Países devem caminhar para uma regulação razoável, diz avô da maconha medicinal – 09/01/2022 – Ciência

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A descoberta dos princípios ativos da maconha e de suas propriedades medicinais fez do químico búlgaro-israelense Raphael Mechoulam o pivô de um novo e promissor campo de pesquisa e também de um mercado que já movimenta cerca de US $10 bilhões ao ano e promete multiplicar seu tamanho nos próximos anos.

Foi ele quem identificou, ainda nos anos 1960, dois dos principais canabinóides da maconha: o THC (tetrahidrocanabinol), o principal psicoativo da maconha, e o CBD (canabidiol), componente mais importante de boa parte dos medicamentos produzidos industrialmente a partir de plantas da família Cannabis. São remédios usados no tratamento e alívio de sintomas de doenças e condições tão diversas quanto Alzheimer, glaucoma, Parkinson, autismo, esclerose múltipla, epilepsia, câncer e depressão.

As pesquisas de Mechoulam também identificaram que o corpo humano tem um grupo de receptores e enzimas que se ligam aos componentes da maconha, chamado de sistema endocanabinoide.

Seus estudos serviram de base para as pesquisas científicas sobre propriedades terapêuticas da cânabis e lhe renderam o título de pai da maconha medicinal. “Estou mais para avô”, brinca o cientista, do alto de seus 91 anos.

“Quando eu comecei, ninguém trabalhava com maconha, exceto um grupo pequeno na Alemanha. Era difícil conseguir a matéria-prima, que era proibida. A cânabis era considerada uma droga maldita”, lembra ele, que conseguiu material para seus primeiros estudos no departamento de polícia de Israel. “A polícia foi surpreendentemente aberta. E sempre desenvolvi minhas pesquisas com liberdade. Tive sorte.”

A comprovação dos benefícios terapêuticos da cânabis e a progressiva legalização de seu uso medicinal, já admitido em mais de 35 países, viraram do avesso a imagem da maconha construída ao longo de décadas de proibição e criminalização. Agora, impulsionam projeções auspiciosas de crescimento para o mercado de maconha medicinal, no qual o Brasil ainda engatinha.

Mesmo assim, em 2021, mais medicamentos à base de maconha foram aprovados pela Anvisa e o projeto de lei 399 de 2015, que regula o cultivo e produção medicinal e industrial de cânabis no Brasil, foi aprovado pela Comissão Especial da Cannabis em junho. O trâmite ocorreu entre debates acalorados e um episódio de agressão física do deputado bolsonarista Diego Garcia (Podemos-PR) contra o presidente da comissão, Paulo Teixeira (PT-SP).

“Fico feliz em saber que o governo brasileiro deve estabelecer um sistema de regulamentação da maconha medicinal”, comentou o cientista israelense. “Estou certo de que isso ajudará muitos pacientes.”

Mechoulam concedeu a entrevista abaixo à Folha durante visita a seu laboratório na Universidade Hebraica em Jerusalém, em Israel, para gravações do especial Estado Alterado, vencedor do prêmio Vladimir Herzog de 2021.

Por que o Sr. decidiu pesquisar a maconha numa época em que ela era tão mal vista? – Meu interesse sempre foi na química de produtos naturais. E milhões usavam a cânabis sem conhecimento detalhado de sua estrutura química e farmacológica ou de seus efeitos fisiológicos e biológicos. Por isso, nos anos 1960, decidi estudar a maconha e obtive matéria-prima com a polícia, que foi surpreendentemente aberta.

O pessoal do instituto onde eu trabalhava em Israel ligou para um oficial da cúpula do departamento de polícia e, dias depois, eu fui até eles e voltei para casa com cinco quilos de haxixe. Nesse ramo da pesquisa científica, é sempre bom ter uma administração pública e um governo não muito restritos.

Como foram as primeiras experiências com os princípios ativos da maconha? – Separamos cerca de uma dúzia de compostos da cânabis. Para entender se tinham efeitos psicoativos, os testamos em ratos. Mas nós não somos ratos. Então tínhamos de descobrir como eles funcionavam nas pessoas, e testamos em nós mesmos.

Um grupo de amigos veio a minha casa —um deles, aliás, era membro do Parlamento. E minha esposa, que cozinha muito bem, fez bolos nos quais colocou 10 miligramas compostos. Descobrimos que o THC era psicoativo em humanos e descobrimos também que 10 mg era uma quantidade ligeiramente alta para quem nunca tinha usado drogas [risos].

Como a pesquisa evoluiu depois disso? – Nós elucidamos a estrutura dos compostos, como THC e CBD. Então tentamos descobrir o que esses compostos fazem no metabolismo, no corpo. E isso deu muito trabalho. Nessas pesquisas, trabalhei com muitos colegas em Israel e também com colegas brasileiros, como Elisardo Carlini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que testou o CBD em ratos para casos de epilepsia e descobriu que o canabidiol é muito efetivo.

