Muito além do chocolate – 29/09/2021 – Zeca Camargo


Nada do que eu havia lido sobre meu roteiro pela Suíça havia me preparado para um pesto de urtiga. Veja: seguimos nesta coluna pelo primeiro país estrangeiro que visitei depois de quase dois anos, não sem me sentir com se estivesse trapaceando numa sessão de análise.

Explico. Tenho uma dificuldade enorme em me lembrar dos meus sonhos. Aliás, durante boa parte da minha vida eu tinha certeza de que nem chegava a sonhar. Foi a terapia que me convenceu do contrário, apesar de nada ter feito para que eu tivesse um registro mais presente do que meu inconsciente fabricava enquanto eu dormia.

Por isso, quando eu conseguia me recordar de algum sonho, ele rendia semanas na minha análise. Está aí o paralelo: com a escassez de viagens, minha ida à Suíça segue me inspirando por aqui.

Essa insistência, porém, não é gratuita. Fiz uma viagem incrível mesmo: em uma semana fui do charme da pequena Lausanne à energia artística de Zurique. E passei, claro, pela atmosfera pastoral dos alpes, visitando o entorno de uma cidade chamada Crans-Montana.

Se você já ouviu falar de lá é porque ou você é um dos seus cerca de mil habitantes, ou é um dos 49 mil turistas que enchem o local nas altas temporadas. Como é possível um lugar assim existir?

Bem, é verdade que boa parte dessa população flutuante agita a vida daquelas poucas ruas no inverno em busca de ótimas pistas de esqui na neve. Mas o verão nesse pontinho nas montanhas do cantão de Valais também é animado.

No corredor das compras —que traz filiais de boutiques que te remetem a princípio para a avenida Montaigne, em Paris, ou à Madison do Upper East Side, em Nova York— o movimento deste fim de verão (europeu) era intenso. Tanto quanto os preços das mercadorias.

A Suíça não é exatamente um destino para quem quer fazer uma viagem em conta. Ao custo de vida elevado, some a desvalorização do nosso real: se você, como eu, não faz conversão dos seus gastos em moeda estrangeira desde fevereiro de 2020, prepare-se para um choque.

Mas, mesmo quem viaja com orçamento apertado pode aproveitar aquela paisagem toda sem custo! Uma vez que você encontra um hotel razoavelmente barato, um passe de trem para andar pelo país todo é bastante acessível. E um almoço ao ar livre como este que comecei a descrever lá em cima também sai de graça.

Claro, ele inclui folhas de urtigas. E, sim, eu estava acompanhado de uma guia que era também montanhista e especialista em botânica. Mas tanto as ervas que colhi —várias além da urtiga (que é até gostosa)—, quanto as framboesas da minha sobremesa estavam lá para nos servirmos.

Um queijo tomme sazonal, recheado com o que os suíços chamam de “alho de urso” (algo como os primeiros brotos de alho que os ursos amam comer assim que a neve derrete) estava na mochila, bem como um pão rústico e um vinho natural de menos de 20 francos suíços. O meu maior trabalho foi macerar todas as folhas que colhi para fazer o pesto.

Depois, foi só apreciar aquela paisagem estupenda a dois mil metros de altura. Os picos nevados estavam ao longe: poucos são os que se mantêm cobertos nesta época do ano. Mas o verde à minha volta era hipnótico. E eu não poderia estar mais feliz com a simplicidade daquilo tudo.

Famílias inteiras passavam por mim fazendo trekking. Grupos de amigos encaravam trilhas mais duras de bicicleta. De vez em quando, uma vaca mugia lá longe. E era, então, que eu lembrava que, no meu almoço de slow food, talvez estivesse faltando um chocolate

Mas quem precisa de um doce na boca quando a própria natureza te alimenta de tudo que você precisa?


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Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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