Nicole Kidman e a insegurança de viver Lucille Ball: ‘Engraçado é difícil’ – 05/01/2022 – Cinema e Séries

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The New York Times

Nicole Kidman, 54, aprendeu lições valiosas a cada vez que interpretou uma figura da vida real: o fato de que a sociedade de cada época quase sempre julgou mal a pessoa que ela viria a interpretar, a semelhança maior do que ela imaginava entre aquela era histórica e o presente e, acima de tudo, como manter o equilíbrio ao caminhar descalça em um tonel repleto de uvas.

Falando de seus preparativos para interpretar Lucille Ball, a estrela de “I Love Lucy”, Kidman deu a entender que seu esforço metódico para aprender a imitar a cena em que Ball aparece esmagando uvas com os pés, em 1956, não foi preparo suficiente, quando chegou o momento de repetir a manobra diante das câmeras.

“Eu tinha praticado a cena andando no chão”, disse Kidman em tom gentil e sincero. “Mas não levei em conta que o tonel estaria cheio de uvas. E elas são bem escorregadias, não sei se você sabe”.

Em “Being the Ricardos, um drama cômico escrito e dirigido por Aaron Sorkin, Kidman interpreta Ball em uma história que mostra uma semana na vida de “I Love Lucy”, no momento em que ela e o marido, Desi Arnaz (Javier Bardem), estão batalhando para incorporar a gravidez de Ball na vida real à história, para rebater acusações de que Ball é comunista, e para lidar com um momento complicado em seu casamento.

O filme, em cartaz no serviço Amazon Prime, inclui algumas recriações de cenas famosas de “I Love Lucy”. Mas é em última análise uma história de descoberta, para a estrela de TV e a para a atriz que a interpreta.

Kidman, ganhadora do Oscar e do Emmy, está de novo na disputa por premiações por seu desempenho em “Being the Ricardos”. Mas tende a duvidar de si mesma e a dizer que confia muito pouco em seu talento como comediante.

A abordagem que Kidman adotou para “Being the Ricardos” a levou a descobrir conexões mais fortes do que imaginava com Ball, outra atriz rotulada e subestimada, em sua era. As histórias de vida e os talentos de ambas podem não se sobrepor de todo, mas as duas sempre compreenderam a necessidade de humor para realizar seus objetivos individuais. Como disse Kidman, “tive de ser engraçada, e é difícil ser engraçada”.

Em uma visita a Nova York no mês passado, antes do impacto da variante ômicron, Kidman estava acomodada na sala de um boutique hotel em Manhattan, saboreando um “ginger shot”, e trazia anéis complicados nos dedos. Kidman disse que reprises de “I Love Lucy” eram uma lembrança de infância, mas não muito nítida, e que sua preferência na época eram séries como “A Feiticeira” e “The Brady Bunch”.

Seu currículo inclui alguns trabalhos cômicos, em sátiras sombrias como “To Die For” ou filmes familiares como “As Aventuras de Paddington”, mas tive de lembrá-la de que ela também teve alguns momentos de humor físico em “Moulin Rouge – Amor em Vermelho” (“é verdade, você tem razão”). Mesmo em uma série razoavelmente sardônica como “Big Little Lies”, da HBO, Kidman disse, “Reese Witherspoon e Laura Dern é que são muito engraçadas. Eu sempre digo a elas que estou lá para servir de escada”.

Ela não tem ilusões de que fosse a candidata mais lógica para o papel de Ball, ou a primeira atriz procurada para ele. Quando o projeto surgiu, anos atrás, “Being the Ricardos” foi concebido como uma minissérie para TV, de acordo com a atriz Lucie Arnaz, filha de Ball e Arnaz e produtora executiva do filme.

Cate Blanchett faria o papel, inicialmente, mas quando Sorkin se envolveu e a Amazon decidiu que o projeto seria um filme, a atriz não estava mais disponível. “Demoramos demais e a perdemos”, disse Arnaz em uma entrevista. “Fiquei arrasada”. (Um representante de imprensa de Blanchett preferiu não comentar.)

Outras estrelas foram sondadas, disse Arnaz. “Mas nenhuma delas me satisfazia. Era sempre a pessoa que estava fazendo sucesso naquele momento, a pessoa que tinha feito o filme comentado da temporada”.)

Mas quando Kidman foi mencionada como uma possibilidade, disse Arnaz, a ideia a intrigou. “Achei bom; e achei que talvez a chave fosse só pensar em atrizes australianas para o papel”, ela brincou.

Kidman disse que o envolvimento anterior de Blanchett não diminuiu seu interesse. No mundo do show business, disse Kidman, “acho que existe uma espécie de pacto sagrado entre nós todos: quem quer que consiga um papel ou projeto, é essa a pessoa que deveria tê-lo”.

Ela estava ciente de que que havia oposição online à sua seleção; muita gente achava que o papel deveria ser dado a Debra Messing, estrela de “Will & Grace”. “Eu não uso a internet e não faço buscas no Google sobre mim mesma”, disse Kidman. “Mas mesmo assim fico sabendo de coisas”.

(Arnaz disse que Messing “queria muito ser aquela pessoa”, mas acrescentou que “não é algo que nos interessasse. Não queríamos que alguém fosse aquela pessoa”. Um representante de imprensa de Messing se recusou a comentar.)

Kidman não conhecia muito sobre a vida de Ball quando foi abordada inicialmente, mas disse que conseguiu imaginar a realidade que interpretar a rainha do humor pastelão traria. “A maneira pela qual ela se move e tropeça, todo o seu lado físico, levam a pensar que você pode ser completamente desastrada ao interpretá-la”.

