Óleo de buriti é bom para a pele e para conservar o que resta de cerrado – 18/12/2021 – Ambiente

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Quem usa cosméticos à base de buriti para dar um trato na pele não sabe quanto trabalho e quanta gente há por trás do óleo vegetal. Nem precisa, desde que siga pagando caro e contribuindo para salvar o cerrado da destruição completa.

Há um longo caminho e muitas mãos entre as veredas pontilhadas com a palmeira Mauritia flexuosa e prateleiras de perfumarias. No norte de Minas Gerais, centenas de famílias de agricultores melhoram de vida extraindo os frutos brilhantes e escamados que rendem um óleo rico em carotenoides.

Só a Cooperativa Grande Sertão, de Montes Claros, chega a processar mais de mil toneladas de coquinhos de buriti para obter 20 toneladas de óleo num ano bom. Seu maior comprador é a Natura, que absorve 80% da produção.

A cooperativa recebe entre R$ 70 e R$ 80 por quilo de óleo, dos quais 30% (até R$ 24/kg) retornam para extrativistas, pagos impostos e custos como frete. Além de cosméticos, o óleo tem uso na indústria química e de alimentos.

“Se a gente tivesse descoberto a Grande Sertão antes, nossos filhos não iam tudo embora”, diz Santa Hélia Lopes da Silva. Ela e o marido, Anísio Pereira da Silva, o Nisão, foram os campeões de coleta e beneficiamento de buriti na última grande safra, de 2016.

A família da comunidade de Paracatu entregou à cooperativa mais de 800 kg de raspas, como se diz da polpa seca extraída a muito custo do coquinho. A R$ 13,00 para não associados e R$ 13,50 para cooperados, uma família com essa produtividade pode reforçar a renda com mais de R$ 10 mil num ano bom.

Ocorre que buritis só produzem grande quantidade de frutos em intervalos de quatro anos. No triênio de entressafra, a coleta cai muito, pois a alimentação da fauna —periquitos, araras, macacos— e dos próprios agricultores tem precedência.

Ninguém reclama. “Daqui pra lá, eu fiz tudo com dinheiro do buriti”, diz Valdenice Rodrigues da Silva, apontando quarto e cozinha de alvenaria que agregou à casinha verde onde vive com marido e filha, após a coleta farta de 2016.

“Meu próximo objetivo é o telhado”, planeja. Vai substituir telhas de amianto por outras de cerâmica.

Valdeci é vizinha do irmão, Carlito, e da cunhada, Solange Nunes Barbosa, que chegam a tirar R$ 500 por semana com buriti. “Dá trabalho, mas a gente agradece”, afirma a mulher, reclamando só da dor nas costas após horas descascando os frutos.

Em 12 horas de labuta, ela consegue tirar a polpa de 100 kg de buriti, uns 2.000 coquinhos. Ao final, terá cerca de 5 kg de raspas secas, reforço de R$ 65 para o orçamento familiar.

Primeiro é preciso deixar o buriti de molho para as escamas marrons avermelhadas amolecerem. Após secagem ao sol, a casca é separada do miolo amarelo vivo com os dedos e uma faca.

Em seguida, há que separar a polpa do caroço, com faca ou colher, e pôr no sol para obter a polpa seca, mais leve e fácil de transportar, entregue à Grande Sertão. A matéria-prima agora contém maior teor de óleo, da ordem de 50%, contra meros 2% do fruto inteiro.

Embora conte com menos de 300 associados, a cooperativa recolhe a produção de 600 famílias. A safra de 2020, que deveria ser das boas, decepcionou, e ainda houve a retração geral da pandemia. A próxima safra deve começar só em março de 2024.

Era comum a população local cortar as palmeiras que não davam frutos, ou seja, machos. Mas o buriti é uma planta dioica, que precisa de indivíduos dos dois gêneros para ocorrer a polinização. Com a renda extra oferecida pelo fruto, ninguém mais derruba a árvore nem deixa o gado se alimentar dos coquinhos —só araras e papagaios.

O cerrado onde vicejam os buritis é uma área sensível de biodiversidade (“hotspot”, no jargão conservacionista). Reúne grande variedade de espécies, muitas endêmicas, à destruição acelerada. Já pereceu metade da savana nacional, que cobria 2 milhões de km2, contra 20% perdidos de floresta amazônica no Brasil, que tem o dobro do tamanho.

O bioma abriga tanto campos abertos quanto matas fechadas. Adaptou-se para resistir a estações secas definidas e a raros incêndios naturais, iniciados por raios. Tem papel importante na alimentação de bacias do Centro-Oeste e do Sudeste, mas sofre pressão adicional de queimadas criminosas.

