Mercado de livros cresce, mas alta no papel pode atrapalhar – Notícias





O setor livreiro no Distrito Federal e no Brasil vive um momento de respiro após o duro ano de 2020, em que a pandemia da Covid-19 castigou editoras e livrarias. Os dez primeiros meses de 2021 bateram o volume de produção e venda de livros em relação ao mesmo período do ano passado. O faturamento saltou de R$ 1.250.271.327,06 para R$ 1.674.915.594,75, um crescimento de 33,96%, segundo pesquisa feita pela Nielsen BookScan e divulgada pelo Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros).


Na capital federal, grandes marcas, como a Livraria da Travessa e a Livraria da Vila, preparam-se para ocupar o vácuo deixado pela quebra da Livraria Cultura. Livreiros autônomos também veem oportunidade nas chamadas livrarias de bairro, como a Circulares, que funciona há cerca de dois meses na quadra 113 Norte. Editores e representantes do setor, entretanto, olham com cautela os bons ventos. Os preços no mercado dependem do papel, que teve um aumento de 21% nos últimos dias, e do frete das transportadoras – por sua vez, atrelado ao preço do combustível, que vem sofrendo altas frequentes nos últimos meses.


Presidente do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal, Marcos Linhares faz uma análise fria dos números divulgados pelo Snel. Em 2019, o faturamento ficou na faixa de R$ 1,3 bilhão, caindo para R$ 1,2 bilhão em 2020, uma perda de 5,2%. “Se olharmos para o que aconteceu em 2020, é natural que em 2021 os setores tenham uma reação maior. Em 2020, tínhamos uma realidade, as pessoas consumiam livros pela internet e as livrarias estavam fechadas”, lembrou.


“Enfrentamos uma crise anterior à da Covid. Tivemos a quebra dos dois maiores grupos livreiros do Brasil, a Saraiva e a Cultura. Já vínhamos em um processo difícil quando vieram a pandemia e o fechamento das livrarias. Dá para imaginar o impacto nas vendas. As pessoas ainda gostam de ir à livraria. Essa recuperação, em primeiro lugar, é boa, mas normal. Com a reabertura das livrarias, as pessoas vão voltar a consumir”, avaliou.



Comparativo



Marcos Linhares compara o mercado do DF com o de Pernambuco. Os dois têm demonstrado crescimento, mas ficam fora do circuito Rio de Janeiro-São Paulo, que é o mais forte do país. A bienal pernambucana, que ocorreu de 1º a 12 de outubro e teve a presença do sindicalista, bateu recorde de circulação, com mais de 350 mil pessoas e cerca de R$ 12 milhões em vendas. “Os números são reais. Estamos reagindo. Mas ninguém toca na questão do preço do papel. Não tem como esse preço não impactar o do livro. E tem aumento de gasolina, disso, daquilo… Chega ao papel e chega aos livros, que, por enquanto, estão represados”, lembrou.


Isso significa que editoras e livrarias têm preferido diminuir a margem de lucro e garantir o acesso ao produto. Por outro lado, de acordo com Linhares, aumentou a procura de pessoas interessadas em publicar os próprios livros. O balanço final, para ele, é positivo. “As pessoas também estão lendo mais, pois têm ficado mais em casa. Acho que, apesar de tudo isso, as pessoas escreveram mais, aumentou o fluxo de oferta de livros, e acho que o mercado vai resistir. Livro é um produto essencial. A projeção do Snel é real, mas ainda pode melhorar, apesar da alta [do preço] do livro”, pontuou.


“Esse cenário deve se repetir no DF e no Brasil. O DF vende bons livros, com um bom número de vendas, e o grupo da Livraria Leitura na cidade não para de crescer. E agora a vinda da Livraria da Vila e da Livraria da Travessa é sinal de que o DF tem um mercado interessante. E as livrarias de rua estão voltando aos poucos. É alvissareiro ter livreiros se arriscando, tendo coragem de voltar para o negócio. As livrarias de rua são pequenas e trazem uma experiência maior com o livro, o que as grandes redes não oferecem”, elogiou.



No mercado



As sócias Camile Sahb e Ariane Frances, da Circulares, viram na ausência de livrarias de rua a oportunidade de um mercado reprimido. Elas não disputam com as grandes marcas nem com a venda de internet. A intenção é o contato direto com o leitor e oferecer a ele a expertise para indicar obras selecionadas por uma curadoria e títulos que ampliem as possibilidades de leitura dos fregueses. “A pandemia intensificou a necessidade de um espaço de literatura na cidade. De encontro de pessoas, autores, leitores, de diálogo entre essas pessoas”, avaliou Ariane.


“Acho que a decisão de abrir a livraria veio exatamente porque, antes de sermos livreiras, somos leitoras. Sentimos muita falta de livrarias de rua, como em São Paulo. É uma constatação e uma necessidade ter uma livraria que [ofereça], além dos livros em si, que você pode tocar, cheirar, folhear, [a possibilidade de] ter a emoção de um lançamento, ter uma curadoria que relacione escritores. Se a pessoa gosta de Jorge Amado, pode encontrar um autor parecido da Noruega”, exemplificou.


Camile concorda. “As vendas estão boas. É o momento em que as pessoas estão saindo de casa, em busca de um respiro das telas. A livraria tem sido bem recebida. E buscamos ser um ponto cultural. Abrimos há dois meses. Temos um espaço pequeno. Não temos pretensão de aumentar. Queremos manter os custos básicos para investir na curadoria em livro. O cenário econômico preocupa. Temos inflação, desemprego, um cenário que não é animador. Mas, com planejamento e pé no chão, vamos ver como conseguimos”, ponderou a sócia.



A missão do livreiro



Sócio-diretor da Livraria da Travessa, Rui Campos destacou que a venda pela internet ajudou a empresa a sobreviver. Para ele, porém, a facilidade não substituiu o prazer das pessoas de frequentar livrarias e bibliotecas. A primeira experiência da marca com a capital foi no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), onde permaneceu por cerca de um ano. “Ficamos por um ano. Tínhamos vontade de ficar em Brasília, mas era uma operação tímida, que não se sustentava. Mas, com essas mudanças [no mercado] e o fechamento da Cultura, abriu-se um campo muito interessante”, avaliou.


A Travessa tem como proposta, mesmo ocupando um espaço de shopping, apresentar um acervo qualificado e uma experiência de bairro. Rui Campos lembrou que a capital tem um público leitor atraente para as livrarias, mas que o país precisa formar mais leitores. “É um desafio que deveria ser preocupação de todos. Educação, educação e educação. Essa é a grande preocupação. E o Brasil vem trabalhando muito mal com isso. Então, é uma pena pensar que grande parte da população não foi fisgada pelo desejo da leitura. E esse é o grande papel do livreiro”, lembrou.


“A pessoa pode passar a vida inteira sem ter essa curiosidade da leitura. Mas, em geral, quando ela descobre a leitura, é para sempre. E ainda tem a questão socioeconômica, que torna difícil o acesso ao livro”, completou Campos.




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