Livro narra saga dos criadores da vacina Pfizer/BioNTech – 02/05/2022 – Ciência

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A pandemia da Covid mostrou a importância de ter investimentos extensos e constantes em ciência, bem como fortalecer os sistemas de vigilância epidemiológica e de comunicação de doenças transmitidas por animais (as chamadas zoonoses).

Foi devido a ela também que cientistas, médicos e pesquisadores ganharam evidência na sociedade, se tornando figuras públicas que ajudaram a entender como o vírus evolui e como as vacinas podem nos proteger do patógeno.

Um desses exemplos é o casal de cientistas donos da empresa alemã BioNTech, que ficou mundialmente conhecida pela parceria com a farmacêutica Pfizer no desenvolvimento da vacina contra Covid.

A história dessa descoberta é contada no livro “A Vacina”, de Joe Miller, repórter do Financial Times. Miller acompanhou por dez meses o cotidiano do casal Ugur Sahin e Ozlem Tureci, fundadores da BioNTech e pesquisadores por trás da tecnologia inovadora de RNA mensageiro (mRNA) utilizada no imunizante.

Ambos de origem turca radicados na Alemanha, eles tinham como objetivo de vida encontrar uma forma de curar o câncer, motivo pelo qual pesquisavam nos últimos 30 anos formas de usar o mRNA como tratamento para combater as células tumorais.

Apesar dos avanços, a dificuldade em conseguir recrutar voluntários para os testes clínicos —uma vez que era necessário que os doentes fossem terminais e não estivessem em tratamento para a doença— e o financiamento escasso travaram essa descoberta nas últimas décadas, e a tecnologia era vista por farmacêuticas tradicionais como “improvável de obter sucesso”.

Isso foi até 2020, quando conseguiram criar, iniciar e avançar em estudos clínicos que comprovaram a segurança e eficácia do imunizante para uma doença altamente infecciosa que acarretou, até o momento, em mais de 6 milhões de vítimas em todo o mundo.

Essa história é contada de forma minuciosa, com depoimentos de dezenas de pessoas, desde funcionários da BioNTech até autoridades de saúde alemãs e europeias, que se envolveram diretamente no processo de aprovação de uso condicional da vacina —cujo nome oficial é BNT162b2.

No início, a própria história de sucesso da vacina era uma incógnita. Questionado sobre isso, Miller disse que pensava que iria relatar os passos e obstáculos encontrados no desenvolvimento de uma vacina e por que ela teria falhado. “Como jornalista em Frankfurt, era meu dever acompanhar as empresas alemães que estavam investigando uma vacina contra a Covid, mas essa era uma de centenas em estudos. No começo de 2020, acho que ainda havia poucos motivos para acreditar que ela teria tamanho sucesso”, disse o jornalista em entrevista por vídeo à Folha, em março.

No entanto, a história felizmente teve um final contrário. A vacina da Pfizer/BioNTech foi a primeira a ter os resultados de um ensaio clínico de fase 3 divulgados mundialmente. No dia 9 de novembro de 2020, as empresas emitiram um comunicado à imprensa (e aos seus investidores) para anunciar os resultados preliminares do estudo, cuja eficácia era “superior a 90%”, o que fez com que as ações da Pfizer na bolsa de valores subissem mais de 1,2%. Nove dias depois, os resultados do estudo confirmariam uma eficácia de 95% e, em 8 de dezembro do mesmo ano, o imunizante seria injetado pela primeira vez em uma pessoa saudável, resultando na produção de um fármaco em tempo recorde em toda a história da vacinação.

A grande expectativa em cima da vacina que combatesse o “inimigo invisível” e ajudasse a salvar vidas estava também envolta em um otimismo contido dos fundadores que, apesar de não saberem se ia dar certo ou não, “precisavam tentar de todo modo” fazer algo que tirasse a todos da pandemia. “É verdade que eles são duas pessoas normais, mas, ao mesmo tempo, são pessoas extraordinárias, e dificilmente teremos uma situação igual a esta vivida durante a pandemia”, descreve Miller.

A cada barreira vencida —os testes em modelos animais mostraram que a vacina era segura e não causava efeitos colaterais em roedores até os primeiros resultados em humanos— a certeza de que a combinação de anos de estudo aperfeiçoando uma tecnologia nova aliado ao rigor científico inabalável —característica talvez mais de Sahin do que de Tureci— iria trazer bons resultados só aumentava. “Quando as pessoas perguntam como tivemos uma vacina em menos de um ano, a verdadeira resposta é que não foi nesse tempo, ela levou 30 anos para ser feita, e o livro explica isso através dos olhos deles”, afirma.

Mas a corrida pela vacina teve também um sabor amargo. Assim como no Brasil e nos Estados Unidos, na Alemanha muitos se colocaram contrários à ideia de uma vacina que, segundo as fake news em circulação, pudesse “alterar o DNA humano”. O resultado é que tanto funcionários da BioNTech quanto autoridades de saúde receberam ameaças e mensagens de ódio, similar ao que houve aqui com os técnicos da Anvisa.

De fato, o livro passa a impressão de Sahin e Tureci serem dois cientistas nadando contra a corrente, ou seja, as dificuldades em conseguir convencer investidores ainda em 2020 a injetarem dezenas de milhões de dólares em sua empresa, cujo resultado —agora já sabemos— foi ser a empresa que mais cresceu em toda a Alemanha durante a pandemia.

Descritos como pessoas comuns e extremamente detalhistas, os dois são, na verdade, a forma mais pura de um cientista que se pode imaginar: trabalhavam em cima da tentativa e erro e da análise de provas para refutar ou não hipóteses. A parte “burocrática”, que incluía ir atrás de fundos de pesquisa, lhes interessava menos do que a pesquisa básica.

O que temos ao final é um livro de divulgação científica voltado para um público que já consome ciência ou então possui um interesse enorme em áreas afins, dificilmente alcançando um público que é alheio à pesquisa farmacêutica ou biomédica.

Ainda assim, reviver em detalhes a história de uma candidata na corrida de vacinas contra Covid e, hoje, vendo como ainda buscamos reforços constantes e meios de combater as novas variantes do vírus, nos faz lembrar como a ciência não é feita de promessas e palavras vazias, mas sim com a busca meticulosa de acertos e erros em laboratório e apresentação das suas descobertas aos avaliadores externos.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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