Morte de migrante expõe crueza de tratamento em centro de detenção na Líbia – 01/01/2022 – Mundo

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Aliou Candé, um jovem de 28 anos vindo da área rural da Guiné-Bissau, tinha o sonho de trabalhar e fazer dinheiro na Europa. As secas prolongadas e chuvas fortes, causadas provavelmente por mudanças climáticas, atrapalhavam as safras que ele plantava em sua terra natal, e suas vacas, cada vez mais magras, mal tinham leite. Mesmo com a esposa grávida de oito meses, a família de Candé o encorajou a ir para a Europa, para onde dois de seus irmãos haviam imigrado com sucesso.

Em fevereiro deste ano, Candé foi capturado pela Guarda Costeira da Líbia enquanto cruzava o mar Mediterrâneo antes que pudesse alcançar a Europa. Ele estava sendo mantido preso havia dois meses em uma das mais brutais prisões de migrantes da Líbia, Al Mabani, e, enquanto tentava evitar problemas, se agarrou ao boato de que os guardas da prisão libertariam os migrantes da sua cela, de número 4, em honra ao período do Ramadã.

Enquanto Candé esperava por esse dia, ele e Tokam Martin Luther, um camaronês mais velho que dormia na esteira ao lado, passavam o tempo jogando dominó. Nesse período, Luther escreveu em seu diário sobre um protesto de mulheres presas: “Elas estão usando apenas roupas íntimas e sentadas no chão porque também exigem ser liberadas”.

Ele e Candé desenvolveram apelidos para os guardas, com base nas ordens que eles davam. Um era conhecido como Khamsa Khamsa, árabe para “cinco, cinco”, que ele gritava durante as refeições para lembrar aos migrantes que cinco pessoas deveriam dividir cada tigela. Outro guarda, chamado Gamis, ou “sente-se”, garantia que ninguém se levantasse. O guarda “Calados” policiava a tagarelice.

A certa altura, Candé e Luther cuidaram de um migrante que parecia estar tendo um episódio psicótico, se debatendo e gritando. “Ele estava tão louco que tivemos de contê-lo para que pudéssemos dormir em paz,” escreveu Luther. Por fim, os guardas levaram o homem para um hospital, mas, três dias depois, ele voltou, mais perturbado do que antes.

Perto do final de março, os guardas disseram que ninguém seria libertado durante o Ramadã. Em seu diário, Luther escreveu: “Assim é a vida na Líbia. Ainda teremos que ser pacientes para desfrutar de nossa liberdade”. Mas Candé ficou arrasado.

Quando ele foi detido inicialmente, a Guarda Costeira de alguma forma havia falhado em confiscar seu telefone celular. Ele o manteve escondido, preocupado e temendo ser severamente punido se fosse pego. No final de março, porém, mandou mensagem de voz para os irmãos pelo WhatsApp, tentando explicar a situação: “Não dá para ficar muito tempo com o telefone aqui. Estávamos tentando chegar à Itália por água. Eles nos pegaram e nos trouxeram de volta. Agora estamos trancados na prisão.”

Ele implorou: “Encontre uma maneira de ligar para o nosso pai”. Então aguardou, com a esperança de que a família juntasse dinheiro para pagar sua libertação.

Poucos dias depois, às 2h do dia 8 de abril, Candé acordou com um barulho: vários detentos sudaneses tentavam abrir a porta da cela 4 e escapar. Preocupado que todos ali fossem punidos, ele acordou Mohamed David Soumahoro, que havia tentado atravessar o Mediterrâneo junto com ele quando o barco deles foi capturado, para perguntar o que fazer.

Soumahoro foi com uma dúzia de outros enfrentar os sudaneses. “Já tentamos escapar várias vezes antes”, afirmou a eles. “Nunca funcionou. Nós só fomos espancados.” Os sudaneses não quiseram ouvir, e Soumahoro disse a outro detido para alertar os guardas, que encostaram um caminhão de areia na porta da cela para bloquear a saída.

Os sudaneses, se sentindo traídos, arrancaram canos de ferro da parede do banheiro e começaram a brandi-los contra quem tinha intervindo. Um migrante foi atingido no olho; outro caiu no chão, o sangue jorrando de sua cabeça. Os grupos começaram a arremessar sapatos, baldes, frascos de xampu e pedaços de reboco uns nos outros. Candé não queria participar da briga e procurou se esconder.

