Mouratoglou conta como é treinar Serena Williams e vê futuro da tenista em aberto – 27/10/2021 – Esporte


Há quase uma década como técnico de Serena Williams, Patrick Mouratoglou, 51, já teve conversas duras com a tenista, viveu muitos momentos especiais ao seu lado e sofreu com derrotas doloridas. Também viu de perto como uma das maiores atletas de todos os tempos levou seus feitos além do tênis.

Enquanto a americana de 40 anos e vencedora de 23 torneios do Grand Slam —recorde da era aberta e um a menos do que Margaret Court— ainda se recupera de uma lesão e não tem data prevista para voltar às quadras, Mouratoglou está pela primeira vez no Brasil.

O francês palestrou em evento do banco BTG e participou de ações com seus clientes. No país, também aproveitou para viajar a lazer e bater bola com celebridades, como Ronaldo Fenômeno e o cantor Thiaguinho.

Na última sexta-feira (22), ele recebeu a reportagem da Folha para esta entrevista, na qual relembrou momentos marcantes da parceria desde 2012 com Serena, comentou as críticas recebidas por Stefanos Tsitisipas —cuja carreira supervisiona— e suas visões sobre o futuro do tênis, além dos planos para a Mouratoglou Academy, um dos principais centros de treinamento do esporte no mundo.

Como você sintetiza a experiência de trabalhar com Serena Williams? É uma honra, claro. Acho que ela personifica como ninguém os valores de alto nível. É incrivelmente ambiciosa, tem uma ótima autoestima, põe a barra muito alta nos treinamentos e se recusa a baixá-la. Seja o que for que ela alcance, no segundo depois esquece para mirar a próxima meta. Acho que nós ajudamos um ao outro. Eu a ajudei a atingir o que ela queria atingir e ela me ajudou muito a crescer como um treinador de tênis. Foi uma situação ganha-ganha e ainda é.

Você conta que teve uma conversa honesta e dura com Serena Williams logo no início da parceria. Foi um momento decisivo para a relação? Acho que ela gostou do fato de eu ter sido capaz de dizer a verdade, porque as pessoas têm medo de dizer a verdade para grandes estrelas. Eu não tive medo e ela me respeitou muito por isso. Ela pensou “eu posso confiar nesse cara porque ele disse a verdade na minha frente, sem ter medo de mim”. Eu disse a ela coisas que não fáceis de ouvir, e ela foi inteligente para colocar as emoções de lado e reconhecer “ok, ele está certo”. Eu disse logo no começo que o desempenho dela estava baixo, que ela já havia feito muito melhor no passado e que não é aceitável ser OK quando você é excepcional. Então colocamos a barra mais alta.

Foi difícil adquirir a confiança necessária para ter essa conversa franca? Para mim não foi difícil, porque eu trato todas as pessoas da mesma forma, não importa quem seja. Não fico intimidado. Trabalhei por muitos anos para ter a confiança que me permitisse lidar com as pessoas. Sou tranquilo e tento tratá-las da forma como gostaria de ser tratado.

Quais foram os momentos mais especiais e os mais duros da sua trajetória com Serena? O mais especial foi Wimbledon-2012, o primeiro título de Grand Slam em que estive como treinador. Quando começamos, ela não ganhava um Grand Slam havia dois anos e tinha perdido na primeira rodada de Roland Garros. Eu pude sentir olhando para ela que, em termos de emoção, era quase como se tivesse ganhado o primeiro Grand Slam. Foi muito especial. E logo depois ela conquistou a medalha olímpica em simples e duplas jogando de uma maneira inacreditável. A derrota mais difícil foi a que ela sofreu na semifinal do US Open-2015 para Roberta Vinci. Se vencesse o torneio ganharia os quatro [Slams] no mesmo ano e cinco em sequência. Foi muito inesperado e difícil. Estava a duas vitórias de fazer história. Levou muito tempo para ela se recuperar dessa derrota, que provocou outras depois porque a machucou muito.