Depois, experimentamos o canabidiol em pessoas que tinham epilepsia, com resultados importantes. Publicamos o estudo que falava da melhora dos pacientes em 1980 e sugerimos que o achado deveria ser transformado em medicamento. Só que desenvolver uma nova droga é um projeto que demanda milhões de dólares e uma grande organização. Acadêmicos não têm como bancar isso. Imaginávamos que alguma indústria farmacêutica fosse pegar o projeto. Mas sinto informar que absolutamente nada aconteceu por longos 35 anos.

Como isso mudou? – Alguns pais de crianças que tinham epilepsia souberam desse estudo começaram a dar cânabis com bastante canabidiol para suas crianças. Por causa da pressão pública, a indústria se interessou, e o governo americano aprovou um grande estudo clínico com o CBD.

O estudo obteve os mesmos resultados que nós obtivemos 35 anos antes! Agora, o CBD é um medicamento aprovado para uso legal no tratamento de certos tipos de epilepsia pediátrica. A questão é que isso poderia ter sido feito 35 anos antes e isso teria ajudado muitas crianças. Nada aconteceu porque os administradores responsáveis pela saúde não tinham uma mente aberta. Uma pena.

Há outros achados subaproveitados? – Sim. Eu e Carlini demos CDB puro para uma garota que tinha esquizofrenia e ela foi beneficiada. Anos depois, um grupo alemão fez uma ótima investigação em 40 ou 50 pacientes, e a maioria foi beneficiada. A esquizofrenia atinge 1% da população mundial e é uma doença muito grave. Nós podíamos ter ajudado essas pessoas. E ainda podemos. Mas isso requer mais estudos clínicos de modo a se descobrir a melhor maneira de administrar CBD para pacientes com esquizofrenia.

O mesmo ocorre com a diabetes tipo 1, que é uma doença séria e acomete muitas crianças. Descobrimos que o CDB protege o corpo de ratos contra a diabetes tipo 1. E publicamos o estudo há mais de dez anos. Até agora esperamos pelo interesse da indústria para que façamos ensaios clínicos com seres humanos.

Por que ainda há resistência em relação à cânabis na ciência e na saúde? – No começo, a maconha era uma droga maldita, e ninguém a estudava. Existe uma lei internacionalmente aceita que proíbe as pessoas de fazerem uso de drogas. É ilegal usar cânabis. E o fato de a maconha estar colocada ao lado de outras drogas, como opioides, heroína e cocaína, deixa tudo mais difícil para cientistas e companhias farmacêuticas. Ainda assim, cada vez ela está se tornando uma droga como as outras.

São relativamente poucos os países que regularam o uso medicinal da maconha e sua produção – Para muita gente, até recentemente, maconha e heroína eram quase a mesma coisa. E as percepções, assim como as leis, são muito difíceis de mudar. Onde a cânabis é ilegal, as pessoas que a usam podem ser presas. Isso não mudou mesmo nos Estados Unidos, onde o canabidiol foi aprovado oficialmente como uma droga para a epilepsia e, mesmo assim, está no topo da lista das drogas proibidas, junto com a heroína.

Temos que ter um jeito mais racional de lidar com essa questão. O canabidiol deve sair da lista de drogas proibidas. O THC poderia permanecer, exceto em casos de usos aprovados, como no combate aos efeitos colaterais da quimioterapia.

Como vê esse paradoxo? – Não faz sentido. Nos EUA [onde cada estado tem sua própria lei sobre o tema], o canabidiol tem gerado bilhões de dólares ao mesmo tempo em que o governo federal diz que tem coisa errada ali. Isso evidentemente tem de mudar. Não dá para a maconha ser usada como medicamento num estado e levar a pessoa à prisão no outro, logo ao lado. É ridículo.

Como avalia a regulamentação da maconha para uso recreativo? – Não sei ao certo se concordo com as condições do momento. Estou envolvido com a maconha a partir da química, que remete à questão médica. Sobre o uso recreativo, se as pessoas gostam de se divertir com maconha, não serei eu a dizer não.

Mas, por outro lado, sei de muitos casos de pessoas que abusaram da maconha na primeira vez, especialmente jovens, e acabaram a noite com uma emergência psiquiátrica –e é por isso que muitos psiquiatras são contra flexibilizações. Talvez fosse preciso achar um caminho do meio, uma boa regulamentação, mas não sei como isso poderia ser feito.

No caso do Canadá, que legalizou o uso recreativo, a lógica foi: temos 2 milhões de pessoas usando cânabis mais ou menos uma vez por semana. Mesmo se quiséssemos, não conseguiríamos colocar 2 milhões de pessoas na cadeia. E, mesmo legalizando, eles criaram regras. Crianças e adolescentes não podem usar, por exemplo.

O Sr. já fez uso recreativo ou medicinal de maconha? – Nunca usei drogas ilegais, exceto naquele primeiro experimento entre amigos. Eu gosto é de um pouco de vinho. E nunca precisei de medicamentos à base de maconha. Se precisar, usarei. Sabemos, por exemplo, que CBD tem efeito contra o câncer. Não cura, mas age positivamente. Assim, se eu tiver câncer, vou usar canabidiol.​

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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