Ele disse a Soumahoro: “Eu não vou lutar. Eu sou a esperança de toda a minha família”. A briga durou três horas e meia. Alguns migrantes gritaram por ajuda, berrando: “Abram a porta!” Em vez disso, os guardas riam e aplaudiam, filmando a luta com seus telefones. “Continuem lutando”, disse um deles, passando garrafas de água pela grade para mantê-los hidratados. “Se puderem matar alguém, façam isso.”

Al Mabani é uma das dezenas ou mais de centros de detenção de migrantes que a Líbia criou como parte de seu esforço para deter migrantes africanos antes que eles cheguem à Europa. Um esforço financiado pela União Europeia e seus países-membros que, há anos, envolve o trabalho da Guarda Costeira da Líbia.

A Guarda Costeira, com barcos, equipamento e autoridade legal reforçada pela Europa, havia capturado Candé, Soumahoro e cerca de cem outros migrantes no Mediterrâneo no início de fevereiro.

Por razões que ninguém sabe, os guardas de Al Mabani mudaram de ideia naquela madrugada. Às 5h30, eles saíram e voltaram com rifles semiautomáticos. Sem aviso, atiraram dentro da cela pela janela do banheiro por dez minutos. “Parecia um campo de batalha”, disse Soumahoro.

Dois adolescentes da Guiné-Conacri, Ismail Doumbouya e Ayouba Fofana, foram atingidos na perna. Candé, que havia se escondido no chuveiro durante a briga, foi atingido no pescoço. Ele cambaleou ao longo da parede, espalhando sangue, e então caiu no chão. Soumahoro tentou estancar o sangramento com um pedaço de pano. Candé morreu minutos depois.

“Os sudaneses finalmente se acalmaram. Nós também nos acalmamos. Todos ficaram chocados”, contou Soumahoro.

Quando o responsável pela prisão, Noureddine al-Ghreetly, chegou, horas depois, gritou com os guardas: “O que vocês fizeram? Vocês podem fazer qualquer coisa com eles, só não podem matá-los!” Os migrantes se recusaram a entregar o corpo de Candé, a menos que fossem libertados, e os guardas em pânico convocaram Mohamed Soumah, um colaborador, para negociar.

Por fim, a milícia concordou com os termos. “Eu, Soumah, vou abrir essa porta e vocês vão sair”, disse ele. “Estarei à frente, correndo com vocês até a saída.” Pouco antes das 9h, os guardas tomaram posição perto do portão com as armas apontadas. Soumah abriu a porta da cela e disse aos 300 migrantes que o seguissem para fora da prisão, em fila indiana, sem falar nada.

Quem estava a caminho do trabalho naquela manhã diminuiu a velocidade para olhar espantado para o fluxo de migrantes que deixava o complexo e se dispersava pelas ruas de Trípoli.

Depois de os detidos da cela 4 terem sido liberados, a notícia da morte de Candé se espalhou rapidamente por Trípoli, chegando até um líder comunitário entre os migrantes. O homem (que pediu anonimato por medo de retaliações) foi com Demba Balde, tio-avô de Candé, até a delegacia, onde receberam uma cópia do relatório da autópsia. O relatório dizia que o nome de Candé era desconhecido e afirmava, erroneamente, que ele era da Guiné-Conacri.

As autoridades sugeriam que ele havia morrido em uma briga, o que irritou o líder comunitário. “Não foi uma briga”, ele me disse. “Foi uma bala.” Mais tarde, os dois foram ao hospital local para identificar o corpo de Candé; ele foi trazido em uma maca de metal, envolto em um pano branco translúcido parcialmente desfeito para revelar seu rosto. Nos dias seguintes, eles percorreram Trípoli pagando as dívidas de Candé, todas contraídas após sua morte: 850 dinares (US$ 188 ou R$ 1.070) para o hospital, 85 dinares (US$ 19 ou R$ 110) para a mortalha branca e roupas para o funeral, 1.064 dinares (US$ 236 ou R$ 1.340) para o enterro que iria acontecer.