O que você aprendeu com Serena fora das quadras, considerando seu papel de ícone em lutas feministas e antirracistas? Ela nunca teve medo de falar alto onde outras pessoas não fazem isso. Sempre defendeu as pessoas negras e abriu portas. Se você olhar para o tênis nos EUA hoje há muitas mulheres negras jogando, e isso graças a Serena e Venus [Williams], que abriram portas. Ela também projeta a imagem de uma mulher que é uma ótima mãe e uma mulher trabalhadora, com muitas responsabilidades no esporte e nos negócios. Ela personifica e representa muitas coisas e por isso é muito mais do que tênis.

O que ainda podemos esperar de Serena em quadra? É uma boa pergunta, e eu não sei a resposta para ela. Não sei quanto ela quer estar de volta numa quadra de tênis, quanto quer ganhar mais Grand Slams, quanto está preparada para colocar isso como sua prioridade número um. Eu não sei e não estou certo de que ela saiba. Ela no momento está pensando no que quer para o futuro.

Pelo que ela fez até aqui, na sua opinião já pode ser considerada a maior da história? Para mim, os recordes antes da era aberta [até 1968] não significam nada. Eram como partidas de clube. Depois virou um esporte profissional e nos últimos dez anos virou um esporte profissional incrivelmente competitivo. Você tem milhares de garotas querendo se tornar campeãs e trabalhando todos os dias para isso. Para mulheres provavelmente é o melhor esporte, porque você pode ter uma vida muito boa com o tênis. Se você assistir às partidas de 20 anos atrás, 10 anos atrás e as de hoje, estas são muito mais competitivas. Este é o período mais difícil para [jogar] tênis e Serena foi capaz de quebrar os recordes. Então eu acho que tudo já está dito.

As derrotas de Serena para Vinci e a de Novak Djokovic na final do último US Open, quando também poderia vencer os quatro torneios do Grand Slam no mesmo ano, mostram que mesmo os maiores da história sofrem com a pressão? Quando você vai a uma final de Grand Slam sendo número 1 do mundo, a pressão é multiplicada por mil. E quando você joga uma partida para a história, é multiplicada por mais mil. É a situação mais difícil de lutar contra, porque quando você está sob pressão não sente suas pernas, seus braços e se sente perdendo o controle da situação, o que é muito assustador. Campeões como Serena e Novak são excepcionais, os melhores do mundo em lutar contra a pressão em geral, e têm que experimentar a pressão todos os dias, porque sempre que entram em quadra supostamente têm que vencer. A eles não é permitido perder. Mesmo assim, quando a pressão alcança certos níveis, às vezes eles não conseguem lidar da melhor maneira e perdem a partida. Isso é esporte. É muito mais difícil para eles do que para qualquer outro.

Stefanos Tsitsipas foi bastante criticado recentemente por suas longas pausas para ir ao banheiro quando as partidas não estão boas para ele. Existem limites sobre o que se pode fazer mesmo dentro do permitido pelas regras? Se você joga dentro das regras, para mim não há problema. Todos os jogadores, quando estão em quadra, pensam em vencer. Não pensam se o oponente gosta ou não gosta do que ele está fazendo. Rafa [Nadal] leva muito tempo antes de sacar. Ele faz isso contra o oponente? Não. Faz isso porque para ele é bom. Andy Murray leva muito tempo entre o primeiro e o segundo saques. Se a pausa para o banheiro, demorar entre os saques, andar devagar ou rápido ajudarem, mesmo se o seu oponente não gostar, está bem, porque é a regra. O problema com as pausas para o banheiro é que a regra não é clara o suficiente. Eles têm que colocar uma regra, não sei, três minutos e não mais. E aí não haverá discussão. Para o público não deveria ser muito longa [a pausa]. Mas você não pode culpar um competidor por fazer algo que o faz se sentir bem em quadra.

