Médico referência mundial em tratamento de concussões no esporte é acusado de plágio – 03/04/2022 – Esporte

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Por mais de duas décadas, Paul McCrory foi o médico que mais influenciou os protocolos para avaliação de concussões usados por ligas e organizações esportivas de todo o planeta.

Como líder do Concussion in Sport Group (CISG, sigla em inglês para Grupo de Concussão no Esporte), McCrory ajudava a selecionar os integrantes para o grupo e a escrever a declaração de consenso quadrienal sobre as mais recentes pesquisas com relação a concussões –uma verdadeira bíblia para as ligas, preparadores físicos, médicos do esporte e acadêmicos, certa vez definida por um porta-voz da NFL como “a fundação de toda as pesquisas relacionadas ao esporte”.

Mas o status de McCrory como um dos guardiões dos tratamentos e pesquisas quanto a concussões está sendo contestado, agora que ele está diante de múltiplas acusações de ter plagiado outros cientistas, em alguns casos em artigos para uma publicação cientifica da qual ele era o editor. O médico negou ter intencionalmente reproduzido textos alheios sem crédito, e definiu um artigo, que foi tirado de circulação depois da descoberta de plágio, como “um incidente isolado e infeliz”.

O escândalo que o renomado médico está enfrentando despertou questões sobre o relacionamento entre ele e as ligas esportivas e sobre a influência que ele pode ter exercido sobre a interpretação das pesquisas quanto a traumas cerebrais e cranianos. McCrory por muito tempo expressou dúvidas sobre a legitimidade da ETC (encefalopatia traumática crônica).

“É preocupante porque ele tinha uma posição de liderança na redação da declaração de consenso, um documento muito importante, e deveríamos ter acesso ao seu processo de raciocínio”, disse Kathleen Bachynski, professora de saúde pública no Muhlenberg College, que já publicou trabalhos sobre traumas cranianos e cerebrais no esporte. “A agenda de pesquisa de McCrory e as declarações e trabalhos publicados dele como testemunha especializada vêm de um ponto de vista de minimizar a importância da ETC.”

A importância de McCrory cresceu à medida que as ligas esportivas começaram a buscar uma opinião de consenso sobre as concussões.

A ascensão do médico ao poder nos círculos de pesquisas sobre a concussão é notável porque ele trabalha na Austrália, longe dos centros de pesquisa que estudam traumas cerebral e craniano nos Estados Unidos e Europa.

Neurologista do Instituto Florey de Neurociência e Saúde Mental, McCrory trabalhou por 15 anos como médico do Collingwood Football Club, um clube de futebol australiano de Melbourne, a partir de mais ou menos 1990.

Ele se tornou consultor da Australian Football League e da F1 e organizações de boxe, rúgbi, futebol, além entidades esportivas, entre as quais o COI (Comitê Olímpico Internacional), a Fifa e a Federação Internacional de Hóquei no Gelo, desde o começo deste século.

McCrory expandiu sua influência escrevendo centenas de artigos publicados em revistas científicas, muitas vezes com base em pesquisas de outros médicos, e como editor do British Journal of Sports Medicine entre 2001 e 2008, o que permitiu que ele escrevesse editoriais e ajudasse a decidir que artigos seriam publicados.

A estatura de McCrory cresceu em todo o mundo por conta de sua posição no Concussion in Sport Group. Ele raramente fala à imprensa, que acusou de distorcer os perigos das concussões de uma maneira que “cria um senso de medo”, criticou pesquisadores da Universidade de Boston que realizaram a maioria dos trabalhos existentes sobre a ETC, e classificou os efeitos das concussões como “transitórios”.

Peter Jess, que representa antigos jogadores da Australian Football League que estão lutando por benefícios, vêm lutando contra McCrory e a liga há anos. Jess disse que McCrory lança dúvidas com relação à ETC ao dar a entender que os problemas neurológicos de jogadores podem se relacionar a abuso de álcool ou drogas, ou a fatores genéticos.

Jess comparou a abordagem de McCrory ao “manual seguido pelas grandes companhias de tabaco”, e questionou se as conexões entre o médico e as grandes organizações esportivas não teriam influenciado seu julgamento.

