O vagabundo vai ao bar na praia – 31/12/2021 – Cozinha Bruta

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O vagabundo se arrasta para o bar onde bebe cachaça todo dia, na praia em que nasceu e de onde nunca saiu. A ressaca e o mormaço estão fortes.

Ele vê um bololô de pessoas bloqueando a passagem para o boteco. Tenta abrir caminho na aglomeração.

“Alto lá, vagabundo!”, grita um sujeito careca, de óculos escuros e com um fone engraçado no ouvido. “Daqui não pode passar.”

O vagabundo fica intrigado. “Será que esse cara me conhece?”

Afasta-se até encontrar uma brecha e ver a fachada do boteco. Todas as cadeiras de plástico estão empilhadas, menos uma. Nela está sentado um barrigudinho de meia-idade, descalço, trajando bermuda, camiseta de time e colete salva-vidas.

“Quem é o cidadão ali?”, pergunta o vagabundo para o vendedor de milho cozido.

“Você não sabe, vagabundo?”, devolve o homem do milho com sorriso de espiga meio debulhada. “É ele. O presidente. O Minto.”

“Ah, vá”, retruca o vagabundo. “E por que o Minto está de colete? Só se for para não se afogar na caninha, rarrarrá!”

O vagabundo sai para procurar outro bar. Mas a presença do Minto ali, na sua praia, no seu boteco, continua a lhe encafifar a cabeça. “O homem está descalço, por misericórdia!” Vagabundo sabe as manhas da botecagem.

“Você bebe cerveja. Aí precisa tirar água do joelho. Eu posso ser vagabundo, mas não ponho os pés descalços em banheiro de boteco.”

Aí o celular do vagabundo faz plim. Chegou zap do primo de Minas.

“Não é o boteco da sua praia?”, diz a mensagem. O primo encaminhou o post do deputado Célio Gomes, com a foto do Minto no bar e o seguinte texto:

“Você já pensou ver um ‘presidente’ descalço, sentado numa cadeira de plástico num humilde bar e SEM ESTAR BÊBADO?”.

O vagabundo manda um joinha para o primo e segue vagando. A cabeça em parafuso.

“O que esse cara foi fazer no boteco, se não bebe?”

Não bebe e não deixa o vagabundo beber em paz no boteco da sua praia. A raiva cresce dentro do vagabundo. “O cabra não presta nem para tomar uma carraspana.”

O vagabundo adora as redes sociais– e sabe que o Minto não está lá por falta do que fazer. “A Bahia, bicho. As pessoas embaixo d’água. E o cara no boteco só para empatar minha vida.”

Ele chega ao bar do português. Encosta o cotovelo no balcão.

Vagabundo, meu caro. Quanto tempo! O que queres hoje?”

“Dá uma branquinha, português!” Enquanto espera, vai checar de novo o telefone. O Minto está entre os assuntos do momento no Twinder, para variar.

“Ah, não. Não é possível!” O vagabundo fica furioso, transtornado, consternado. Vira o copo. “Português, mais uma!”

“O que houve, amigo vagabundo?”

“Tá bombando na internet uma hashtag #MintoVagabundo. Pô. Muita pisada na bola. Eu sou um cara decente. Não mereço isso.”

O português se entristece. Põe a garrafa sobre o balcão e a mão no ombro do vagabundo.

“Ninguém merece. Toma. Hoje é por minha conta.”

Um brinde aos trabalhadores e vagabundos que não merecem passar pelo que estamos passando. Um bom 2022 e feliz 2023!

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