O peixe que ajuda cientistas a entenderem o alcoolismo – 12/05/2022 – Ciência Fundamental

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O uso de bebidas alcoólicas permeia toda a história da humanidade. Há registros de que o homem armazenava bebidas fermentadas produzidas com arroz, frutas e mel desde 8 mil anos antes de Cristo, e de lá pra cá temos elaborado cada vez mais nossas receitas e produzido em larga escala. A cerveja era muito importante para as sociedades suméria, egípcia e babilônica, e servia de moeda de troca, enquanto o vinho era de largo uso entre os romanos e ganhou valor geopolítico para os impérios. E a cachaça animou muitas festas dos senhores de engenho, que a vendiam e barganhavam no Brasil colônia. Mas o que a ciência tem a ver com isso?

Durante a Revolução Industrial, a partir da segunda metade do século 18, quando as bebidas alcoólicas passaram a ser produzidas em grandes volumes, a taxa de alcoolismo começou a chamar a atenção das autoridades. Foi então que tiveram início os primeiros estudos sobre os efeitos do álcool, seu modo de ação e consequências em curto e longo prazo.

O alcoolismo, considerado uma doença, afeta 4 milhões de indivíduos no Brasil. Sabemos que seu desenvolvimento não se deve a uma única causa: envolve fatores genéticos, biológicos, sociais e psicológicos. E entender por que algumas pessoas se tornam dependentes e outras não pode ser uma ferramenta de grande valia para a saúde pública.

Em termos genéticos, já foram identificados vários genes relacionados à doença. Um deles, o CYP2E1, participa da produção de enzimas que quebram o álcool no cérebro: pessoas que produzem mais enzimas metabolizam mais o álcool e sentem mais seus efeitos. Além disso, o álcool age em outros sistemas no cérebro, como o sistema de recompensa – a bebida causa uma sensação de prazer. Só que esse sistema passa a responder cada vez menos, e assim a pessoa precisa aumentar a quantidade de álcool para sentir os efeitos, e de repente a situação sai de controle, como uma bola de neve.

Não é fácil saber se a pessoa tem esses genes, e ainda que ela não manifeste nenhuma propensão genética para se tornar alcoólica, o ambiente social e o estilo de vida desempenham um papel decisivo. É aí que entram em cena alguns importantes colaboradores que nos auxiliam a desvendar outras características indicadoras de propensão ao alcoolismo.

No Laboratório de Peixes da UFRN há um peixinho chamado zebrafish que, por compartilhar 70-80% do material genético conosco, funciona como um ótimo modelo para estudar doenças humanas.

Zebrafishes mais tímidos e que não gostam de situações novas se tornam mais ousados quando expostos a baixas doses de álcool, o que indicaria que esses indivíduos se beneficiam da experiência e podem buscar a droga como muleta quando precisam enfrentar situações novas ou desafiadoras, como se ver em situação de predação ou num grupo social desconhecido. A droga reduz a ansiedade desses indivíduos, que passam a explorar mais o aquário. Mais do que isso, observamos que essa resposta pode ser monitorada desde muito cedo, a partir do nascimento.

O zebrafish também nos permite estudar os efeitos do álcool em mulheres grávidas. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que a prevalência do uso de álcool durante a gravidez seja de 9,8%, ou seja, quase uma em cada dez mulheres grávidas ingere álcool. Cerca de 77 em cada 10 mil nascidos apresentam desordens do espectro alcoólico fetal, condição que inclui casos mais severos, com malformações bastante evidentes, e mais leves, estes de diagnóstico muito difícil – a criança geralmente tem uma alteração no comportamento social, hiperatividade e déficits cognitivos.

O zebrafish vem nos ajudando a entender esta desordem. Acrescentamos álcool à água em que se encontra o embrião e avaliamos os efeitos ao longo da vida. Indivíduos de diagnóstico mais difícil, por exemplo, mostraram ansiedade muito elevada no início do desenvolvimento (corresponderia à fase infantil entre dois e quatro anos), indicador que pode ajudar na detecção da doença e na prescrição de um tratamento com chances de amenizar a condição.

Embora o zebrafish venha nos auxiliando a estudar o alcoolismo e responda a muitas das perguntas que temos, o caminho ainda é longo. De qualquer forma, já sabemos: devemos beber com moderação e ficar alertas se a tolerância ao álcool estiver alta.

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Ana Luchiari é bióloga e professora na UFRN.

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