O filme que definiu o thriller erótico nos anos 90 e acabou matando o gênero – 03/07/2021 – Cinema e Séries

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Nicholas Barber – BBC Culture


BBC NEWS

Quase 30 anos atrás, foi lançado um filme de suspense sobre uma serial killer e um detetive da polícia.

As críticas foram mais ou menos (“muita fala, lento e pouco original”, escreveu Stephen Hunter no jornal Baltimore Sun), seu protagonista, Michael Douglas, já havia interpretado papéis semelhantes antes, e o principal ponto de discussão foi a cruzada de pernas de sua colega de elenco.

Pode parecer indecente, masInstinto Selvagem” passou a ser um dos maiores sucessos da década (logo à frente de “007 contra Golden Eye” e “A Bela e a Fera”), e hoje é mais conhecido do que nunca — tanto por motivos positivos quanto negativos.

Uma versão restaurada deluxe em 4K está sendo lançada, mas Sharon Stone tem manifestado como se sentiu usada na infame cena e sua insatisfação com o relançamento — que classificou como “a versão XXX do diretor”, embora o Studio Canal tenha informado à BBC Culture que o filme restaurado é, na verdade, o mesmo que foi lançado na Europa em 1992 e não contém nenhum material que não tenha estado nas edições anteriores em DVD.

O que seus defensores e detratores podem concordar é queInstinto Selvagem” se destaca de todos os outros suspenses eróticos da década de 1990.

Por mais notáveis que “Obsessão Fatal” e “Mulher Solteira Procura” possam ter sido, eles não vão ter relançamentos de prestígio agora, tampouco suas estrelas seguem ganhando as manchetes escrevendo sobre o que aconteceu nos bastidores das filmagens.


O crítico e escritor Matthew Turner é apresentador de Fatal Attractions, podcast dedicado ao gênero suspense erótico, e ele classifica Instinto Selvagem como o melhor e mais importante dos 76 filmes que o podcast analisou até agora.

“É o sine qua non do gênero”, diz ele à BBC Culture.

“SemInstinto Selvagem’, não haveria como o suspense erótico ser tão grande quanto foi na década de 1990, e de maneira alguma estaríamos falando sobre isso agora.”

Os primeiros sinais do gênero começaram a ser sentidos na década de 1980, quando o sexo e a violência no cinema estavam se amalgamando em todos os tipos de novas posições picantes.

O público que quisesse uma trama de mistério para acompanhar sua excitação socialmente aceitável poderia ver “Dublê de Corpo”, “Vítimas de uma Paixão”, “Atração Fatal” (coestrelado por Douglas) e outras histórias tórridas de assediadores, chantagistas e assassinos com belos cabelos.

Essencialmente, eram reminiscências dos filmes noir que vinham com a atraente perspectiva de que os atores podiam tirar a roupa. Mas eles ainda não eram conhecidos como suspenses eróticos. Foi “Instinto Selvagem” que definiu e popularizou o gênero.

Por outro lado, pode-se dizer que “Instinto Selvagem” também ajudou a matar o gênero. Levou todos os aspectos do suspense erótico a extremos tão absurdos que não sobrou nenhum caminho para qualquer filme da mesma linha seguir.

Um dos responsáveis ​​foi Joe Eszterhas, que já havia escrito um suspense protoerótico, O Fio da Suspeita, em 1985.

Eszterhas era um ex-jornalista durão que chegou o mais perto que qualquer roteirista jamais chegou de ser uma estrela do rock.

Seus roteiros foram vendidos por cifras recordes e, como ele se gabou em seu livro de memórias de 2004, “Hollywood Animal”, ele “foi o único roteirista na história de Hollywood que teve groupies”.

É quase impensável hoje, quando a grande maioria dos sucessos de bilheteria é baseada em livros, histórias em quadrinhos e programas de TV, mas Eszterhas recebeu uma fortuna por roteiros resumidos da história.

Um dia, conforme relata em “Hollywood Animal”, ele “achou que seria divertido fazer um filme sobre um homem sendo manipulado por uma mulher que é brilhante, omnissexual e diabólica” — e o roteiro que ele bateu em 13 dias foi comprado em 1990 pela Carolco, um estúdio independente, por US$ 4 milhões.

Ele chamou a história originalmente de “Love Hurts”, mas antes de enviar para seu agente, sabiamente mudou o título para algo mais forte: Instinto Selvagem.

Uma batalha criativa de desejos

Assim como agora, porém, o poder dos roteiristas de Hollywood era limitado. Eszterhas esperava que Milos Forman dirigisse o filme, mas a Carolco optou por Paul Verhoeven, o diretor holandês de “RoboCop” e “O Vingador do Futuro”, no qual Stone teve um pequeno papel como agente secreta.

Verhoeven era capaz de oferecer entretenimento espetacular para agradar o público, mas havia algo diferente e subversivo em seus filmes: ele ia além dos limites do bom gosto, deixando os espectadores sem saber se deveriam ficar boquiabertos ou rir.

