Museu do Holocausto na Ucrânia, financiado por russos e com aposta em tecnologia, recebe críticas – 07/10/2021 – Mundo


Um comercial na versão ucraniana do Tinder, app de relacionamentos, propunha uma experiência nada romântica: “Toque a tragédia de Babi Yar”, sugeria o anúncio, incentivando os usuários a descobrirem mais sobre um dos maiores massacres de judeus na Segunda Guerra, cometido num local em Kiev.

O anúncio não chegou a ser excepcional. Nesta semana a Ucrânia lembra o 80º aniversário do massacre de Babi Yar, e anúncios feitos para a web, instalações de arte moderna e técnicas que atraem o público, como games online, viraram uma parte importante de um esforço fartamente financiado para modernizar a evocação do Holocausto.

Essa abordagem de viés tecnológico tem atraído críticas de tradicionalistas, para quem ela desonra o caráter solene do assunto. Os nazistas fuzilaram dezenas de milhares de judeus, ciganos e prisioneiros de guerra ucranianos e russos em Babi Yar, além de pacientes de hospitais psiquiátricos e outros.

Mas os organizadores concluíram que uma apresentação mais moderna atrairia um público maior, e eles parecem ter tido êxito onde muitos esforços anteriores fracassaram. O que antes era um local quase deserto exceto por delegações oficiais, tendo às vezes sido usado inapropriadamente como local de churrasco ou para a prática de motocross, vem recebendo visitantes trazendo flores e velas.

As cerimônias para marcar o aniversário do massacre culminou nesta quarta (6) com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, que é judeu, fazendo uma visita ao lugar e inaugurando uma instalação de arte moderna, o Muro de Cristal das Lágrimas. A expectativa é que o complexo total do museu custe mais de US$ 100 milhões, sendo metade desse valor tendo sido doada por oligarcas russos. A previsão é que seja concluído em 2025.

O massacre em Babi Yar foi um dos mais notórios da Segunda Guerra Mundial.

No final de setembro de 1941, pouco depois de o exército alemão ter invadido Kiev, os judeus da cidade receberam ordens de se reunir perto de uma estação de trem para serem reassentados. Multidões obedeceram a ordem, entre elas muitas mulheres e crianças. Quando chegaram com seus pertences, foram forçadas a tirar a roupa e se reunir numa ravina. As pessoas foram fuziladas em pequenos grupos. Segundo historiadores, mais de 33 mil pessoas foram mortas ao longo de dois dias, e mais fuzilamentos em massa ocorreram no local ao longo da guerra.

“Cresci ouvindo as histórias que a geração de meus avós contava da guerra”, disse Andrej Umansky, historiador alemão de ascendência ucraniana que trabalha para o Centro Memorial do Holocausto Babi Yar, uma iniciativa privada. “Mas os estudantes de hoje não têm essa mesma ligação com o Holocausto. Para eles, é totalmente abstrato. Falar do Holocausto é como falar da antiguidade romana.”

O desafio, segundo ele, é encontrar ferramentas para sensibilizar as pessoas mais jovens. “Precisamos encontrar maneiras de nos comunicar com elas para que entendam.” A maioria dos funcionários do memorial tem menos de 40 anos, o que infundiria uma energia jovem ao projeto.

Ruslan Kavatsiuk, vice-diretor do grupo responsável pelo memorial, destacou que a abordagem mais moderna vai ajudar a mudar a visão que as pessoas têm de Babi Yar, o local, de modo que ele volte a ser visto como apropriado para homenagear as vítimas. “Se você tivesse ido lá um ano atrás, não teria visto nada que indicasse que foi palco de um massacre. As pessoas faziam churrasco, tomavam cerveja. Muitas desconheciam o que foi Babi Yar.”

O uso de tecnologia moderna e exposições conceituais não é incomum em museus e memoriais, incluindo o memorial às vítimas do 11 de Setembro. Mesmo assim, a estratégia de lembrar o massacre de Babi Yar com essas técnicas, aliada ao financiamento russo, vem atraindo uma enxurrada de críticas.

