O que perderemos se não reconstruirmos melhor – 21/12/2021 – Paul Krugman

1548234083 file be0b03d8 Vision Art NEWS


Deixarei a análise política especializada para outros. Não sei por que o senador Joe Manchin aparentemente decidiu recuar em uma promessa explícita que fez ao presidente Biden. Ingenuamente, pensei que mesmo nesta era de rompimento de normas, honrar um acordo que você acabou de fazer fosse uma das últimas normas a desaparecer, já que a reputação por cumprir a palavra dada é útil até mesmo para políticos altamente cínicos. Também não sei o que, ou quanto, pode ser salvo do plano Reconstruir Melhor.

O que sei é que haverá enormes custos humanos e, sim, econômicos se os planos de gastos moderados, mas cruciais, de Biden forem descartados.

O fracasso em aprovar uma agenda social decente condenaria milhões de crianças americanas à má saúde e à baixa renda na idade adulta —porque é isso o que acontece com quem cresce na pobreza. Condenaria outros milhões a tratamento médico inadequado e ruína financeira se adoecerem, porque é isso que acontece quando as pessoas não têm seguro-saúde adequado. Condenaria centenas de milhares, talvez mais, a doenças desnecessárias e morte prematura pela poluição do ar, mesmo sem calcular o risco intensificado de catástrofe climática.

Não estou especulando. Há evidências avassaladoras de que as crianças de famílias de baixa renda que receberam ajuda financeira são significativamente mais saudáveis e mais produtivas quando atingem a idade adulta do que as que não receberam. Os americanos sem seguro muitas vezes não têm acesso a tratamento médico necessário e enfrentam contas impagáveis. E estudos mostram que as políticas para mitigar a mudança climática também produzirão maiores benefícios à saúde, pelo ar mais limpo, durante a próxima década.

Como um aparte, não está claro quantos americanos percebem a extensão em que estamos ficando para trás de outros países em termos de suprir as necessidades humanas básicas. Por exemplo, continuo encontrando pessoas que acreditam que temos a maior expectativa de vida do mundo, quando na realidade podemos esperar viver entre três e cinco anos a menos que os cidadãos da maioria dos países europeus.

Aliás, também há grandes e crescentes lacunas entre os estados americanos. Em 1979, a expectativa de vida na Virgínia Ocidental era apenas 14 meses a menos que em Nova York; em 2016 a lacuna tinha aumentado para seis anos. E sim, o estado natal de Manchin se beneficiaria imensamente dos gastos sociais que seu senador democrata parece determinado a bloquear.

A fragilidade da rede de segurança social dos EUA também tem consequências econômicas. É verdade que ainda temos um alto Produto Interno Bruto per capita, mas isso é principalmente porque os americanos tiram muito menos tempo de férias que seus homólogos no exterior, o que significa que eles produzem mais porque trabalham mais horas. De outras formas, ficamos para trás. Mesmo antes da pandemia, os americanos em idade mais produtiva eram menos propensos a ser empregados que os cidadãos do Canadá e de muitos países europeus, provavelmente em parte porque não ajudamos os adultos a continuar na força de trabalho oferecendo creches e licença parental.

Mas nós temos condições de melhorar nossas vidas? Uma resposta é que outros países ricos parecem administrar isso muito bem. Outra é que as objeções de Manchin à legislação proposta evaporam sob uma análise minuciosa.

Manchin afirmou que o Escritório de Orçamento do Congresso determinou que o custo da lei é “superior a US$ 4,5 trilhões”. Não, não é. Essa foi uma estimativa de despesas solicitada pelos republicanos —não o impacto consideravelmente menor sobre o déficit— sob a suposição de que tudo na lei se tornaria permanente, o que não está no texto da lei. E se o Congresso aprovou a prorrogação de programas como o crédito fiscal para filhos provavelmente também aprovaria as compensações de renda. A análise da lei pelo escritório do orçamento como está no texto —que a considerou aproximadamente neutra em déficit— é um guia muito melhor de seu provável impacto fiscal do que essa hipótese manipulada.

Quanto à afirmação de Manchin de que temos uma dívida pública “assustadora”, talvez valha a pena comentar que os pagamentos de juros federais como porcentagem do PIB são apenas a metade do que foram sob Ronald Reagan, e que se você ajustar pela inflação —como deveria— eles são basicamente zero.

E a inflação? Os gastos propostos no Reconstruir Melhor se espalham por vários anos, por isso não aumentariam muito a demanda geral em curto prazo —o acréscimo ao déficit no primeiro ano seria de apenas 0,6% do PIB, o que não basta para causar muita diferença na inflação em qualquer modelo que conheço. Além disso, o Federal Reserve acaba de deixar claro que está pronto para aumentar as taxas de juros se a inflação não ceder, por isso os gastos do governo devem importar ainda menos.

Como eu disse, não vou tentar analisar os processos de pensamento de Manchin, e deixarei que outros especulem sobre seus motivos pessoais. O que posso dizer é que a carta que ele divulgou para explicar por que ele disse o que disse na Fox News não parece uma declaração política cuidadosamente elaborada; nem sequer parece um manifesto ideológico coerente. Na verdade, parece apressada —um apanhado de pontos do discurso republicano enunciados apressadamente na tentativa de justificar sua súbita traição e retratá-lo como vítima.

Desculpe, mas não. Os Estados Unidos são a vítima nessa história, e não um senador que está sendo criticado por quebrar uma promessa.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar cinco acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

1548234083 file be0b03d8 Vision Art NEWS

Deixe um comentário

Este site usa cookies para que você tenha a melhor experiência do usuário. Se continuar a navegar, dará o seu consentimento para a aceitação dos referidos cookies e da nossa política de cookies , clique no link para obter mais informações. CONFIRA AQUI

ACEPTAR
Aviso de cookies
Translate »