“Verhoeven veio do cinema holandês, em que a nudez explícita e cenas de sexo eram mais aceitáveis. Era a isso que ele estava acostumado”, diz Stevie Simkin, autor do livro “Basic Instinct: Controversies”.

“Ele viu um de seus filmes holandeses, “O Quarto Homem”, como uma espécie de prequela espiritual de “Instinto Selvagem”, e havia cenas que não eram chocantes para o público europeu, mas nunca teriam sido feitas na América na época. Ele estava definitivamente tentando quebrar barreiras.”

O que isso significava em termos de Instinto Selvagem era que Verhoeven planejava pegar tudo o que estava implícito no roteiro e colocar na tela.

Como Eszterhas diz em “Hollywood Animal”: “Todas as cenas no roteiro com qualquer nudez tinham uma observação descritiva: ‘Está escuro. Não podemos ver claramente’. Eu queria que essas cenas fossem sobre sombras e ângulos de câmera artísticos, não sobre pele, e certamente não sobre a nudez frontal completa.”

Mas Verhoeven tinha outras ideias.

Na verdade, Eszterhas ficou tão chocado com a abordagem prosaica do diretor para todas as questões carnais que tentou comprar de volta seu roteiro da Carolco e divulgou um manifesto puritano à imprensa reclamando que havia escrito um “mistério psicológico com cenas de amor feitas sutilmente”, enquanto “a intenção de Verhoeven era fazer de “Instinto Selvagem” um suspense sexualmente explícito”.

E se o sexo é desenfreado, a violência também é. Chega-se ao clímax, em mais de uma maneira, com a mulher misteriosa atacando o homem repetidamente com um picador de gelo: Verhoeven inclui até mesmo uma tomada macabra da lâmina fina passando direto pelo nariz da vítima.

O frenesi da assassina lembra a cena do chuveiro de “Psicose”, de Alfred Hitchcock, mas também remete à cena sangrenta de RoboCop em que um robô ED-209 com defeito atira por 15 segundos em um executivo.

E só para lembrar: tudo isso acontece na cena de abertura do filme.

Outros diretores de suspense teriam sugerido neste estágio inicial que você poderia ver algo provocativo mais tarde. Verhoeven, zombando deste tipo de linguagem, paga o valor do nosso ingresso nos primeiros minutos.

Não muito tempo depois, a ginástica de Stone e Douglas no quarto vai ainda mais longe. Diante da coragem dos atores e da sensibilidade holandesa desinibida de Verhoeven, Instinto Selvagem garantiu que o sexo em cada suspense erótico subsequente parecesse tímido em comparação.

Ele foi forçado a fazer uma concessão, no entanto.

“Ele estava muito interessado em fazer o primeiro filme de Hollywood com um pênis ereto em cena”, diz Simkin.

Mas teve que se contentar com a visão traseira de Douglas em vez disso.

Ainda assim, não são apenas o sexo e a violência que o filme leva a alturas (ou profundidades) quase burlescas. As homenagens espirituosas a “Um Corpo que Cai” e outros clássicos de Hitchcock estão por toda parte, desde a trilha sonora sinuosa de Jerry Goldsmith ao trabalho de câmera virtuoso de Bont.

As casas são magníficas. Os figurinos (tirando o decote em V de Douglas) são espetaculares. E a história é tão sensacional e tão complexa que oscila à beira da ironia, sem nunca se deixar levar totalmente.

Não somos informados sobre quem é o assassino na cena de abertura, mas sabemos que a vítima é uma estrela do rock aposentada, e que sua namorada é a personagem de Stone, Catherine Tramell.

Descobrimos então que Tramell é uma autora que escreveu sobre um astro do rock morto de maneira idêntica em um de seus romances. O detetive de polícia interpretado por Douglas, Nick Curran, investiga o caso, mas não consegue resistir à principal suspeita.

A nítida possibilidade de ela ser uma maníaca homicida faz parte do fascínio. (Alerta de spoiler: ela é.)

Este enredo já é mais absurdo do que, digamos, “Atração Fatal” e “Vítimas de uma Paixão”. MasInstinto Selvagem” está apenas começando.

Eszterhas acrescenta uma nova reviravolta ou revelação a cada cinco minutos, não apenas no romance em andamento, mas nas histórias de fundo dos personagens também. É prática padrão do filme noir ter um policial com um escândalo no passado.

Em Instinto Selvagem, o policial em questão é um alcoólatra que atirou acidentalmente em alguns turistas enquanto estava sob efeito de cocaína. Ah, e sua esposa se matou.

O currículo de Catherine é igualmente animado.

Seu primeiro marido era um boxeador que foi golpeado até a morte no ringue, e ela tinha um relacionamento obsessivo com sua colega de faculdade — que, como vimos, vem a ser psicóloga do departamento de polícia de Nick, interpretada por Jeanne Tripplehorn.

E sua namorada e melhor amiga? Nada demais, mas ambas massacraram vários membros de suas próprias famílias.

Uma anti-heroína inspiradora?

