Na fronteira entre Polônia e Belarus, iraquiano precisa escolher entre continuar a fugir ou salvar a filha – 10/10/2021 – Mundo


O pai tinha caminhado em círculos na floresta polonesa encharcada de chuva, carregando sua filha doente no colo, delirante depois de três dias quase sem comida ou água, enquanto a temperatura caía quase para zero. Ele estava encharcado, tremendo de frio e enfrentava uma escolha lancinante.

Sua filha de 2 anos tem paralisia cerebral e epilepsia. Ele a embrulhara num casaco fino para protegê-la do frio, e ela precisava de atendimento médico urgente. O pai, curdo iraquiano que disse chamar-se Karwan, conduziu sua família através da fronteira com Belarus, mas agora estava numa área de floresta patrulhada por soldados e guardas de fronteira poloneses.

A escolha que se impunha ao pai era torturante: buscar assistência médica significaria retornar a Belarus e assinalaria o fim da viagem desesperada de sua família para chegar à Europa.

“Posso chamar uma ambulância para você, mas ela virá acompanhada de guardas da fronteira”, disse o ativista polonês Piotr Bystrianin, que chegou para ajudar, falando com a família que queria pedir asilo na Polônia. Ele encontrara a família depois de passar horas procurando no escuro, alertado para seu paradeiro por um sinal localizador enviado por celular.

A família de Karwan mergulhara sem querer dentro de uma disputa geopolítica entre Belarus e Polônia que vem crescendo, ganhando contornos de um desastre humanitário europeu criado pelo homem. Plo menos cinco pessoas que entraram na Polônia atravessando a fronteira ilegalmente morreram nas últimas semanas, algumas delas de hipotermia e exaustão, segundo autoridades polonesas. Três outras quase morreram afogadas num pântano polonês.

“Muitas mais vão morrer quando o frio aumentar”, disse Bystrianin. “Nosso governo trata essas pessoas pior do que trata bandidos, que são levados à prisão. É como se não fossem seres humanos, apenas lixo a ser jogado fora. Qual é o plano —fazer com elas morram?”

Há evidências fortes de que o ditador belarusso Aleksandr Lukachenko está usando migrantes para punir a União Europeia por lhe impor sanções devido à repressão após uma eleição contestada no ano passado. Alguns dos migrantes estão tentando escapar da miséria na África ou outros lugares, outros fugindo da guerra em países como Afeganistão e Iraque. Belarus permite que entrem em seu território e então os incentiva a atravessar para a Polônia, país membros da União Europeia, na esperança de que se dispersem pela região.

Determinado a impedir a entrada de refugiados e migrantes econômicos, o governo polonês de direita encheu a área de sua fronteira oriental de agentes de segurança. Ao mesmo tempo, mantém curiosos afastados, declarando a área uma zona de exclusão de emergência, onde o acesso é proibido para todos menos os residentes locais.

Pesquisas de opinião indicam que a maioria dos poloneses é a favor da abordagem do governo. Mas na semana passada, aparentemente preocupado com a possibilidade de uma reação negativa contra sua política, o governo começou a demonizar os migrantes, descrevendo-os como terroristas, pedófilos e degenerados sexuais que estupram animais.

Essa tentativa parece ter tido efeito inverso ao desejado, atraindo a desaprovação até mesmo de alguns membros do governo e também da Igreja Católica, força poderosa no país e que raramente tece críticas ao governo.

Algumas autoridades estão resistindo à política do governo. O vice-comissário de direitos humanos polonês denunciou o tratamento dado a candidatos a asilo, dizendo que é um “escândalo” que revela “a imagem mais tenebrosa possível da Polônia”.

A posição oficial do governo é que está defendendo a fronteira leste da União Europeia contra “ataques híbridos” de Lukachenko, que a Polônia acusa de enviar migrantes ao país para semear a desordem.

A patrulha de fronteira polonesa disse que em agosto e setembro deste ano mais de 11 mil pessoas tentaram entrar no país ilegalmente vindas de Belarus, enquanto no ano passado inteiro teriam sido apenas 120.

O aumento começou no verão deste ano, depois de a União Europeia impor sanções a Belarus por ter forçado o pouso de um jato de passageiros em que um dissidente belarusso viajava. Num primeiro momento o governo de Lukachenko impeliu os migrantes para a Lituânia, mas depois de este país ter erguido uma barreira, passou a direcioná-los ao sul, para a fronteira polonesa.

