Pequim realiza Jogos de Inverno após megaoperação de produção de neve – 11/02/2022 – Esporte

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A China não moveu montanhas para sediar os Jogos de Inverno de 2022. Mas inundou um leito seco de rio, desviou água de uma importante represa que abastece Pequim e transferiu centenas de agricultores e suas famílias para novas terras, tudo isso para alimentar uma das maiores operações de produção de neve na história olímpica.

É isso o que acontece quando o COI (Comitê Olímpico Internacional) decide levar as Olimpíadas de Inverno a um lugar no qual um dos principais ingredientes para os esportes de inverno –a neve– está quase permanentemente em falta. Além disso, Pequim e as montanhas vizinhas tampouco tinham tanta água assim, para produzir neve artificial.

A neve artificial vem desempenhando um papel importante nos esportes de inverno há décadas, mesmo em lugares naturalmente mais nevados, como a Noruega, a Suíça e o estado americano do Colorado.

Na versão de Pequim para os Jogos de Inverno, as competições iniciadas no final de semana passado ocorrem pela primeira vez quase completamente em neve artificial, o que tornou necessária uma operação de fabricação de neve e administração de água de escala imensa e permitiu antever a realidade dos esportes de inverno em todo o planeta diante do avanço do aquecimento global.

Nas montanhas onde as competições alpinas acontecem, e onde o esqui recreativo não é praticado, agora há faixas brancas estreitas, visíveis a quilômetros de distância, cortando o terreno marrom.

As autoridades de Pequim insistem em que a produção de neve não causará desgaste no abastecimento local de água, que já vinha enfrentando dificuldade para acompanhar a demanda da cidade.

Mas os investimentos hercúleos da China na fabricação de neve são parte de esforços mais amplos para transformar as montanhas áridas perto de Pequim em um polo permanente de esqui e snowboard, um projeto que pode ter de enfrentar grandes desafios diante das perturbações nos padrões de seca e de precipitações causadas pela mudança do clima.

Em todo o planeta, o segredo (ecologicamente incorreto) das competições de esqui e de snowboard é que, à medida que a neve natural se torna menos confiável, elas acontecem quase sempre em neve artificial. E, já que o planeta deve continuar a se aquecer, neve produzida por máquinas desempenhará papel cada vez maior na garantia de espaços de alta qualidade e superfície consistente para competições.

“Não seria possível ter esportes de inverno hoje sem a neve artificial”, disse Michael Mayr, gerente para a Ásia da TechnoAlpin, a empresa italiana que é encarregada de produzir neve para os Jogos Olímpicos de Pequim e desempenhou o mesmo papel nas seis edições olímpicas de inverno precedentes.

O que separa Pequim de muitos desses locais de competição passados é a oferta restrita de água. Ao longo das últimas décadas, o desenvolvimento rápido reduziu a quantidade de água disponível no lençol freático da região de Pequim.

Julho e agosto muitas vezes trazem chuvas pesadas, mas a cidade e as montanhas próximas recebem precipitação muita baixa no inverno: menos de quatro centímetros em toda a estação, na média das últimas décadas, de acordo com dados de uma estação meteorológica perto do local dos Jogos.

Em 2017, o último ano para o qual há dados internacionais disponíveis, Pequim dispunha de recursos de água potável da ordem de 136 mil litros de água per capita, o equivalente à média do Níger, país oeste-africano que fica à beira do deserto do Saara.

Zhangjiakou, a cidade 160 quilômetros a noroeste da capital chinesa que abriga algumas das competições de esqui e snowboard, conta com 313 mil litros de água por habitante, o equivalente à média do Djibuti, país do leste da África.

Os Estados Unidos, em contraste, têm 8,7 milhões de litros de água por habitante. Países que disponham de menos de 983 mil litros de água potável por habitante são considerados como áreas de escassez de água.

Florian Hajzeri, que está na China há quatro anos a fim de supervisionar o projeto de produção de neve da TechnoAlpin, disse ter percebido a magnitude de sua tarefa assim que viu a paisagem das áreas em que as competições olímpicas seriam realizadas.

“Há árvores e vegetação, mas não é como uma floresta alpina; é a vegetação de um clima mais seco”, ele disse. “Neva na região, mas não o suficiente para competições.”

Antes que a TechnoAlpin pudesse instalar bombas e construir mais de 65 quilômetros de encanamentos, a um custo de quase US$ 60 milhões (R$ 313 milhões, na cotação atual), as autoridades da China tiveram primeiro de conduzir água suficiente às montanhas.

Quanta água? O equivalente a um milhão de metros cúbicos, de acordo com a TechnoAlpin, o suficiente para encher 400 piscinas olímpicas. E isso apenas para começar os Jogos. Mais neve e mais água vão se tornando necessárias ao longo das competições.

Para reunir toda essa água, as autoridades chinesas construíram estações de bombeamento a fim de mover água de reservatórios localizados a quilômetros de distância.

