Os sapos do tamanho de uma moeda que Brasil pode perder antes mesmo de conhecer – 06/10/2021 – Ambiente

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O sapinho-da-restinga é menor do que uma moeda e, até onde se sabe, só existe dentro de um parque estadual da cidade de Guarapari, no litoral do Espírito Santo. O minúsculo anfíbio, de menos de 2 cm, foi descoberto em 2006 pelo biólogo Pedro Peloso e descrito em artigo científico seis anos depois.

Ainda assim, pouco se conhece até agora sobre o Melanophryniscus setiba (seu nome científico), para além do fato de sua condição ser extremamente frágil.

Desde 2014, o sapinho-da-restinga figura na lista de espécies de anfíbios ameaçadas de extinção, na categoria de criticamente sob perigo.

“Ele só é conhecido em uma localidade, cercada de desenvolvimento urbano. Qualquer distúrbio no ambiente, como um fogo fora de controle, pode levá-lo à extinção”, explica Peloso à BBC News Brasil.

A perda de habitats, o desmatamento, as queimadas e o aquecimento global são ameaças, direta ou indiretamente, a muitas formas de vida do planeta. Mas anfíbios anuros, como o sapinho-da-restinga e demais sapos, rãs e pererecas, são particularmente sensíveis a pequenas mudanças de temperatura, a parasitas ou alterações nos locais onde vivem.

Por isso, e por ocuparem um papel importante no ecossistema, sua preservação tem despertado a preocupação de ambientalistas.

Às vezes, esses anuros desaparecem de seus habitats e os biólogos sequer conseguem entender o porquê, diz Pedro Peloso, que é professor de zoologia da pós-graduação da Universidade Federal do Pará e idealizador do projeto DoTS, que registra espécies de anfíbios ameaçadas no Brasil.

Em abril deste ano, um estudo de pesquisadores brasileiros publicado no periódico científico Biological Conservation detectou um “contínuo e críptico” declínio de populações de anuros no Sudeste do Brasil, provavelmente em decorrência das mudanças climáticas.

Em 2018, outro estudo apontou que até 10% das espécies endêmicas de sapos, rãs e pererecas da Mata Atlântica podem ser extintas ao longo de 50 anos, à medida que as temperaturas locais e globais aumentam.


O declínio de populações de anfíbios tem ocorrido em todo o mundo, muitas vezes de modo intrigante para pesquisadores.

Mas o Brasil é um dos países que mais têm a perder em termos absolutos, por concentrar uma variedade tão grande de espécies, explica à BBC News Brasil Felipe Andrade, biólogo e doutor em biologia animal pela Unicamp, que se especializou em micro-sapinhos.

Algumas espécies podem ser perdidas antes mesmo de serem estudadas ou sequer descobertas, diz Andrade.

“Se ainda não conhecemos e descrevemos toda a biodiversidade brasileira desse grupo animal, será que conseguimos estimar de fato tudo que estamos perdendo?”, questiona.

Segundo um amplo mapeamento de anfíbios feito em 2019, a América do Sul abrigava mais de 2,6 mil espécies de anuros, e as maiores concentrações dessa biodiversidade eram a Amazônia Ocidental e a Mata Atlântica do Sudeste brasileiro.

Mas o que torna esses animais tão vulneráveis?

Incógnitas

“Os anfíbios anuros são um dos grupos animais mais vulneráveis ao aquecimento global, por conta, sobretudo, de suas peles finas e permeáveis, bem como sua dependência da água para reprodução”, prossegue Andrade.

“Qualquer diminuição nas chuvas tem implicação aos anfíbios, que precisam de áreas úmidas”, agrega Peloso.

No entanto, ainda há muitas lacunas sobre o que a ciência sabe a respeito dos perigos que ameaçam esses animais e quais deles estão sob maior risco.

“O difícil é saber quais (anfíbios), quando e onde estarão sob risco de extinção”, explica à reportagem o biólogo Agustín Camacho, que desenvolve algoritmos e sistemas dedicados justamente a tentar prever o comportamento de ecossistemas complexos.

De um lado, diz ele, os anfíbios têm algumas vantagens interessantes que podem ajudá-los a sobreviver: como são pequenos e rasteiros, são capazes de buscar refúgio com alguma facilidade.

“E o fato de eles respirarem pela pele ainda gera debate entre cientistas quanto a se traz vulnerabilidade ou uma certa resiliência, porque eles conseguem reduzir suas temperaturas corporais em relação ao ambiente”, agrega Camacho.

Uma dissertação de mestrado orientada por Camacho no Instituto de Biociências da USP, de autoria de Caroline Guevara Molina, sinaliza que a tolerância térmica pode ser determinante para definir quais anuros conseguirão sobreviver em um mundo mais quente.