McCrory foi membro fundador do grupo de concussão, que divulgou sua primeira declaração de consenso em uma reunião de 2001 organizada pela Federação Internacional de Hóquei no Gelo, o COI e a Fifa. À medida que o mundo do esporte se conscientizava mais e mais sobre os resultados de pesquisas quanto aos efeitos em longo prazo de concussões, a partir da metade da década passada, as ligas esportivas começaram a buscar recomendações do grupo, que se definia como um colegiado de líderes científicos que oferecia consenso quanto às pesquisas mais recentes.

“Enquanto isso, o esporte parecia satisfeito em permitir que isso continuasse, porque se tratava de ‘especialistas independentes e lideres nas pesquisas sobre concussões’, que lhes ofereciam orientação setorial sobre como administrar concussões”, disse Willie Stewart, neuropatologista do Queen Elizabeth University Hospital, em Glasgow, que opera o maior banco de cérebros relacionados ao esporte da Europa.

A primeira declaração de consenso divulgada pelo grupo de concussão, em 2001, tinha 10 autores. Em 2016, quando a quinta e mais recente foi divulgada, a lista de autores tinha crescido para 36, e incluía Richard Ellenbogen, na época um dos presidentes do comitê de lesões de cabeça, pescoço e espinha da NFL, e Allen Sills, que se tornou vice-presidente de medicina da liga em 2017.

Mas à medida que o impacto do grupo crescia, um número maior de seus membros passou a ser sustentado pelas ligas esportivas que o grupo deveria aconselhar. Esses relacionamentos levaram críticos a questionar se a organização seria realmente capaz de oferecer uma interpretação rigorosa e imparcial das pesquisas existentes quanto a traumas cranianos e cerebrais.

“Não existe base para dizer que isso é um consenso quando é um consenso entre pessoas que receberam muito dinheiro para chegar a uma determinada opinião”, disse David Michaels, ex-secretário assistente do trabalho na Administração da Saúde e Segurança Ocupacional do governo federal americano e autor de “The Triumph of Doubt: Dark Money and the Science of Deception”. “Isso pode não significar que eles estejam ocultando intencionalmente a verdade. Mas todos sabemos que o interesse financeiro pode cegá-los para o que existe na realidade.”

A primeira acusação de plágio contra McCrory se relaciona a um editorial que ele escreveu em 2005 para o British Journal of Sports Medicine, do qual era editor na época. No entanto, Steve Haake, professor de engenharia do esporte em Sheffield, Inglaterra, percebeu que cerca de metade do artigo tinha sido copiado de um texto publicado por Haake cinco anos antes na revista Physics World.

A publicação decidiu não levar o caso adiante. No ano passado, Haake levantou a questão junto ao British Journal of Sports Medicine, que oito meses mais tarde, em 28 de fevereiro, retirou o editorial de McCrory por conta de “uma violação de direito autoral ilegal e indefensável”.

Haake não ficou satisfeito com essa resposta.

“Eu gostaria que houvesse alguma punição para um plágio tão gritante, como acontece quando um estudante comete esse tipo de infração”, Haake escreveu no site Retraction Watch. “Se qualquer pessoa pode roubar nossas palavras a qualquer momento e escapar impune, qual é o ponto?”

McCrory não respondeu a um pedido de comentário, mas disse ao Retraction Watch que o exemplo de plágio era “um caso isolado”. Àquela altura, Nick Brown, médico que opera um blog muito popular documentando falhas em pesquisas publicadas, havia identificado dois outros trabalhos publicados por McCrory no British Journal of Sports Medicine que aparentavam ter sido plagiados. McCrory disse que em um deles, um rascunho de artigo tinha sido subido para a internet prematuramente e que ele tinha pedido que a publicação o retirasse. No outro, a composição do texto não incluiu as aspas necessárias.

“Nos dois casos, os erros não foram deliberados ou intencionais, mas ainda assim requerem correção, já que aquilo que foi publicado é plágio”, disse McCrory ao Retraction Watch. “Uma vez mais, peço desculpas pelo meu erro”.