De acordo com um jornal estatal, Pequim desviou água do reservatório de Baihebao, enviando-a ao rio Guishui. O Guishui flui perto da área das competições olímpicas, mas no inverno se torna um leito seco, na maioria dos anos. Antes, o reservatório de Baihebao era usado principalmente para abastecer o reservatório de Miyun, um dos maiores repositórios de água potável para os domicílios de Pequim.

As autoridades de Zhangjiakou desligaram a irrigação de dezenas de milhares de hectares de terras, a fim de preservar o lençol freático, e reacomodaram os agricultores que viviam no que veio a se tornar a área de competição olímpica, transferindo-os a edifícios de apartamentos.

Projetos hídricos imensos não são novidade na China moderna. O maior esforço do país para aliviar os problemas de água de Pequim começou muito antes das Olimpíadas: uma série colossal de canais que transfere trilhões de litros de água do úmido sul do país para o sedento norte. Centenas de milhares de aldeões foram transferidos a fim de abrir caminho para os canais. A água transportada por esse projeto respondeu por um sexto do consumo de Pequim em 2020.

Embora o governo chinês tenha conseguido progresso quanto às questões hídricas nos últimos anos, cientistas e ambientalistas dizem que a capital não pode descansar e curtir a vitória.

“Eles precisam fazer mais para promover a conservação de água, para aumentar a eficiência no uso de água e para garantir a equidade social na alocação de água”, afirmou Ximing Cai, professor de engenharia de recursos hídricos na Universidade do Illinois em Urbana-Champaign. Se a Olimpíada promover um surto de desenvolvimento econômico nas colinas próximas a Pequim, ele disse, “o uso de água associado a isso precisará ser planejado com cautela”.

Mas a mudança do clima pode tanto aprofundar a necessidade de água do norte da China quanto afetar a capacidade do sul da China para provê-la. Cientistas descobriram que as severas ondas de calor e inundações registradas recentemente na China se tornariam cada vez mais prováveis devido à mudança do clima causada pela atividade humana.

“Diante do pano de fundo do aquecimento global, os riscos para os grandes projetos de infraestrutura chineses estão crescendo”, disse em 2015 Zheng Guogang, que era o principal dirigente dos serviços de meteorologia chineses, a um jornal do Partido Comunista, mencionando o projeto de transferência de água do sul para o norte do país e outros.

As autoridades chinesas dizem que estão limitando o impacto da produção de neve, especialmente porque a neve produzida será recolhida depois de utilizada, para reaproveitamento.

Mas cientistas que estudam a produção de neve constataram que uma fração da água é evaporada depois de disparada pelo canhão de água, mas antes de se cristalizar em forma de neve. Alguns dos flocos de neve são carregados pelo vento. Algumas gotas de água não se congelam completamente e evaporam ao cair no chão.

Dois pesquisadores na Suíça, Thomas Grünewald e Fabian Wolfsperger, conduziram experiências em um resort de esqui perto de Davos e constataram que cerca de 35% da água usada na produção de neve era perdida dessa maneira. A água absorvida pelo solo não se perde completamente, é claro, e ajuda a reabastecer o lençol freático.

Ainda assim, disse Wolfsperger, criar um polo de esqui perto de uma cidade que sofre de escassez de água, como Pequim, “com certeza não é bom para o ambiente”. “Mas os esportes de inverno nunca o foram, em termos gerais”, observou.

Outras pesquisas constataram que pistas de esqui artificiais podem erodir o solo e degradar a vegetação, independentemente do tipo de neve que for utilizado.

Para os esquiadores e snowboarders, competir inteiramente sobre neve artificial muda tudo, da maneira como se preparam para as Olimpíadas, a maior competição de suas vidas, à cera que usam nas pranchas e esquis para ganhar velocidade. É alterado também o treinamento que precisam fazer para encarar os riscos mais graves causados por uma superfície lisa. Em um clima mais quente, as superfícies de neve artificial tendem a rachar com mais facilidade do que as feitas de neve natural, dizem atletas.

“Não é a primeira vez que competimos em neve artificial e infelizmente parece que não vai ser a última”, disse Jessie Diggins, medalhista de ouro no esqui cross-country em 2018 que se tornou ativista no combate à mudança do clima, nos últimos anos.

“É uma superfície mais dura, há mais gelo, e a transformação é diferente quando o tempo muda”, ela disse. “E, porque as pistas são mais rápidas, algumas das provas de esqui downhill começam com maior velocidade de largada. Isso torna a pista, não quero dizer mais perigosa, mas mais complicada em termos de como você vai lidar com as curvas.”

Sob certas condições, porém, como as temperaturas muito frias previstas para as competições na China, os esquiadores alpinos às vezes preferem a neve artificial, porque os técnicos são capazes de produzir flocos molhados que ao congelar formam a superfície lisa e dura como pedra que os atletas preferem.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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