O que aprendi no Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia – 27/10/2021 – Leandro Narloch


“O imperialismo está aqui dentro!”, disse uma historiadora num momento mais exaltado. “As burguesias brasileiras convocam as suas congêneres internacionais!”

Há duas semanas, vivi uma experiência estranha, quase psicodélica. Foi como se tivesse entrado numa máquina do tempo e voltado a 1970, aos debates marxistas anteriores à queda do Muro de Berlim. Assisti ao vivo, pelo YouTube, a palestras do Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (Enanpege).

O evento online teve como tema “a ciência geográfica na pandemia ultraliberal”. Contou com representantes do Movimento dos Sem Terra, Movimento dos Sem Teto, Auditoria Cidadã da Dívida, representantes indígenas e quilombolas –e também professores e pesquisadores de geografia.

Pensei que assistiria a debates sobre teoria crítica, questões identitárias ou algum novo desvario universitário, mas não. As conversas trataram dos mesmos temas que já soavam antigos nos meus tempos de faculdade, há 20 anos: latifúndio, monocultura, luta de classes, proletariado e “a opressão do capital”.

Uma mesa redonda sobre povos e territórios brasileiros mirou no que os participantes chamaram de “agroterrorismo” ou “necronegócio”. O agronegócio brasileiro, que alimenta 800 milhões de pessoas, é para eles um “agente que provoca miséria e opressão”. “Como podemos nos livrar desses mecanismos de submissão do capitalismo?”, perguntou um ouvinte.

“A saída é a revolução!”, disse a representante do MST de Alagoas. “Dentro do capital não existe saída para esse processo.”

Uma ambientalista e representante kaingang clamou para que países não comprem a soja brasileira porque “a soja brasileira contém morte”. Isso porque, segundo ela, o glifosato, “que é cancerígeno e está proibido na Europa”, extermina indígenas brasileiros.

(Bem, na verdade, a Autoridade de Segurança Alimentar Europeia, a agência mais rigorosa do mundo, não encontrou riscos relevantes dos resíduos de glifosato à saúde e permite a utilização do produto.)


Em outra conversa, uma geógrafa afirmou que enfrentar a opressão requer “compreender o fetichismo da mercadoria” e “lutas reais por terra e território –a luta de classes”.

O debate de encerramento foi mediado por um professor da Unesp de Presidente Prudente que exibia, na parede ao fundo, um quadro de Che Guevara. Uma historiadora aposentada da UFF, autora da frase do início desta coluna, demonstrou certa obsessão com o capital.

Entre tragadas de cigarro, ela afirmou: “a expropriação do capital é uma condição da existência humana hoje”, “o fascismo é a ponta de lança do capital” e “a principal corrupção da sociedade capitalista é a existência do próprio capital”.

Nenhum dos debatedores pareceu distinguir ativismo de ciência. Nenhum explicou como pode ser “ultraliberal” um dos países que na última década mais aumentou a parcela do gasto público no PIB, e que ainda proíbe a oferta de vacinas contra Covid em clínicas privadas.

Quase todos, porém, reclamaram da falta de recursos. Acreditam que têm direito a mais dinheiro vindo dos pagadores de impostos, pois seus estudos, publicações e eventos são, segundo eles, importantíssimos para o país.


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original



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