Medo vira aposta em eleição na Virgínia, termômetro do futuro político dos EUA – 30/10/2021 – Mundo

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“Não, não! Não vaiem”, pediu Barack Obama. “Não vaiem. Votem! Saiam daqui e votem.” O apelo do ex-presidente foi feito no último dia 23, a um público que se aglomerou para vê-lo em Richmond e reagiu com revolta a declarações sobre os riscos de uma vitória republicana na eleição para governador da Virgínia.

“[A votação] é uma escolha que definirá não só os próximos anos, mas as próximas décadas da história humana”, disse, em discurso que intercalou piadas sobre a vida conjugal e alertas sobre a civilização estar em perigo. O pleito —que recebe votos de forma antecipada e será concluído nesta terça (2)— desperta atenção nacional por já ter servido como indicador do futuro eleitoral no país.

Em 2008, Obama conquistou a Casa Branca com uma vitória marcante e viu, no ano seguinte, os democratas perderem o governo da Virgínia. Em 2010, então, os republicanos venceram de forma abrangente as chamadas “midterms”, eleições legislativas de meio de mandato, e retomaram o poder no Congresso, travando boa parte das propostas do então presidente nos anos seguintes.

Em 2017, deu-se o contrário: os democratas venceram na Virgínia um ano depois de Donald Trump chegar ao poder e, no ano seguinte, reconquistaram o controle da Câmara nas “midterms”.

Neste 2021, o partido do presidente Joe Biden teme que uma derrota no estado possa significar nova mudança de ventos. Em seu primeiro ano de mandato, o democrata tem enfrentado dificuldades, como a caótica retirada das tropas do Afeganistão, uma nova onda de Covid e a demora em aprovar pacotes de investimentos no Congresso —questão que, diga-se, enfrenta desafios mesmo dentro de sua legenda.

Assim, para buscar a vitória, o partido tem enviado figuras de peso para fazer campanha na Virgínia. Além de Obama e do próprio Biden, foram ao estado a vice-presidente Kamala Harris e Stacey Abrams, ex-congressista da Geórgia que liderou campanhas para ampliar o acesso ao voto.

“Os democratas tentam mobilizar eleitores jovens e não brancos, que geralmente não votam quando não há eleição presidencial”, diz Alex Keena, professor de ciência política na VCU (Virginia Commonwealth University). O comparecimento em pleitos locais costuma ficar entre 25% e 30%, metade do registrado em disputas pela Casa Branca.

Como parte da estratégia, Obama fez seu comício no campus da VCU, em Richmond. Ele discursou ao lado de Terry McAuliffe, democrata que foi governador de 2014 a 2018 e busca um novo mandato —o estado não permite reeleição consecutiva.

McAuliffe, 64, fez carreira no setor bancário. É próximo da família Clinton —gerenciou a campanha de Hillary pela candidatura democrata à Presidência em 2008— e, no governo, melhorou a economia local e fez o sucessor. Na vida empresarial, envolveu-se em negócios um tanto controversos, como a venda de uma empresa com sede em Bermudas que viria a falir na sequência, deixando 12 mil desempregados.

O democrata, que se coloca como defensor de direitos civis, tinha boa vantagem no começo da campanha, mas as pesquisas na reta final mostram um empate técnico com o republicano Glenn Youngkin, 54, ex-presidente do grupo de investimentos Carlyle. Em sua primeira campanha eleitoral, ele vem ganhando eleitores conforme reforça a posição em temas conservadores.

Em resposta, os democratas dizem que Youngkin poderá restringir direitos como o do aborto, como ocorreu no Texas neste ano. “Vamos sentar e assistir a todo o progresso que tivemos ser destruído? Vamos nos tornar o próximo Texas? A próxima Flórida?”, questionou em um discurso recente Eileen Filler-Corn, presidente da Câmara estadual.

No comício de Obama, o tema foi abordado pelos presentes. “Acesso a saúde é um direito humano, assim como a escolha da mulher sobre seu corpo. É vergonhoso o exemplo do Texas, de políticos tomarem decisões pelas mulheres”, diz Rhawny Leach, 29, moradora de Richmond.