Outra discussão recorrente sobre mudanças de regras é permitir que o técnico possa orientar o jogador em quadra, o chamado “coaching”. Por que você defende essa permissão? Primeiro, porque no circuito a imensa maioria faz isso o tempo todo e é tolerado, os árbitros de cadeira sabem disso e deixam. Se existe uma regra e ela não é respeitada, ou você a faz ser respeitada ou a regra não existe. Para mim, ter uma regra que não é respeitada não faz sentido. Segundo, porque é bom para os fãs, para o show. Em outros esportes, o momento de “coaching” é muito importante, um momento emocionante, em que você entende melhor a estratégia, vê a interação entre jogadores e técnicos e há algumas conversas estimulantes que são motivadoras.

[Na final do US Open de 2018, uma orientação passada por Mouratoglou a Serena provocou enorme discussão entre a americana e o árbitro de cadeira, Carlos Ramos, levando a punições para a tenista por mau comportamento.]

Em 2020, você organizou o Ultimate Tennis Showdown, uma liga com regras diferentes para o placar e alusão a elementos de e-Sports. Por que o tênis precisaria dessas mudanças, ele está chato? Não. Eu amo o tênis da forma como ele é. Não é um julgamento do tênis. Eu apenas olho para os números, a demografia do tênis, e eles são alarmantes. Todo ano a média de idade dos fãs aumenta. Essas pessoas [mais jovens] não consomem conteúdos com formatos longos, lentos, com muitos momentos de inatividade, que não sejam imersivos ou autênticos. Acho que temos que ter duas ligas diferentes. Uma para os fãs tradicionais, com ATP, WTA e Grand Slams, e outra muito mais moderna e emocionante para as novas gerações. Acho que o UTS seria perfeito, porque se as pessoas jovens começarem a amar tênis pelo UTS talvez depois irão assistir também a ATP, WTA e Grand Slams. Mas precisamos trazer os novos fãs, e é um fato que o circuito atual não está fazendo isso.

Como está sua experiência no Brasil? Eu estava muito animado, tenho uma imagem muito boa do Brasil. Realmente amo a música brasileira, bossa nova. Tocava violão quando era adolescente, João Gilberto e suas colaborações com Stan Getz. Fui muito inspirado pela cultura brasileira. Também sou muito fã de Guga. Para nós, na França, Guga é grande porque ganhou Roland Garros muitas vezes e por suas atitudes. Tem sido uma grande experiência e estou animado para conhecer mais.

Além de treinador, você comanda a Mouratoglou Academy, com sedes na França, Grécia e em Dubai. Como funcionam essas unidades? A Mouratoglou Academy no sul da França é um centro de treinamento, onde temos programas de tênis e escolares. São 200 estudantes em tempo integral na academia, que vivem lá e podem ter um modelo escolar francês ou americano. Quando você joga tênis num bom nível, todos os dias tem que controlar o estresse, competir, lutar, trabalhar duro e personificar os valores que foram passados. Não é a teoria, é real, então funciona como um bom complemento para a educação clássica. E também fazemos muitos campos de treinamento para pessoas de diferentes idades e famílias ao longo do ano. O que fazemos em Dubai e na Grécia é operar em grandes resorts. Cuidamos dos clientes deles para que tenham uma experiência pessoal de tênis, mas as pessoas vão lá a lazer e também podem jogar. Na Mouratoglou Academy a razão número 1 é o tênis.

Há planos de trazer a Mouratoglou Academy para o Brasil? É possível, lógico. Sei que vocês tem bons juniores, costumam ter jogadores incríveis, e também jogadores de duplas muito bons. Se tivermos oportunidades, certamente vamos analisá-las, porque é um país muito grande, sei que há muito talento. Acharmos um caminho para ter outro grande campeão aqui seria maravilhoso.

Patrick Mouratoglou, 51

Francês de ascendência grega, o treinador trabalha com Serena Williams desde 2012 e participou de 10 conquistas de Slams com a americana. Antes, treinou nomes como Marcos Baghdatis, Anastasia Pavlyuchenkova e Grigor Dimitrov. Atualmente, supervisiona as carreiras de Stefanos Tsitsipas e Coco Gauff e comanda a Mouratoglou Academy, na Riviera Francesa.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original



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