estranho demais se um dos meus filhos começasse a comer carne.”

No ano passado, Jennifer Donald, 52, começou a desconfiar que a ração à base de trigo que dava a seu labrador, Moses, era responsável pelos problemas digestivos dele.

Jennifer tem doença celíaca e não come glúten. Recentemente ela adotou a mesma dieta para Moses, alimentando-o com salmão selvagem, batata-doce, ovos cozidos, óleo de coco e arroz –os mesmos ingredientes que emprega para preparar tigelas à base de grãos para ela própria e seu marido.

“Isso tem me ajudado a ficar mais em sintonia com ele, além de estar me ajudando a controlar minha doença”, disse ela, que leciona justiça criminal na Universidade de Maryland.

Não existem regras claras e simples sobre como alimentar um animal de estimação. A FDA (agência que regulamenta alimentos e drogas nos EUA) emitiu alertas sobre certas dietas animais e regula a manufatura e rotulação de rações para pets, mas dá orientações muito mais vagas em relação aos ingredientes. As opiniões de veterinários variam, e as pesquisas científicas sobre saúde de animais de estimação estão muito atrás dos estudos sobre humanos. A internet está cheia de conselhos e desinformação. Cabe principalmente aos donos decidir em quem confiar.

O American Kennel Club, um cadastro central para cães, oferece materiais educativos e recomendações online sobre dieta, todos verificados e aprovados por seu diretor veterinário. Por isso mesmo a vice-presidente de comunicações da entidade, Brandi Hunter Munden, lamenta quando vê pessoas aderindo a dietas da moda que, segundo ela, podem encerrar os mesmos riscos para pets quanto representam para humanos.

Munden disse que essas dietas podem perpetuar generalizações sobre saúde, promover regimes que não são fundamentados por pesquisas e capitalizar em cima da ansiedade de pessoas que receiam não estar fazendo o suficiente por seus animais.

Tendência crudivorista

O mercado das chamadas “rações nutritivas para pets” –ou seja, produtos mais caros que alegam conter ingredientes de alto valor ou nutricionalmente enriquecidos— deve movimentar até US$ 17,9 bilhões em 2026, segundo previsão divulgada no ano passado pela empresa de análises independentes Pet Insight. O “wellness” de pets em geral já virou uma indústria ainda maior e deu lugar a todo um subgrupo de influenciadores e grupos do Facebook dedicados a aprimorar as dietas de animais domesticados de todos os tipos.

À medida que a taxa de natalidade humana vem caindo constantemente nos Estados Unidos, muitas pessoas começam a encarar seus bichos de estimação como se fossem seus filhos, de alguma maneira.

“Dizer ‘meu cachorro come tão bem quanto um humano’ é uma forma de a pessoa se mostrar”, comentou Sean MacDonald, 30, que é chef em Toronto. Em sua conta no TikTok ele prepara refeições complexas para seu labrador cor chocolate, Hazelnut, feitas principalmente de ingredientes crus.

O foco intenso sobre o que comem os pets também está ligado ao tempo maior que muitos donos de pets passaram com seus bichos durante a pandemia, período no qual muitas pessoas também começaram a prestar mais atenção à própria saúde, disse Hunter Munden, a executiva do Kennel Club.

Mas impor um novo estilo de vida a um ser querido pode ficar complicado quando esse ser não tem como se comunicar nem tomar decisões por conta própria, ela disse. “Um cachorro come qualquer coisa que você coloca diante dele, mas isso nem sempre é o melhor para ele.”

Em 1999 a nutricionista de humanos e animais Kymythy Schultze, 63, publicou um livro sobre alimentação crudivorista para pets intitulado “The Ultimate Diet: Natural Nutrition for Dogs and Cats” . Ela havia começado a alimentar seus pets dessa maneira depois de eliminar alimentos processados de sua própria dieta, para aliviar seus problemas de saúde. A premissa é semelhante à da dieta paleo: que as pessoas devem se alimentar como faziam seus ancestrais na Idade da Pedra.

Muitos leitores acharam as recomendações dela radicais demais. Segundo Schultze, veterinários lhe disseram que pets só podem sobreviver à base de comida enlatada ou ensacada. “Como os cães e gatos sobreviveram por milhares e milhares de anos?”, ela indagou. “A comida embalada e enlatada não existe há tanto tempo assim.”