Muitos integrantes da equipe que idealizou o projeto se demitiram em 2019 em protesto contra a visão high-tech do diretor de arte Ilya Khrzhanovsky. Cineasta moscovita conhecido por sua adesão ao teatro de imersão e ao role-playing, ele foi escolhido para a função por um dos doadores russos.

Algo que não ajudou foi o fato de um dos planos iniciais ter incluído a ideia de adotar tecnologias de vídeo deepfake. A proposta destacou que estas às vezes são usadas para criar pornografia falsa com celebridades, mas que poderiam ser usadas para outra finalidade, criando exposições memoriais. Kavatsiuk disse que a ideia foi descartada.

Outra ideia aventada, a criação de um algoritmo que caracterizaria os visitantes como vítimas, carrascos ou colaboracionistas e adaptaria sua experiência no museu, também acabou sendo abandonada.

O uso do Tinder é outra proposta que acabou descartada. Kavatsiuk disse que uma agência publicitária externa colocou os anúncios no app, mas que isso não será repetido. “A nosso ver, não é a plataforma apropriada.” O centro ainda coloca anúncios no Facebook, no Instagram e no YouTube.

As exposições incluídas no memorial são as que os organizadores consideraram que podem mobilizar o interesse de uma geração que, na maioria dos casos, não chegou a ouvir relatos em primeira mão de pessoas mais velhas. Uma instalação intitulada Campo de Espelhos, por exemplo, tem colunas espelhadas crivadas de balas do mesmo calibre das que foram usadas no massacre. Os visitantes veem seu reflexo crivado de buracos de bala.

Outra é uma pequena sinagoga inspirada no desenho de um livro infantil tridimensional, do tipo pop-up. A estrutura se abre e fecha como um livro, revelando o interior.

O centro tem sido criticado por receber apoio financeiro de dois bilionários petrolíferos russos, Mikhail Fridman e German Khan, que prometeram cerca de metade do financiamento.

Desde os protestos de 2014, a Ucrânia vem sendo um campo de testes das táticas russas ditas de guerra híbrida. Elas misturam desinformação com manipulação das redes sociais, fraudes eleitorais e assassinatos seletivos. A desinformação muitas vezes envolve a difamação do governo pós-2014, qualificando-o de “neofascista”, sendo a descrição usada para justificar a intervenção militar da Rússia na Crimeia e leste da Ucrânia.

“A narrativa que está sendo proposta é de natureza antiucraniana”, disse o historiador Mykhailo Basarab, falando dos planos para Babi Yar. “Existe o receio grande de que o complexo memorial esteja sendo erguido com dinheiro russo com o intuito de expor os ucranianos ao mundo como antissemitas e xenófobos. E isso beneficia [o presidente russo, Vladimir] Putin.”

Os organizadores do memorial dizem que vão levantar 50% dos recursos necessários na própria Ucrânia e destacam que Fridman e Khan têm cidadania dupla russa e israelense.

Umansky afirma que a propaganda política russa seria mais beneficiada se o local do massacre continuasse abandonado, permitindo que o Kremlin caracterizasse os ucranianos como indiferentes aos crimes dos nazistas. Cerca de uma dúzia de planos anteriores de memoriais foram abandonados na era pós-soviética.

Muitas pessoas que visitaram o memorial nos últimos dias expressaram sua apreciação.

“Quero que construam mais locais assim, para que fique mais fácil explicar a meu neto o que aconteceu ali”, comentou Ala Kondratovych, ajudando a criança de quatro anos a olhar por um furinho pequeno em uma das instalações novas. O que se via ali era uma foto histórica de Babi Yar, uma cena aflitiva de pilhas de roupas descartadas pelos mortos.

Usando tecnologia de mapeamento tridimensional, as fotos históricas que o neto de Kondratovych olhou foram colocadas nos locais exatos onde foram feitas em 1941 por um fotógrafo alemão. Com isso, o espectador tem a sensação de estar olhando diretamente para um passado tenebroso.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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