O que significa sair de casa – 11/05/2022 – Zeca Camargo

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Lembra quando entrar num debate significava contra-argumentar uma ideia para chegar num novo patamar, e não apenas subir o tom num chilique para poder chamar finalmente a outra parte de imbecil? Ou pedófilo?

Resolvi ressuscitar esses bons tempos, aqueles das discussões interessantes, provocado saudavelmente pelo brilhante escritor Julián Fuks. Na sua mais recente coluna de Ecoa, do UOL, escreve: “Nem percorrendo o mundo inteiro, você conseguirá sair de casa”. Já me senti provocado!

Há quase dez anos discutimos neste mesmo espaço o que significa viajar. Eu mesmo não tenho certeza se chegamos a alguma conclusão sólida, mas acho que podemos concordar que o que buscamos como turista é sempre uma experiência que não temos em casa.

O novo, o diferente, a aventura do desconhecido —tudo isso é, para mim, o combustível de qualquer viagem. Contudo, de maneira perspicaz, Fuks, revisitando recentemente Montreal, percebe, não pela primeira vez: “São cada vez mais parecidas as ruas do mundo”.

Ainda, pelos avanços da tecnologia, o autor lamenta a preocupação “de estarmos todos próximos demais, de já não sabermos nos distanciar, de não nos tornarmos inacessíveis aos apelos excessivos e constantes”.

São argumentos razoáveis e que, confesso, já cruzaram minha mente também. O primeiro deles, o de que as cidades estão muito parecidas, parece uma sensação contemporânea, mas é fruto de um longo processo civilizatório.

O mesmo que faz de Hoi An, no Vietnã, uma sucursal da China imperialista. Ou de Éfeso, hoje na Turquia, uma sombra das gloriosas conquistas de Roma antiga. Que conecta a Andaluzia ao Oriente Médio. Ah! E também o que nos faz sentir tão em casa quando vamos de Salvador a Lisboa —ou mesmo a Goa, na Índia.

Conquistar, por motivos imperialistas ou capitalistas, significa marcar território… mas também ceder algum espaço para a cultura local. Pelo menos as assimilações mais bem-sucedidas. E eu gosto disso.

Mas aí tem a questão do isolamento, também levantada por Fuks, e minha defesa então é dizer que isso só depende de uma decisão muito pessoal. É de cada um de nós a escolha de se desconectar.

Sim, já tive “blackouts” e comunicação em Papua Nova Guiné, na Namíbia, no deserto de Gobi (Mongólia) ou mesmo no meio do nada na Patagônia. Mas já experimentou desligar o celular por 24 horas em Paris, Nova York, Tóquio?

Que prazer que é se reconectar no dia seguinte e ver que, das 376 mensagens de WhatsApp (e outros tantos e-mails e directs), apenas três ou quatro valem realmente a pena ser respondidos!

Fuks, escritor de alma nômade, sabe disso. O que não o impede de nos cutucar com suas colocações sobre a visita a Montreal: uma cidade fascinante, a que não vou há algum tempo, e que oferece, veja só, nas próprias ruas cosmopolitas, uma salvação para tais inquietações.

“Sinto que algo em mim sossega”, escreve Fuks no seu último parágrafo. “Todas as ruas do mundo talvez venham a se parecer um dia. As pessoas, não.” E conclui: “Há nas pessoas qualquer coisa que resiste.”

No livro sobre minha primeira volta ao mundo, de 2004, encerrei escrevendo: “Eu não viajo para ver monumentos. Eu viajo para ver gente”. E de certa maneira vejo que tanto eu como Fuks, que é alguém que respeito e admiro de longa data, chegamos mais ou menos à mesma conclusão.

O que nos leva mesmo para longe de casa nunca é o lugar para onde a gente vai, mas quem a gente encontra lá. E, claro, como a gente escolhe se envolver com elas.

É daí que nascem amizades, amores, famílias, comunidades, cidades, países, civilizações.


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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