Pesquisadores fazem contagem de botos na Amazônia para avaliar ameaça de extinção – 30/10/2021 – Ambiente


Sob o implacável sol amazônico, os pesquisadores a bordo do barco Comandante Gomes 3 apertam os olhos para não perder os poucos segundos em que os botos (boto-rosa) e os tucuxis (boto-cinza) surgem das águas barrentas para respirar.

O trabalho extenuante da expedição Boto da Amazônia, realizado por três semanas ao longo de 1.200 km pelos rios Solimões, Purus e Japurá, visa a responder a uma pergunta dramática: após anos de caça em larga escala, os golfinhos da Amazônia continuam ameaçados de extinção?

A situação mais preocupante é a do boto. A partir do início dos anos 2000, um monitoramento do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) liderado pela bióloga Vera da Silva começou a notar um declínio acentuado da população da espécie na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá (530 km de Manaus).

Em seguida, o Inpa concluiu que a população do boto em Mamirauá vinha caindo pela metade a cada dez anos. A descoberta o colocou na lista vermelha de animais em perigo de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, na sigla em inglês), em 2018.

Dois anos depois, o tucuxi, que costuma morrer após ficar preso em redes de pesca, recebeu a mesma classificação. Hoje todas as espécies de golfinho de rio no mundo estão ameaçadas, e uma delas, o baiji, foi extinta, na China.

Com o boto, o motivo da redução abrupta foi a popularização do seu uso como isca para a pesca da piracatinga, também conhecida como urubu d’água. Para ser capturada, essa espécie de peixe carniceiro é atraída para dentro de um cercado pela gordura do boto esquartejado, um frenesi parecido ao ataque de piranhas. Jacarés também costumam ser usados na atividade, mas com impacto ecológico menor.

“A pesca da piracatinga é a ameaça mais gritante, a que temos de lidar com maior rapidez”, afirma a pesquisadora-chefe da expedição, a fluminense Sannie Brum, 38.

“Os declínios têm sido observados em áreas muito pontuais, mas, como são ameaças emergentes, sem solução e em escalada, foram classificados como ameaça de extinção pela IUCN”, afirma a bióloga.

A pesca de golfinhos amazônicos já é proibida, mas só essa proteção legal não era suficiente. Por isso, em 2015, o governo federal decretou, por cinco anos, uma moratória da pesca e da comercialização da piracatinga.

A suspensão dessa atividade foi renovada duas vezes por períodos de um ano e agora termina em 1º de julho de 2022. A decisão cabe ao governo federal, via Ministério da Agricultura.

O consumo da piracatinga é raro entre os ribeirinhos, mas sua carne é bastante apreciada na Colômbia, o que abriu o mercado para esse peixe há cerca de 20 anos. Desde 2017, porém, o país vizinho suspendeu a comercialização por tempo indeterminado, após pesquisas detectarem alta concentração de mercúrio na carne.

No Brasil, é comum a piracatinga ser comercializada “disfarçada” de filé de douradinha ou de pirarucu, enganando o consumidor.

Segundo relatório do Ministério da Agricultura, a partir de números fornecidos pelo governo estadual, o Amazonas produziu cerca de 4.500 toneladas/ano entre 2011 e 2014. A pesca ocorre principalmente no rio Solimões.

Apagão estatístico

O problema é que, durante a vigência da moratória, não tem havido acompanhamento efetivo da tendência populacional. Em 2016, o Cepam (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica), do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), realizou uma primeira expedição pelos rios Solimões e Purus. O projeto previa outras cinco contagens anuais, até 2020, mas não houve mais recursos para as viagens.

O monitoramento só foi retomado em outubro, graças a uma parceria entre o Inpa e a ONG Sea Shepherd Brasil, que decidiu patrocinar, inicialmente, seis viagens semestrais de monitoramento, com o mesmo itinerário de 2016. A primeira expedição, acompanhada pela reportagem da Folha, foi concluída no último sábado (23).

“Quando abraçamos uma causa, ficamos por muito tempo”, afirma Nathalie Gil, que lidera a campanha na Sea Shepherd, financiada por meio de doações. “Criamos esse modelo de pensar em três anos, mas queremos ficar muito mais. Começar com pesquisa e quem sabe, no futuro, se tornar até uma fiscalização.”