A família de Candé soube de sua morte dois dias depois. Samba, seu pai, me disse que mal conseguia dormir ou comer: “A tristeza pesa muito sobre mim.” Desde a partida do marido, Hava tinha dado à luz uma filha chamada Cadjato, que já tem dois anos, e me disse que não se casaria novamente antes de terminar o luto: “Meu coração está partido”.

Jacaria tinha poucas esperanças de que a polícia prendesse os assassinos de seu irmão. “Ele se foi”, afirmou. “Se foi em todos os sentidos.” As condições na fazenda pioraram, com mais enchentes e um trabalhador a menos. Como resultado, Bobo, o irmão mais novo de Candé, provavelmente tentará fazer a viagem para a Europa ele mesmo. “O que mais eu posso fazer?”, me disse.

O assassinato de Candé havia encerrado a tentativa de um migrante de encontrar uma nova vida na Europa, onde poderia ter ganhado dinheiro para sustentar sua família em casa. Mas a história dele não é a única. As Nações Unidas e várias organizações humanitárias há anos documentam o terrível custo humano do trabalho que a Líbia faz em nome da Europa para parar os migrantes. Estupro, tortura, trabalho forçado, extorsão, morte —os investigadores e pesquisadores já registraram de tudo e viram poucas mudanças.

Ghreetly foi suspenso de Al Mabani após a morte de Candé, mas foi reintegrado algumas semanas depois. Por quase três meses, os Médicos Sem Fronteiras, que costumam ajudar migrantes em centros de detenção, recusaram-se a entrar lá. Beatrice Lau, a chefe de missão na Líbia à época, escreveu: “O padrão persistente de incidentes violentos e sérios danos a refugiados e migrantes, bem como o risco para a segurança de nossa equipe, atingiu um nível que não somos mais capazes de aceitar”.

A MSF retomou suas atividades após receber garantias de que não haveria mais violência. Mas, em outubro, as autoridades líbias, incluindo a milícia que controla Al Mabani, prenderam 5.000 migrantes em Gargaresh e enviaram milhares para a prisão. Dias depois, os guardas abriram fogo contra prisioneiros que tentavam escapar, matando seis pessoas.

Após a morte de Candé, Jose Sabadell, embaixador da UE na Líbia, pediu uma investigação formal, que parece nunca ter acontecido. Um porta-voz de Sabadell disse: “As garantias das autoridades líbias de que esses eventos serão investigados e que as ações judiciais cabíveis serão executadas precisam ser traduzidas na prática. Os agressores devem ser responsabilizados. Não pode haver impunidade para tais crimes”.

Mesmo assim, o compromisso da Europa com seus programas antimigrantes na Líbia permanece inabalável. Em 2020, a Itália renovou seu Memorando de Entendimento com a Líbia e, desde março, gastou mais US$ 4 milhões (R$ 22,8 milhões) com a Guarda Costeira do país. A Comissão Europeia comprometeu-se recentemente a construir um centro de comando marítimo “novo e melhorado” e a comprar mais três navios.

Demba Balde, um alfaiate de 40 anos que vivia sem documentos na Líbia havia muito tempo, tinha tentado convencer o sobrinho-neto Candé a abandonar seu plano de cruzar o Mediterrâneo. “Essa é a rota da morte“, Balde disse a ele.

No dia 12 de abril, pouco depois das orações das 17h, Balde e cerca de 20 homens se reuniram no cemitério de Bir al-Osta Milad para o funeral de Candé. O cemitério ocupa um terreno de oito acres entre uma subestação elétrica e dois grandes armazéns. A maioria dos migrantes mortos na Líbia está enterrada lá, e agora há cerca de 10 mil túmulos, muitos deles sem identificação.

Os homens oraram em voz alta enquanto o corpo de Candé era baixado para um buraco cavado na areia, com não mais do que 30 centímetros de profundidade. Eles o cobriram com seis pedras retangulares e colocaram uma camada de concreto. Alguém perguntou se alguém tinha dinheiro de Candé para dar à família, mas ninguém respondeu. Após uma pausa, os homens disseram, em uníssono: “Deus é grande”. Então, um deles, usando um pedaço de pau, rabiscou o nome de Candé no concreto molhado.

Este é o último texto de uma série produzida por The Outlaw Ocean Project em parceria com a Folha que examina a parceria da União Europeia com a Líbia na captura e detenção de migrantes que tentam chegar à Europa.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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