É Catherine quem personifica a sensação de que “Instinto Selvagem” é o suspense erótico que acaba com todos os demais. Outras personagens sedutoras de filme noir podem cometer seus crimes por dinheiro ou amor ou para escapar de um casamento sufocante, mas Catherine é solteira, rica e muito mais interessada em sexo do que em amor; ela mata só para ver se consegue se safar.

Por mais diabólica que ela possa ser, ela também é, de certa forma, uma figura estranhamente inspiradora.

“Ela é vista através de lentes masculinas paranoicas”, diz Anna Smith, crítica de cinema e apresentadora do podcast Girls on Film.

“Mas há aspectos de sua personagem que foram e até certo ponto ainda são revigorantes. Ela é a protagonista feminina em um filme comercial que tem uma carreira de sucesso, que está no controle total, mais inteligente do que os homens ao seu redor, sexualmente liberada e desafiadoramente não-maternal.”

Em seu comentário no DVD, Verhoeven chama Catherine de “diabo” e “satanás”.

De Bont diz que a vê como uma “deusa”.

Stone só ganhou o papel depois que nomes lucrativos como Michelle Pfeiffer, Geena Davis, Melanie Griffith e Kim Basinger recusaram. Mas é impossível imaginar alguém corresponder à confiança indiferente que ela incorpora ao personagem.

Uma mistura inesquecível de Jessica Rabbit e Hannibal Lecter, Catherine está no comando de todas as situações, desde o momento em que transforma o namorado em um coador humano na cena de abertura até o momento em que sai impune no final.

Ficou famosa a cena do interrogatório em que ela descruzou e cruzou as pernas, mostrando à polícia, e ao espectador, que não estava de calcinha.

Em seu livro de memórias publicado recentemente, “The Beauty of Living Twice” (“A Beleza de Viver Duas Vezes”, em tradução literal), Stone repete sua alegação anterior de que foi assegurada por Verhoeven durante as filmagens de que “não veríamos nada”.

Mas ela também observa que a cena reveladora “foi correta para o filme e para a personagem”. É difícil discordar.

A cena mostra como Catherine está confortável com seu corpo e o poder que tem sobre os marmanjos que a admiram.

A sequência também pode ser interpretada como uma piada maliciosa sobre o que estamos pagando quando assistimos a um suspense erótico.

Os policiais enfileirados na sala de interrogatório são como os espectadores do cinema, boquiabertos com seu ídolo, não exatamente aprovando, mas levados à distração por um vislumbre de carne.

E se Verhoeven realmente estava comentando sobre o equilíbrio entre a libidinagem e o puritanismo dos frequentadores de cinema, então ele provou que estava certo.

Apesar de todo o pânico moral que seu lançamento causou, o público ficou fascinado por Catherine, e Instinto Selvagem subiu para o sexto lugar nas bilheterias americanas em 1992, apesar de sua classificação indicativa.

Naturalmente, isso estabeleceu uma tendência, pois os produtores viram quanto dinheiro poderia ser ganho com o gênero, e as celebridades perceberam que poderiam se despir sem prejudicar suas carreiras.

Em 1993, foi lançado “Corpo em Evidência”, com Madonna, Willem Dafoe e outro diretor europeu importado, Uli Edel. Em 1994, foi a vez de “A Cor da Noite”, com Bruce Willis e Jane Marsh, assim como deAssédio Sexual”, protagonizado por Douglas e Demi Moore.

Mais dois suspenses eróticos foram feitos com roteiros de Eszterhas, incluindo “Invasão de Privacidade”, estrelado por Stone.

Em 2006, ela atuou em “Instinto Selvagem 2” sem Verhoeven ou Eszterhas. (“Prefiro fingir que isso não existiu”, diz Turner.)

Houve ainda muitos outros filmes que estavam tão ansiosos para imitar “Instinto Selvagem” que usaram a música-tema imediatamente reconhecível de Goldsmith em seus trailers.

Mas nada poderia competir. Fazer um suspense erótico depois de “Instinto Selvagem” era como fazer uma space opera logo após o lançamento deStar Wars”. Poderia ir bem nas bilheterias, mas só poderia soar como uma pálida imitação.

A menos que um filme fosse uma paródia deliberada — e a cruzada de pernas já foi parodiada várias vezes — como as referências a Hitchcock poderiam ser mais flagrantes, ou o sexo mais tórrido, ou a violência mais horrível, ou a trama mais bizantina, ou a femme fatale mais loira, linda e diabólica?

Mesmo o suspense erótico mais instigante estava fadado a parecer fraco em comparação com Instinto Selvagem.

E talvez o filme reconheça isso em sua cena final.

Nick e Catherine estão na cama juntos, mais uma vez, mas agora, em sua post-coital tristesse (disforia pós-coito), eles estão tão cansados, entediados e tristes como os amantes em fuga no final de “A Primeira Noite de um Homem”.

Eles se divertiram, tiveram seu jogo mortal de gato e rato, e a vida nunca será tão erótica ou emocionante novamente.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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