O estudo coloca em xeque a antiga sabedoria popular de que uma rã, ao ser colocada em uma panela de água fervida lentamente, vai se adaptar à nova temperatura e será cozida sem perceber.

Na verdade, a rã estudada em laboratório fez exatamente o contrário: ela foi ficando cada vez mais intolerante ao calor do recipiente onde estava.

“Essa tolerância vinha sendo estudada como uma caraterística fixa dos animais (anuros), mas na verdade ela pode variar”, diz Camacho.

Isso, prossegue ele, acrescenta uma camada adicional de complexidade na tentativa de se mapear as populações mais vulneráveis.

“Você pode dizer: ‘um animal nunca vai viver isso (de estar em um ambiente em aquecimento lento e constante) na vida real’. Talvez não vivencie o tempo todo durante sua existência, mas pode vivenciar em alguns períodos determinados.”

E a questão será saber quais delas sobreviverão a esses aumentos contínuos de calor.

O fungo ‘apocalíptico’ e a água mais escassa

Para além disso, existe um inimigo dos anuros que já é fartamente documentado: o fungo Bd, ou Batrachochytrium Dendrobatidis, “um dos principais responsáveis pela redução da abundância e riqueza de anfíbios dos biomas brasileiros”, explica Felipe Andrade.

Essa ameaça do Bd é mundial: em 2019, uma reportagem da revista National Geographic culpou o fungo pelo “apocalipse” sofrido por sapos e salamandras ao redor do mundo, uma vez que o patógeno, atraído pela proteína da pele dos anfíbios, “comê-la viva”.

A reportagem cita um estudo publicado na revista Science que atribuía ao Bd o declínio de ao menos 501 espécies de anfíbios no planeta — ou uma em cada 16 espécies conhecidas da ciência até então.

E a associação desse fungo com as mudanças climáticas e com o aumento da temperatura das águas também é objeto de estudo. “O Bd está presente no mundo inteiro, mas uma alteração do clima pode fazer com que ele se manifeste mais em alguma área onde talvez já estivesse sob controle”, explica Peloso.

Segundo Peloso, no Brasil, a principal ameaça a sapos, rãs e salamandras ainda recai sobre o desmatamento, que destrói habitats e deixa as áreas de floresta cada vez mais fragmentadas e, por consequência, também mais secas.

Nesse contexto, é bom lembrar que o Brasil está com cada vez menos áreas úmidas: levantamento recente da organização MapBiomas mostra que o país perdeu 15% de sua superfície de água desde o início dos anos 1990.

E, novamente, mesmo pequenas alterações já colocam muitas espécies em perigo.

Peloso cita o exemplo dos sapos pingo-de-ouro, que habitam as partes mais montanhosas da Mata Atlântica e gostam de chuva fina e neblina. “São bichos restritos a um ambiente bem específico e a condições climáticas bem específicas”, aponta o biólogo.

Outro exemplo é o da salamandra-do-Pará. “É um animal bastante único, que tem sido afetado pelo desmatamento em Belém (PA) e seu entorno. E mudanças no regime das chuvas podem afetar muito essa espécie.”

Ao mesmo tempo, novas espécies são frequentemente descobertas com base em minúcias invisíveis ao olho nu, explica Felipe Andrade:

“A olho nu elas até parecem iguais, mas quando vamos analisar seu DNA, seu canto ou seu comportamento, encontramos diferenças muito grandes e vemos que se trata de uma espécie nova. Exige um trabalho de formiguinha dos cientistas”.

Alguns sobreviveram, ao menos temporariamente, a ameaças iminentes. Na Serra Gaúcha, a preservação do sapinho-admirável-de-barriga-vermelha, anuro de até 4cm que ocupa uma área de apenas 700m à beira do rio Forqueta, levou ao cancelamento de uma licença ambiental para a construção de uma usina hidrelétrica ali.

Classificado como criticamente em perigo – além da possibilidade de construção da barragem, ele é ameaçado pela poluição de agrotóxicos no rio e pela perda de habitat, informa o projeto DoTS -, o sapinho virou símbolo ao ser destacado na capa do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, publicado em 2018 pelo ICMBio, órgão do Ministério do Meio Ambiente.

Por que os sapinhos importam

Nem todo mundo tem apreço por sapos, rãs e pererecas, mas eles são importantes para o ecossistema.

“São predadores de mosquitos e demais insetos, e sua pele tem compostos químicos que podem ser a base de princípios farmacológicos – mas isso requer estudos e financiamento”, explica Andrade. “Além disso, eles são bioindicadores da saúde de um bioma: quando os anfíbios somem de um determinado lugar, é um sinal de que algo está acontecendo naquele ecossistema.”

Por fim, a ameaça que recai sobre eles serve de advertência e permite estudos que ajudem a prever como o aquecimento do planeta vai acabar afetando outros animais – inclusive nós, humanos, conclui Andrade.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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