De acordo com Brum, não há como avaliar a população dos botos e tucuxis apenas com as expedições de 2016 e a recém-concluída. Em reuniões com o ministério, a cientista, como representante do Inpa, defendeu a renovação da proibição por mais seis anos, tempo necessário para uma avaliação conclusiva.

O motivo é o ciclo de vida lento dos botos. Eles só chegam à maturidade sexual após dez anos. A gestação dura de 12 a 13 meses, e só nasce um filhote por vez, que fica sob os cuidados da mãe durante três anos.

Apesar desse posicionamento do Inpa, o ministério é contrário à moratória e defende a retomada “sustentável” da pesca da piracatinga, embora evite falar em prazos.

“O gatilho para a adoção da moratória foi o uso de espécies silvestres, incluindo o emblemático boto, como isca para a captura da piracatinga. Contudo, cabe mencionar também que a moratória trouxe uma grande restrição nas opções de renda de comunidades ribeirinhas, pois, em algumas áreas, há relatos de que o componente piracatinga, no total de peso capturado, chegava a 35%”, afirma a pasta, em nota.

Brum nega que o peixe tenha tanta importância na economia local. “Em conversas que temos mantido com pescadores desde a proibição em nossa área de estudo, principalmente no Médio Solimões, os pescadores não nos indicam a proibição como uma séria restrição a sua renda.”

Método para baleia

Para o cômputo dos botos e tucuxis, os pesquisadores do Inpa utilizam método criado para as baleias, adaptado para as condições amazônicas e para os golfinhos de rio. Trata-se de estimativa: como os cetáceos se movimentam e só são avistados quando sobem para respirar, não é possível contá-los todos.

Para medir a densidade populacional, os biólogos dividem então a distância percorrida em transectos, unidade usada para contar tanto plantas quanto animais. No caso dos golfinhos amazônicos, um novo transecto é criado a cada 2 km percorridos.

Os tucuxis (cinza), que costumam nadar em grupo, são mais visíveis que os botos-rosa, de comportamento mais solitário. Por isso, ao calcular a densidade, os pesquisadores estimam que, em média, avistam 70% dos tucuxis de determinado transecto. Para os botos-rosa, o percentual cai para 40%.

Em campo, o trabalho envolve seis pesquisadores, divididos em dois grupos, postados em plataformas na proa e na popa do barco. Cada equipe tem dois observadores de botos e um anotador.

Em geral, são seis horas de trabalho, de manhã e à tarde, sob forte calor. Ao longo dos 19 dias em que houve contagem, foram avistados cerca de 1.400 botos e 3.200 tucuxis. As conclusões em relação aos números, contudo, só serão obtidas depois das seis viagens previstas.

Na contagem de 2016, que servirá de base para acompanhar a dinâmica populacional, o rio Purus foi o local de maior densidade –e não só de botos na Amazônia. Nenhuma espécie de cetáceo do mundo registrou densidade tão alta quanto a do rio Purus, segundo a pesquisadora Sannie Brum. Ela cita dois motivos: a alta piscosidade e a pesca manejada na RDS Piagaçu-Purus.

Por outro lado, a densidade de botos diminui drasticamente na região de Manacapuru (100 km de Manaus), onde houve intensa pesca de piracatinga. Foi ali que a expedição flagrou o único ponto dessa atividade durante a viagem, um sinal de que a moratória diminuiu, mas não acabou com a prática.

Caso o boto seja extinto, a Amazônia perderá um de seus habitantes mais originais. Enquanto o tucuxi, parente dos golfinhos do mar, adentrou pela foz do rio Amazonas há “apenas” 2,5 milhões de anos, o boto está na região amazônica desde que a atual floresta era um grande lago, há cerca de 30 milhões de anos.

Esse longo tempo de evolução adaptativa resultou em características únicas. Uma das mais importantes está na cabeça. O “melão” muito pronunciado indica uma ecolocalização sofisticada, que permite navegar pela floresta inundada e achar os peixes em águas turvas.

Ao contrário dos outros golfinhos, os botos não têm as vértebras do pescoço fusionadas. Com isso, são mais flexíveis, chegando a se dobrar em formato de “U”.

Outra exclusividade é a dentição. Além dos dentes cônicos, comum a todos os golfinhos, há também incisivos na parte de trás da boca, usados para mastigar espécies mais duras de bagres. “É uma espécie muito, muito adaptada para a Amazônia”, afirma Brum.​

O repórter viajou a convite da Sea Shepherd Brasil.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original



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