Famosas são as veredas imortalizadas na obra de João Guimarães Rosa. Essas faixas úmidas, com subsolo mais impermeável, compõem o ambiente preferido dos buritis —onde há buritis, há água, sabem os sertanejos.

Veredas são paisagem presente na maioria das propriedades rurais, que se sucedem ao longo delas. Com a mudança do clima e a expansão do agronegócio (soja e eucalipto, principalmente), esse recurso natural se encontra sob estresse.

Nisão conta que, ao comprar 14 alqueires (cerca de 67 hectares), a área úmida estava a poucas dezenas de metros da casa. Agora tem de andar muito mais para chegar à vereda, que continua secando. Com efeito, dá para caminhar por ela, entre dezenas de buritis, sem topar com lama e charcos, como acontece em outras.

Várias palmeiras receberam números pintados pela equipe de Ernane Ronie Martins, da Universidade Federal de Minas Gerais, como parte de um estudo sobre o comportamento das plantas (fenologia).

Martins integrou o projeto São Francisco, que, além da fenologia, visava estimar os custos da produção da raspa do buriti para fixação de preços socialmente justos. O estudo nasceu de parceria da Natura com a Grande Sertão.

Nisão atribui o sumiço da água à aproximação do cultivo de eucaliptos para a produção de madeira e carvão vegetal, plantações que já chegaram a 1,5 km de seu sítio. “O povo diz que foi o desmate da chapada”, afirma o extrativista. “Antigamente, a chuva era mais, chovia o dobro.”

Além da silvicultura, o norte de Minas recebe muitas lavouras de soja, como se vê na região próxima à cidade denominada, não por acaso, de Chapada Gaúcha. A imensidão plana se cobre de monoculturas manejadas com máquinas de última geração, até a borda em que o relevo da mesa se precipita em grotas.

Santa Hélia e Nisão não se limitam a coletar coquinhos de buriti, também colhem o fruto mais famoso do cerrado. “Outra coisa que não tinha valor era o pequi“, diz a mulher. Vendem a fruta inteira a R$ 30 a caixa e conseguem tirar até R$ 100 por dia, mesmo quando o preço baixa para R$ 15.

Frutas do cerrado, como cagaita e coquinho azedo, são o carro-chefe da Grande Sertão, cooperativa criada em 2003 com o objetivo de organizar a produção de polpa para venda a programas de alimentação escolar. A organização se instalou junto ao Centro de Agricultura Alternativa, em Montes Claros, onde já funcionava uma pequena fábrica (35 m2) para despolpamento.

Hoje a fábrica tem 400 m2, oito funcionários e processamento que pode chegar a 150 toneladas de frutas num ano, ou de 70 a 80 toneladas de polpa. Além de cagaita e coquinho azedo, processa araçá, maracujá nativo, mangaba, jabuticaba, manga, tamarindo, cajá, goiaba, abacaxi, umbu, acerola e seriguela provenientes de três dezenas de municípios do norte de Minas.

​Wanderlandia da Silva Rodrigues, 52, gerente da fábrica de polpa, trabalha ali há 18 anos e hoje tem salário de R$ 1.400. Nem por isso abandonou a roça de milho, feijão, arroz, mandioca, cebola e alho. Deixa o serviço às 16h e pega na lavoura às vezes até escurecer.

Também colhe frutas para vender à Grande Sertão. Na última sexta-feira de novembro (26), das 17h30 às 20h, ela e o marido juntaram 257 kg de mangas, que lhe renderiam R$ 154.

“A vida melhorou muito com a cooperativa, mudou todinha”, conta. “Comprei móvel que sonhava, tanquinho, moto.”

O acerto de contas das frutas é feito uma vez por ano, em julho ou agosto. A gerente já obteve R$ 2.500 extras num ano bom, com entregas de manga, acerola, jabuticaba, coquinho azedo e cajá.

“Antes desperdiçava as frutas. Perdia quase tudo, não dava conta de comer.”

Wanderlandia chama o repórter para ver a moto, uma Honda Bros. Antes chegava ao trabalho de bicicleta, o que a obrigava a levantar às 4h. Ganhou uma hora de sono por dia, pois agora levanta às 5h para fazer café e sair às 6h para a fábrica.

Os jornalistas Lalo de Almeida e Marcelo Leite viajaram a convite do IEB (Instituto Internacional de Educação do Brasil ) e do CEPF (Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos).

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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