Mas depois de assinar o contrato para “Being the Ricardos” com entusiasmo, disse Kidman, ela começou a hesitar. A relutância que sentia, disse, tinha a ver em parte com o roteiro repleto de diálogos complicados escrito por Sorkin, e em parte com filmar durante a pandemia.

E Kidman acrescentou que, em nível mais primário, comédia não é algo que venha com facilidade, para ela –nem como gênero e nem como oportunidade de atuação. “Não sou escalada para comédias”, ela disse. “Pode ser resultado de uma carreira dedicada a dramas, ou pode ter a ver com a minha personalidade, também”.

Refletindo sobre sua infância na Austrália, Kidman disse que “eu era a menina que não podia ir à praia na metade do dia porque tenho a pele clara demais e me queimaria. Por isso, ficava sentada em casa e, em vez de assistir TV, eu lia”. Uma juventude passada em companhia de Dostoiévski, Flaubert e Tolstói “talvez não faça de você um comediante”, ela disse.

Kidman disse que, agora, se alguém quer que ela interprete um papel que tenha um lado cômico, “preciso ser estimulada e incentivada para isso”.

Sorkin foi persuasivo, disse Kidman, e algumas experiências que ela teve no teatro, quando aceitou diálogos engraçados aqui e ali, a ajudaram a aceitar. É bem bacana quando você diz alguma coisa e o teatro inteiro ri”, ela disse. “Dá para entender que as pessoas se viciem nisso”.

O que o filme realmente exigia, disse Kidman, era que ela interpretasse Lucille Ball (tal como descrita no roteiro de Sorkin), e não Lucy Ricardo. “Lucy é uma personagem –diferente de Lucille”, ela explicou. “Lucille é extraordinária porque ela sempre se levantava rapidamente quando a vida a derrubava, e persistia teimosamente em seus esforços”.

Quando mais ela refletia sobre o roteiro e aprendia sobre a vida de Ball, disse Kidman, mais ela via uma pessoa multifacetada que lhe oferecia muitas emoções para interpretar.

O casamento de Ball com Arnaz, mulherengo e alcoólatra, disse Kidman, “mostra o amor dela por uma pessoa que também a amava, mas não era capaz de lhe dar aquilo que ela mais queria”. Mencionando a carreira cinematográfica frustrada que terminou por conduzir Ball a “I Love Lucy”, Kidman acrescentou que “ela era realmente engraçada, mas o que queria ser era uma estrela de cinema”.

Kidman não chegou a traçar paralelos diretos entre a vida de Ball e a sua, mas Lucie Arnaz não hesita em expressar a comparação.

Arnaz disse que, como sua mãe, Kidman “já tinha sido casada antes. Ela sabe como um divórcio afeta a pessoa e como é difícil criar filhos à luz dos holofotes. Ela sabe como é difícil ter um marido que enfrenta problemas com vícios”. (O marido de Kidman, o cantor Keith Urban, já passou por tratamentos por abuso de álcool e drogas.)

Kidman mergulhou nos preparativos físicos para o papel e trabalhou assiduamente com um treinador vocal, Thom Jones, para desenvolver as vozes que usaria para Lucille Ball e Lucy Ricardo.

Como explicou Jones, “Lucy é a Lucille extrema. Quando Lucille interpretava Lucy, ela fazia uma versão exagerada, caricata, de si mesma, e adotava um timbre mais agudo”. A voz natural de Ball era mais grave e rouca, devido a anos de cigarros, embora Kidman não estivesse procurando uma imitação perfeita.

“O que queríamos era que ela capturasse a essência de Ball e conseguisse transmiti-la”, disse Jones. “Se você está fazendo uma imitação, vai ficar consciente demais do seu exterior e não conseguirá preencher o lado interior do personagem, como ator”.

Kidman treinou seus diálogos contracenando com sua mãe, fã perpétua de “I Love Lucy”, mas é difícil saber o quanto isso a ajudou no processo. “Ela interrompia para me dizer que eu tinha errado uma palavra, e eu pedia para ela me deixar chegar ao fim do diálogo antes de me corrigir. Lição número um: não treine diálogos com sua mãe”.

Ela também estudou gravações em áudio de Ball que Arnaz lhe forneceu, e trabalhou com um treinador de movimento para aprender a imitar diversas das cenas cômicas de “I Love Lucy”, embora apenas algumas apareçam no filme.

Kidman já recebeu indicações para diversos prêmios por “Being the Ricardos”, entre os quais o Globo de Ouro e o Critics Choice Award, mas seu trabalho no filme continua a ser uma fonte de insegurança para ela.

Ela pareceu surpresa quando lhe falei sobre um trailer de 75 segundos sobre o filme, divulgado em outubro, no qual seu rosto aparece apenas de passagem, o que levou alguns espectadores a questionar por que a Amazon parecia estar escondendo Kidman.

Perguntada se estava ciente do trailer ou dos motivos para ele, Kidman disse: “Não sei como responder a isso, viu? Não lido com a parte promocional do trabalho. Talvez eles tenham ficado com medo de me mostrar”. Ela parou para respirar, antes de acrescentar: “Que droga”.

Quaisquer que tenham sido as críticas que recebeu por “Being the Ricardos”, Kidman sempre terá a experiência de trabalhar em uma reprodução do set de “I Love Lucy”, executando o material de Ball na série e ouvindo as risadas de dezenas de figurantes contratados para interpretar a audiência de estúdio.

Kidman descreveu como ela se sentia naqueles momentos com uma só palavra: “Fantástica”. Depois, como se para demonstrar algumas das coisas que aprendeu para o filme, ela fez a pausa cômica correta antes de acrescentar: “Mas eles eram obrigados a rir, você sabe”.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci



Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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