Tanto a Lituânia quanto a Polônia reforçaram suas fronteiras, instalando cercas de arame farpado e reforçando as barreiras já existentes. Com isso, estão imitando métodos anti-imigrantes usados inicialmente pela Hungria no auge da crise de migrantes na Europa, em 2015.

Sem querer assistir a uma repetição dessa crise e a outra onda de apoio a políticos populistas, anti-imigratórios, a União Europeia tem apoiado, na maioria dos casos, os esforços da Polônia e Lituânia para barrar a entrada de pessoas vindas de Belarus.

“A agressão vinda do regime de Lukachenko merece uma resposta firme e unificada da UE”, disse a comissária de migração do bloco, Ylva Johansson, na quinta-feira, na saída de uma reunião com o ministro do Interior polonês, Mariusz Kaminski.

Este enfureceu liberais e causou consternação entre alguns partidários do partido governista quando, na semana passada, promoveu um briefing em que mostrou o que disse ser uma foto tirada do celular de um migrante detido que mostrava um homem copulando com um animal.

A emissora de TV pública TVP, que funciona como megafone do partido governista, publicou uma reportagem sobre o briefing com a manchete: “Ele estuprou uma vaca e queria entrar na Polônia? Detalhes sobre migrantes na fronteira.”

Mas a foto revelou ser uma imagem de um filme sobre pornografia bestial disponível na internet, e envolvia um cavalo, não uma vaca.

Desde que o Talibã tomou o poder no Afeganistão, em agosto, a Polônia acolheu centenas de candidatos a asilo que chegaram de avião do Afeganistão. Mas a hostilidade a migrantes que atravessam a fronteira furtivamente tem sido uma constante do partido Lei e Justiça. Em 2015, antes das eleições que conduziram o partido ao poder, seu líder disse que esses migrantes são portadores de “todos os tipos de parasitas e protozoários”.

Mesmo assim, muitas pessoas na Polônia acham que Kaminski passou dos limites.

“Se qualquer outra pessoa tivesse feito o que ele fez, acabaria na cadeia por exibir fotos que incitam ao ódio étnico de modo tão tosco”, comentou em entrevista na semana passada Marek Nazarko, prefeito da cidade de Michalowo, próxima da fronteira com Belarus.

Testemunhas contaram que na semana passada em Michalowo 20 estrangeiros detidos, oito dos quais crianças, foram levados aos gritos por agentes de segurança encapuzados para um ônibus que os levou de volta à fronteira bielorrussa. Todos foram expulsos da Polônia.

O incidente levou Nazarko a convocar uma sessão emergencial da câmara municipal e a “enfeitar” o recinto da câmara com rolos simbólicos de arame farpado.

Convidado a participar da sessão, o diretor interino do posto de fronteira da cidade, Piotr Dederko, se disse inquieto com as ordens que recebeu de Varsóvia. “Não tenho coragem de levar essas pessoas até a fronteira e jogá-las fora”, explicou. “São situações realmente difíceis.”

Os membros do conselho votaram por unanimidade por converter a estação de bombeiros da cidade num “posto de assistência” para migrantes que conseguem sair da zona de exclusão, oferecendo-lhes alimentação e abrigo temporário. Mas, para não infringir a lei, o prefeito concordou que o serviço de fronteiras será informado sobre as pessoas que procuram ajuda no posto.

“Hoje na Polônia vivemos uma situação em que ajudar pessoas virou crime”, ele lamentou.

Bystrianin, o ativista que encontrou a família de Karwan perto da floresta, passa suas noites à procura de pessoas desesperadas, percorrendo estradas rurais vicinais em um carro carregado de alimentos doados, água, cobertores e roupas secas.

Diretor da organização beneficente particular Fundacja Ocalenie, na manhã do sábado Bystrianin esperava pacientemente a família atormentada tomar sua decisão.

Temendo que sua filha doente e outros no grupo talvez não sobrevivessem, Karwan decidiu que seria melhor buscar assistência médica. Duas ambulâncias chegaram, acompanhadas por guardas de segurança, conforme lhe fora avisado.

Quatro membros da família foram levados ao hospital e seis outros à fronteira para ser expulsos para Belarus. Bystrianin e outra ativista, Dorota Nowok, que estavam na área para oferecer alimentos e roupas aos migrantes, foram multados por entrarem numa zona restrita.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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