Do outro lado, os republicanos prometem aumentar o poder dos pais sobre o conteúdo escolar, depois que o candidato democrata defendeu a autonomia dos professores. “McAuliffe quer que o governo fique entre os pais e seus filhos”, acusou Youngkin. O republicano quer que familiares possam vetar o acesso a livros que tenham relatos de sexo e que os professores deixem de ensinar conteúdos com viés racial.

“Alguns republicanos acham que as escolas estão ensinando os estudantes a serem racistas contra os brancos, o que provavelmente não é verdade, mas funciona como uma convocação para pessoas brancas e racistas votarem”, avalia Alex Keena. O professor compara o quadro com os anos 1960, quando a Justiça determinou o fim da segregação racial nas escolas do país, e alguns políticos —a maioria democratas— prometiam barrar a mudança para ganhar votos.

O racismo tem longo histórico na região. A Virgínia foi um dos estados que tentaram se separar dos EUA em 1861, para manter a escravidão vigente, o que deu origem à Guerra Civil. Richmond foi a capital da Confederação, espécie de novo país formado pelos estados do sul, derrotado e reincorporado em 1865.

Hoje, o eleitorado da Virgínia costuma se dividir de modo geográfico: moradores do interior votam mais nos republicanos, enquanto nas grandes cidades, como Richmond e Arlington (vizinha a Washington), há preferência maior por democratas. No ano passado, Biden venceu no estado com vantagem de dez pontos percentuais, mas atualmente 53% desaprovam sua gestão, segundo o jornal The Washington Post.

No dia 23, Youngkin também fez um comício, em um centro comercial nos arredores da capital, com uma ambientação rural e um palco sobre a grama. O público era recebido por voluntários com camisetas com a estampa “Farmers for Youngkin” (fazendeiros por Youngkin).

A maioria dos presentes era de pessoas idosas e famílias brancas. “Estou indecisa, mas Youngkin ter uma posição pró-vida [antiaborto] pesa muito para mim”, afirmou Mary, 67, que não quis informar o sobrenome. Outro apoiador, Michael Kelci, 72, destacou questões religiosas. “Deus vai dar a vitória a ele”, disse, segurando um crucifixo.

O comício começou com uma oração e o hino dos EUA. Apesar do frio de 13 °C, Youngkin vestia uma camisa e colete vermelho. Com fala empolgada, ele busca repetir o modelo do empresário que não é político, capaz de governar como quem toca uma empresa. Promete baixar o custo de vida ao reduzir impostos, afrouxar regras trabalhistas para gerar empregos e reforçar o ensino de matemática.

“Nos últimos oito anos, estados vizinhos têm crescido até 120% mais rapidamente do que a Virgínia. No meu mundo, se seus competidores crescem 120% a mais, você é demitido. Os democratas deveriam ser demitidos”, disse o republicano, ecoando o bordão de Trump no programa “O Aprendiz”.

Não por acaso, Youngkin recebeu apoio público do ex-presidente, mas tem buscado um equilíbrio complexo entre tentar não se associar a sua figura e não afugentar eleitores ainda ligados a ela. Steve Bannon, ex-estrategista do político, fez um comício a favor do candidato, no qual o ex-presidente participou por telefone —o próprio Youngkin não compareceu.

Trump não foi citado no ato do dia 23, mas seu nome aparecia em camisetas e bonés dos apoiadores, bem como suas ideias. “Tenho certeza de que a eleição de 2020 foi roubada”, disse James Manship, 68, que estava fantasiado do ex-presidente George Washington. “Faltam meios para auditar os resultados, e temo que possa acontecer algo nesta votação também.”

Youngkin buscou fugir do tema no começo da campanha, mas depois disse acreditar que Biden venceu de forma justa. Ao mesmo tempo, fala em reforçar a integridade eleitoral e garantir a contagem de todos os votos —para acalentar o público que acredita em teorias de fraude, para as quais não há provas.

A eleição na Virgínia também servirá para atestar o quanto a ideia de questionar resultados das urnas continua capaz de atrair apoios ou vaias.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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