#MeToo na Suécia volta à tona com julgamento – 01/04/2022 – Mundo

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Quase cinco anos depois de ter explodido nos Estados Unidos e se espraiado para boa parte do mundo, o #MeToo voltou ao divã na Suécia. No campeão europeu de igualdade de gênero, o movimento que joga luz sobre casos de assédio e abuso sexual se desdobrou em debates sobre o sistema jurídico, liberdade de expressão e jornalismo.

No mês passado, um caso emblemático do #MeToo sueco voltou à tona, com a absolvição de uma ativista em um dos dois processos de difamação movidos pelo homem que ela acusou, em 2011, de estuprá-la cinco anos antes. A denúncia, investigada na época, foi arquivada sem julgamento por falta de provas.

Em outubro de 2017, quando a onda ganhou impulso nas redes sociais após a imprensa americana revelar os crimes sexuais do produtor de cinema Harvey Weinstein, a atriz e escritora sueca Cissi Wallin, 37, fez um post no Instagram em que anunciava ter sido drogada e estuprada por um jornalista de um importante jornal local, revelando seu nome.

Fredrik Virtnanen nega os crimes e moveu um processo por difamação contra Wallin, que em 2019 foi condenada na primeira instância a dois anos de prisão, além de uma multa de € 9.000 (R$ 46 mil, na cotação atual). O recurso deve ser julgado em outubro.

Nos meses seguintes à decisão, ela escreveu um livro de forma independente em que conta detalhes sobre o caso —sem mencionar o nome do suposto estuprador. Logo após a publicação de “All that Was Mine: The Story that’s Not Allowed to Be Told” (tudo que era meu: a história que não pode ser contada), veio a notícia do segundo processo, pelo mesmo homem e pelo mesmo motivo: difamação.

“Eu escrevi o livro especialmente para falar do processo, sobre como é ser uma vítima de estupro, revelar sua história e aí acabar como sendo a criminosa. Foi como um romance kafkiano”, diz Wallin à Folha, por telefone, dias após a segunda denúncia ter sido rejeitada pela Justiça.

“No caso do livro eu saí livre. A lei sueca vê diferenças entre escrever uma coisa no Instagram e escrever um livro, mesmo que você diga a mesma coisa.” O caso voltou a repercutir depois de um texto de opinião publicado no jornal The New York Times. Contatado pela Folha, Virtanen não quis comentar.

A decisão é só uma das contradições que cercam o #MeToo na Suécia. Outra que chama a atenção tem até nome próprio, dado por organizações civis e estudos acadêmicos: o “paradoxo nórdico”. A expressão se refere à dissonância entre bons indicadores de igualdade de gênero em Noruega, Finlândia, Dinamarca e Suécia e os altos índices de violência contra a mulher nesses países.

O relatório “Hora de Mudar: Justiça para Sobreviventes de Estupro nos Países Nórdicos”, divulgado em 2019 pela Anistia Internacional, aponta motivos que contribuem para o paradoxo nórdico. “Parte do [chamado] mito do estupro é responsabilizar as mulheres por serem submetidas a violência e abuso. A culpabilização da vítima parece ser particularmente tenaz [nesses países]”, afirma o documento.

Em outubro, a organização divulgou outro relatório, centrado na situação sueca, em que diz que o fracasso da prevenção da violência sexual e da garantia de justiça para vítimas de estupro é “um sério desafio à proteção dos direitos humanos de mulheres e meninas na Suécia”.

Em 2018, ainda na esteira do #MeToo, entrou em vigor no país uma lei que define a prática de ato sexual não consensual como estupro, um passo importante para o combate de abusos. De acordo com a Anistia Internacional, como resultado houve um aumento de 75% nas condenações por crimes sexuais —de 190, em 2017, para 333 em 2019.

No entanto, o estudo reconhece que a maioria dos casos nem chega à polícia, pelo despreparo das autoridades para receber denúncias e investigá-las e pela legislação sobre liberdade de expressão e difamação —esta última ilustrada pelo caso de Wallin, que foi processada enquanto o denunciado não chegou a ser julgado.

“A reforma legislativa para lidar com a violência sexual faz diferença quando sobreviventes de violência sexual são rotineiramente dispensadas, questionadas e, em alguns casos, criminalizadas?”, pergunta Caitlin Carroll, pesquisadora da Universidade do Texas que estuda o paradoxo nórdico e o #MeToo na Suécia.

Em artigo para o Conselho para Estudos Europeus (CES), ela escreveu que o sistema jurídico do país, apesar das mudanças recentes, ainda não está preparado para lidar com as histórias das vítimas de abuso. “Precisamos falar mais sobre o que significa acreditar nas mulheres, por que histórias de estupro e agressão sexual são tão rotineiramente rejeitadas como infundadas tanto pelo sistema de justiça criminal quanto pela sociedade e como podemos avançar seguindo o #MeToo.”

A palavra “backlash” (resistência ou reação negativa) é frequentemente usada quando se fala do movimento na Suécia. “Digo, com tristeza, que estamos enfrentando uma resposta negativa, especialmente quando se trata do debate público”, afirma Ester Pollack, professora do Departamento de Jornalismo da Universidade de Estocolmo.

Apesar de ver efeitos duradouros, especialmente em relação à conscientização que o movimento despertou em ambientes de trabalho, ela acredita que faltou organização para que o #MeToo mantivesse a força inicial, marcada por mobilizações de diversos grupos femininos reunidos. “Isso [‘backlash’] se dá quando há um movimento social amplo. Mas, sem liderança, as pessoas foram se organizando de maneiras diferentes e ficou difícil mantê-lo vivo como movimento”, diz.

Cissi Wallin concorda: “Nas primeiras semanas, cada setor teve a própria hashtag: mulheres da indústria da tecnologia, dos restaurantes etc. Mas o que foi visto em outros países, de paralisações, processos contra empregadores, nunca aconteceu na Suécia. Aqui, ficou no papel e na hashtag.”

Outro efeito colateral, segundo Pollack, atraiu atenção própria e acabou por enfraquecer o #MeToo sueco: a cobertura dos jornais na época das primeiras denúncias, de casos que envolviam homens conhecidos e poderosos. “Os tabloides transformaram esse problema estrutural em algo muito individualizado. Demonizaram vidas privadas, e a coisa virou a história de uma ou duas pessoas.”

Segundo a professora, nomes de supostos agressores foram expostos em reportagens baseadas no relato de fontes anônimas e sem uma checagem minuciosa de dados. Em um país com tradição na figura do ombudsman e uma espécie de autorregulação dos meios de comunicação (por meio de um conselho de imprensa), o sensacionalismo em nome de audiência fez com que veículos relevassem práticas éticas vigentes até então —como a de não publicar o nome de suspeitos de crimes antes da condenação.

“O afã fez com que alguns esquecessem tudo sobre ética no momento. E isso também contribuiu para a reação negativa.”

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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