De lá para cá, Brown publicou ainda mais exemplos de McCrory reproduzindo trechos inteiros de trabalhos de outros autores, sem atribuição. Chris Nowinski, fundador da Concussion Legacy Foundation, mencionou outros exemplos de distorção por McCrory de dados de pesquisadores da Universidade de Boston sobre a gravidade da ETC.

“Jamais vi alguém cometer os erros que McCrory cometeu ao referenciar nossos estudos, o que inclui integrantes da mídia sem treinamento médico, blogueiros ou mesmo leigos em suas contas de mídia social”, escreveu Nowinski.

Uma porta-voz da empresa que publica o British Journal of Sports Medicine declarou que a publicação “está estudando as acusações e investigará e agirá de acordo”.

Com o número de acusações de plágio crescendo cada vez mais, McCrory renunciou este mês ao seu posto no grupo de concussão. Autoridades regulatórias de medicina na Austrália reconheceram que ele tinha sido “impedido de realizar procedimentos de neurodiagnósticos” em maio de 2018, sem acrescentar os motivos para essa decisão. Jess disse que McCrory examinou 10 de seus clientes depois dessa proibição.

O empregador de McCrory, o Instituto Florey, afirmou em comunicado que os artigos em questão tinham sido publicados em 2005, antes de ele começar a trabalhar lá, mas que o instituto “trata todas as questões concernentes a integridade científica com a maior seriedade”. Uma porta-voz se recusou a informar se McCrory seria penalizado.

Porta-vozes da Fifa e da World Rugby declararam que as organizações tão revisando seu relacionamento com o grupo de concussão. A Australian Football League não tem mais vínculos formais com McCrory, mas continua a trabalhar com três aliados dele que também assinaram a mais recente declaração de consenso. A liga não respondeu a um pedido de comentário.

Por enquanto, o grupo de concussão afirma que continuará o seu “trabalho, centrado no conteúdo científico da conferência de consenso” a ser realizada no final deste ano em Amsterdã, disse Jiri Dvorak, antigo vice-presidente de medicina da Fifa e um dos membros fundadores do grupo.

As acusações de plágio são as mais sérias a solapar a credibilidade de McCrory quanto aos efeitos em longo prazo de golpes repetidos na cabeça e ETC, e há quem diga que isso pode forçar as organizações esportivas a reconsiderar as orientações que ele e outros médicos estabeleceram.

“A declaração de consenso oferece uma cobertura de respeitabilidade para uma conspiração de figuras bem relacionadas”, disse Stephen Casper, que escreveu sobre a história das lesões cranianas e cerebrais no esporte, depôs em favor de antigos jogadores de hóquei da NHL em um processo sobre concussões e é um perito envolvido em processos contra a NCAA, a confederação americana de esportes universitários, a Rugby League e a Rugby Union. “Todos os autores estão maculados por McCrory”.

Reformular o grupo de concussão será difícil, no entanto, porque desde o começo ele vem contando com o apoio de organizações que veem as lesões cerebrais e cranianas de atletas como ameaça à sua existência. O grupo não é uma organização independente com eleições abertas ou rotação de especialistas e, mesmo com a saída de McCrory, restam muitos de seus aliados que assessoraram, trabalharam para ou receberam verbas de pesquisa da Fifa, COI, NFL, NHL e outras organizações.

Mesmo assim, alguns membros veem uma oportunidade para que o grupo se torne mais transparente sobre potenciais conflitos de interesse, responda publicamente a perguntas sobre suas conclusões e incorpore opiniões de neuropatologistas, especialistas em saúde pública e epidemiologistas que refletem melhor os aspectos científicos da ETC.

“Com Paul excluído do grupo, existe uma oportunidade”, disse Robert Cantu, integrante do grupo e professor clínico de neurologista e neurocirurgia na Escola de Medicina da Universidade de Boston.

Bachynski assinou um editorial no Journal of Law, Medicine & Ethics em 2021 apelando que o grupo de concussão se tornasse mais transparente. Ela argumentou que cortar os elos que vinculam o grupo às organizações esportivas que o financiam também é fundamental.

Como exemplo, ela disse, “nós na saúde pública temos uma regra realmente severa de que não vamos aceitar orientação sobre tratamento de saúde” para questões associadas ao tabaco “de uma organização de saúde financiada pela Philip Morris”.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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