Os 20 anos do filme ‘Os Excêntricos Tenembaums’ e sua Nova York inventada – 21/12/2021 – Cinema e Séries

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The New York Times

O drama cômico “Os Excêntricos Tenembaums”, de Wes Anderson, lançado 20 anos atrás este mês, conta a história de uma família de crianças geniais, das decepções e neuroses que definem suas vidas como adultos, e do pai distante cuja doença (fingida) volta a reuni-los sob o mesmo teto na parte norte de Manhattan.

É o único filme de Anderson até hoje rodado integralmente em Nova York e nos arredores da cidade, e sua única inscrição no cânone cinematográfico nova-iorquino, que tanto o influenciou na juventude do cineasta, vivida no sudoeste dos Estados Unidos.

“Quando eu era moço, queria morar em Nova York”, disse Anderson, nascido em Houston, ao The New York Daily News, em 2012. “Tantos dos livros, filmes e peças que amo se passam em Nova York. Foi algo que me deu uma ideia da cidade antes que eu pudesse me mudar para cá”.

Mas essa formulação –”uma ideia da cidade”– é reveladora. Anderson não estava buscando a autenticidade e a verossimilhança de um nova-iorquino nato (um Spike Lee ou Martin Scorsese, por exemplo); na verdade, embora “Os Excêntricos Tenembaums” tenha sido filmado em locação, os locais do filme são irreconhecíveis, e os nomes e endereços mencionados parecem desconhecidos para os nova-iorquinos.

A maior parte da ação transcorre na ampla e desordenada casa dos Tenembaum na “Archer Avenue”, embora Margot, uma das filhas, tenha “um apartamentozinho privado em Mockingbird Heights”, e o patriarca Royal Tenembaum tenha vivido pelas últimas décadas no “Lindbergh Palace Hotel”; outros personagens tomam o “Green Line Bus”, ou o “trem expresso da 22ª avenida”; os diálogos do filme mencionam lugares e instituições como o “City Public Archives”, “Maddox Hill Cemetery”, “Little Tokyo”, “Kobe General Hospital”, “Valenzuela Bridge” e, em um verdadeiro feito de extensão longitudinal, a “ACM da rua 357”.

O resultado é uma Nova York que mistura fato e ficção, uma visão fantástica da cidade que é menos reflexiva das realidades da vida urbana do que das emoções fantasiosas quanto a elas que são parte da sensibilidade de Anderson.

Muitos observadores apontaram para as semelhanças entre os Tenembaum e a família Glass dos contos de J.D. Salinger –boa parte dos quais inicialmente publicados pela revista New Yorker, uma publicação cujas capas sarcásticas e detalhadas parecem exercer influência considerável sobre o estilo visual idiossincrático do diretor. (O filme mais recente dele, “A Crônica Francesa”, leva essa influência um passo adiante, e se desenrola como se fosse uma edição de uma revista ao estilo da The New Yorker.)

Outras influências literárias da cidade também são frequentes em seu trabalho, entre as quais as personalidades extravagantes dos perfis de A.J. Liebling, as dinâmicas familiares sufocantes dos contos de John Cheever e a vida de hotel da série “Eloise” de livros de Kay Thompson.

De certa forma, “Os Excêntricos Tenembaums” é o inverso de muitos filmes sobre Nova York realizados nas décadas de 1930 e 1940 –quando cenas filmadas em locação eram raras e produções realizadas em Nova York eram tão incomuns que roteiristas e diretores nova-iorquinos exilados recriaram uma versão idealizada e fantasiosa de sua cidade nos estúdios do lado oposto do país,

Anderson não era turista ao filmar “Os Excêntricos Tenembaums”. Depois de uma migração complicada do Texas para Los Angeles, ele se mudou para Manhattan em 1991 e se enquadrou muito melhor à sua nova cidade. (Atualmente, o cineasta mora em Paris.)

Mas ele mantinha sua ideia exagerada sobre a cidade, nascida de seus anos de formação como leitor da coluna “Talk of the Town” e apreciador dos gracejos dos escritores que frequentavam o hotel Algonquim.

“É um universo alternativo”, escreve o crítico Mark Asch em seu livro “New York Movies”, explicando que se trata de um espaço “familiar mas inatingível, como todos os livros esgarçados escritos pelos Tenembaum e as revistas empoeiradas que os mostram em suas capas”.

O senso de geografia vaga do filme se estende às linhas do tempo históricas. Não existem referências contemporâneas importantes, e os figurinos e carros não pertencem a qualquer era específica.

O hotel em que Royal inicialmente vive e depois se torna seu lugar de trabalho parece transplantado da década de 1940 (o que inclui múltiplos ascensoristas), e os bairros da cidade parecem mais perto da década de 1970 do que da década de 2000 –meio sujinhos, repletos de pichações, percorridos por táxis clandestinos enferrujados e camundongos puro-sangue.

“Queríamos criar uma cidade de ‘Lugarnenhum’, Nova York, uma cidade de Nova York que não fosse Nova York”, disse o designer de produção David Wasco ao jornal Newsday. Ele acrescentou que embora o filme seja visto como carta de amor a Nova York, “isso não foi intencional. Tivemos o trabalho de redesenhar as placas dos carros e das ruas, que são variações de velhas placas de rua amarelas com a parte central mais espessa. Ele era realmente específico sobre esse tipo de coisa”.

A casa dos Tenembaum na avenida Archer parece um pouco fantasmagórica, também. Anderson passou meses em busca da locação ideal. “Precisava ser uma casa de Nova York sem nada de estereotípico, e com um senso forte de história familiar”, ele disse ao The New York Observer.

Obviamente, encontrar uma casa grande, desordenada e de múltiplos andares como a que ele queria na ilha de Manhattan era pedir demais, mas ela foi encontrada, em Hamilton Heights, especificamente na esquina entre a rua 144 e a Convent Avenue.

Anderson se apaixonou tanto pela casa que reescreveu o roteiro para acomodá-la melhor, embora contatar o proprietário para obter permissão de filmagem tenha sido complicado, inicialmente. A façanha foi enfim realizada deixando um bilhete na porta. Os proprietários não tinham respondido antes porque a casa tinha acabado de ser comprada e eles estavam planejando uma vasta reforma.

Quando Anderson e a produtora chegaram a um acordo para alugar a casa por seis meses para preparativos e filmagem –o que exigiu que eles realizassem boa parte dos reparos estruturais necessários—, isso bastou para cobrir o preço de compra da casa por seus novos donos.

Mas apesar de todo o esforço de Anderson para colocar o filme em uma Nova York livre de marcos modernos, um toque de reconhecimento surgiu de maneira inesperada, mas inevitável. Chas (Ben Stiller), um dos filhos dos Tenenbaum, está no meio de uma crise nervosa causada pela morte de sua mulher em uma queda de avião.

Ele vive em estado de medo e paranoia, especialmente sobre a segurança de seus filhos. “O ano foi duro, pai”, ele diz a Royal Tenembaum perto do final do filme, logo depois de um momento de risco especialmente assustador.

Para as audiências do Festival de Cinema de Nova York, no qual o filme estreou em outubro de 2001, o estado de espírito de Chas parecia inegável e perturbadoramente atual [por conta do atentado do 11 de setembro daquele ano].

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci



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