Jovens na Tailândia vestem crop-top para zombar da monarquia, que se irrita – 09/01/2022 – Mundo

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No auge dos protestos democráticos na Tailândia, jovens ativistas organizaram um falso desfile de moda brega Passarela do Povo numa rua de Silom, bairro de Bangkok conhecido como centro da vida noturna gay.

Um dos modelos que deslizou pelo tapete vermelho em 29 de outubro de 2020 foi Sainam, 16, vestindo um crop-top preto, uma peça para ginástica que o rei Maha Vajiralongkorn foi fotografado usando em suas estadas na Alemanha e na Suíça.

A Passarela do Povo deveria ser uma provocação satírica à filha do rei, princesa Sirivannavari Nariratana, estilista de moda que apresentava um desfile na mesma noite em outra parte de Bangkok.

Foi uma das muitas manifestações organizadas no segundo semestre de 2020, quando jovens manifestantes fizeram história na Tailândia, exigindo limites ao poder do rei, cujo papel no topo da ordem constitucional raramente é contestado em público. Os ativistas estavam testando os limites da dura lei de lesa-majestade do reino, que considera um crime punível com até 15 anos de prisão “difamar, insultar ou ameaçar” membros da família real.

Pouco mais de um ano depois, Sainam —seus advogados não divulgam o sobrenome por causa de sua idade— é uma das dezenas de pessoas acusadas de lesa-majestade pelo desfile de moda e um outro incidente em que ele foi acusado de pichar com spray um retrato do rei.

Jatuphon Saeung, 22, uma participante do desfile, foi indiciada depois de posar em um terno rosa e bolsa clutch que pareciam as usadas pela mulher do rei, a rainha Suthida.

As acusações fazem parte da repressão à dissidência política e à livre expressão na Tailândia em uma escala que não se via há anos, e que aumentou nos últimos meses, segundo grupos de direitos humanos. Desde novembro, o Tribunal Constitucional da Tailândia efetivamente proibiu o debate sobre a reforma da monarquia, e a autoridade de comunicação do país advertiu a mídia para não comentar o assunto.

As autoridades negaram fiança a alguns ativistas e revogaram os passaportes de outros. O governo do primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha, monarquista e apoiado pelos militares, aprovou um projeto de lei sobre organizações não governamentais que poderá obstruir ou impedir grupos da sociedade civil de trabalharem na Tailândia, segundo a Anistia Internacional.

“O nível de opressão atingiu um novo pico”, disse Sunai Phasuk, pesquisador da Human Rights Watch. “Isto não é só sobre visar ativistas ou ONGs, grupos de direitos humanos ou a mídia; trata-se de fechar completamente o espaço cívico.”

Um porta-voz do governo disse que a lei das ONGs precisará respeitar a Constituição e acrescentou que eles compreendem as preocupações dos grupos cívicos, mas há necessidade de “prestação de contas e transparência” nesse setor. O porta-voz não respondeu a perguntas sobre os processos de lesa-majestade ou advertências à mídia.

A associação Advogados Tailandeses pelos Direitos Humanos, que representa algumas das pessoas acusadas, inclusive crianças, disse que lidou com 164 casos envolvendo 168 indivíduos no último ano, o maior número que já atendeu.

“Antes tínhamos casos de pessoas destacadas, mas não em número tão grande”, disse Sirikan Charoensiri, advogado do grupo. “E as pessoas que estão sendo acusadas são jovens.”

Segundo grupos de direitos humanos e ativistas, os protestos em que os manifestantes usaram as blusas curtas parecem ter tocado um nervo. Sete pessoas, incluindo o líder de protestos Parit Chiwarak, conhecido como “Pinguim”, e dois jovens de 17 anos também foram acusados de lesa-majestade depois de usarem crop-tops em outro protesto em dezembro de 2020 em um shopping center de Bangkok.

“É muito difícil dizer por que essa forma de indumentária pode ser um insulto ou difamação ao rei”, disse Yingcheep Atchanont, diretor da ONG tailandesa iLaw.

Nos primeiros anos do reinado de Vajiralongkorn, que sucedeu a seu pai, Bhumibol Adulyadej, em 2016, não foram feitas acusações desse crime.

Mas isso mudou em 2020, depois que os jovens ativistas chocaram os tailandeses tradicionais exigindo a renúncia de Prayuth, assim como a imposição de limites ao poder da monarquia e aos fundos pagos pelos contribuintes que a sustentam.

Em outubro daquele ano, manifestantes marcharam diante da embaixada alemã em Bangkok para pedir que Berlim abrisse uma investigação sobre se o rei estava governando a Tailândia do território alemão.

Além de suas exigências políticas, os líderes dos protestos também imitaram ou zombaram da realeza em algumas manifestações. Pinguim vestiu trajes que pareciam zombar da rainha Suthida e da rainha-mãe, Sirikit, enquanto manifestantes usando crop-tops apareceram com frequência em comícios.

O rei tailandês é visto em público em seu país em uniformes especiais ou de terno. Mas fotógrafos captaram o monarca, que é entusiasta do ciclismo, usando o top curto na Europa. Os tailandeses compartilharam amplamente as fotos online, embora alguns usuários monarquistas afirmassem que as imagens eram forjadas.

Enquanto promotores tailandeses que reprimem a suposta difamação real não afirmaram que usar top-crop é crime, acusaram os manifestantes de zombar ou insultar o rei ou outros membros da família real. Participantes do protesto no shopping center escreveram slogans antimonarquistas em suas barrigas e costas.

Em novembro, as autoridades deportaram Yan Marchal, um francês há muito tempo residente na Tailândia, descrevendo-o como um perigo para o público. Falante de tailandês, Marchal postou vídeos satíricos em que zombava de Prayuth e de outras figuras tailandesas, incluindo um em que ele se exibia comicamente num crop-top e fazia referência às longas estadas do rei na Alemanha.

“Documentamos questões de liberdade de expressão há mais de dez anos”, disse Yingcheep, da iLaw. “Podemos dizer que o último ano foi o mais desafiador que já tivemos.”

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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