O livro vendeu dezenas de milhares de cópias. E a alimentação crua para pets –que inclui vegetais, proteínas animais, ossos e outros ingredientes não cozidos— passou de hábito de uma minoria muito pequena a modismo, apesar de ser desaconselhada por vários especialistas.

Nos últimos anos a FDA, os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a Associação Americana de Medicina Veterinária e a Associação Americana de Hospitais para Animais têm criticado a dieta crudivorista para pets, dizendo que é perigosa e citando o risco de alguns alimentos crus estarem contaminados por bactérias nocivas.

Mas o redator Wes Siler, de Bozeman, Montana, disse que a dieta delineada por Schultze transformou a saúde de seus cães, Wiley, Bowie e Teddy. Há quase quatro anos ele os alimenta com coxas de frango, fígado de galinha e salmão crus e diz que as irritações de pele que os cães tinham desapareceram. Siler, 41, acha que a ração é “um veneno para cachorros”, comparando-a a fast food, que ele afirma não consumir há 25 anos.

Vozes veterinárias

As ideias sobre quem são vozes autorizadas a opinar no campo da saúde de pets vêm mudando, e uma desconfiança crescente dos veterinários está à base do interesse de muitos donos no “wellness” de seus animais.

Schultze, a autora do livro sobre dieta crudivorista, disse que os fabricantes de rações para pets exercem forte influência sobre veterinários por oferecerem a eles descontos sobre produtos e até serem donos de hospitais veterinários.

Quando seu veterinário não a apoiou na proposta de alimentar seu cão com comida crua, Kayla Kowalski, 21, passou a levar seu pet a uma veterinária holista que concordava com ela. Os veterinários holistas muitas vezes usam práticas como acupuntura e homeopatia, ao lado da medicina ocidental.

Haley Totes começou a acrescentar alimentos frescos como caldo de ossos, costelas de boi, vagens e kefir à alimentação de seus cachorros depois de ver um post no TikTok em que uma pessoa arrolava os ingredientes processados presentes nas rações para pets e de ler sobre dietas online. “Alguns veterinários desconfiam da alimentação crua, mesmo que seja feita em casa”, ela disse.

Os veterinários, por sua vez, ficam frustrados quando as pessoas acreditam mais em posts nas redes sociais que nos conselhos de profissionais médicos.

“Os donos de pets confiam em nós para fazermos recomendações sobre a saúde de seus pets em coisas como como ‘seu pet tem um tumor; precisamos extirpá-lo e fazer uma biópsia’”, comentou o veterinário Marcus Dela Cruz, de San Luis Obispo, Califórnia. “Mas quando fazemos recomendações sobre alimentação, a reação é outra.”

Ele reconhece que recebe um desconto sobre rações para pets, mas disse: “Não recomendo a ração dessa marca a todos os clientes”.

Segundo Dela Cruz, há muita desinformação online sobre saúde de pets, e os animais estão sofrendo por isso. Carnes cruas podem conter bactérias resistentes a antibióticos, e podem faltar nutrientes essenciais nas refeições feitas em casa. Dietas vegetarianas, segundo ele, não são apropriadas para a maioria dos gatos porque os felinos precisam de proteína animal, mas podem ser aceitáveis para cachorros.

Yishian Yao, 30, é gerente de uma empresa de cuidados animais em El Cerrito, Califórnia. Para ela, a cultura do “wellness” para pets pode parecer não apenas classista, já que muitos donos de pets não têm condições financeiras de comprar suplementos e comida fresca para seus animais, mas também manipulativa.

A mensagem que passa, segundo ela, é: “Se você não faz isso pela saúde de seu animal de estimação, você não é um bom pai ou mãe dele”.

Yao especula que a ideia popular de que animais de estimação são como membros da família pode na realidade ter sido prejudicial aos animais, “por avaliar a comida deles pela ótica do valor humano”.

“Não é que eu não pense que os pets devem ser tratados e cuidados como membros da família”, ela disse. “O que acho errado é quando os tratamos como se fossem humanos, sendo que não são. Será que isso é realmente o melhor para eles?”

Tradução de Clara Allain

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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