Hungria: Orbán busca 4º mandato isolado por guerra – 02/04/2022 – Mundo

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Em busca do seu quarto mandato consecutivo, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, disputa neste domingo (3) sua eleição mais difícil. Internamente, tem como adversário uma oposição unida de forma inédita. Fora do país, a guerra na Ucrânia complicou seu discurso duplo entre Rússia e União Europeia, o que agrava seu isolamento.

Ao mesmo tempo, os 12 anos no poder garantiram ao populista de ultradireita um lugar de vantagem difícil de ser alcançado. Arranjos na Constituição e no sistema eleitoral, controle dos meios de comunicação estatais e privados e uma máquina partidária entranhada nos vários níveis das instituições tornaram a disputa desfigurada em termos democráticos.

Segundo as pesquisas feitas ao longo do mês de março, Orbán tem vantagem de dois a três pontos percentuais sobre a oposição, e cerca de 15% dos eleitores se dizem indecisos. Os levantamentos são pouco confiáveis na Hungria, mas especialistas dizem que eles indicam a dianteira do premiê.

Com discurso nacionalista, anti-imigração e anti-LGBTQIA+, Orbán, 58, conta com apoio majoritariamente da população mais velha e moradora das áreas rurais, enquanto a oposição se sai melhor na área metropolitana da capital, Budapeste, e entre os jovens. É a mais acirrada eleição na Hungria desde 2006.

“A corrida não acabou, o comparecimento às urnas decidirá o resultado e tudo ainda pode acontecer”, disse Orbán a um site local nesta sexta (1º).

Cerca de 8,2 milhões de eleitores vão às urnas escolher 199 integrantes do Parlamento de câmara única. Destes, 106 são os vencedores diretos de cada distrito, e os demais 93 são escolhidos em listas partidárias fechadas em sistema proporcional e compensatório.

Pela regra, não só os candidatos menos votados recebem votos redistribuídos, mas também os vencedores nos distritos ganham assentos extras, o que tende a favorecer as siglas mais fortes. Caso do Fidesz, criado por Orbán no fim dos anos 1980. Em 2018, o partido obteve 49% dos votos e ficou com 133 cadeiras (67% do Parlamento) —os dois terços necessários para aprovar alterações na Constituição.

“O sistema eleitoral é tão único que não leva uma coalizão muito longe se ela tiver mais votos, mas eles estiverem fragmentados. Realmente é preciso se agrupar em torno de um único candidato em cada distrito para conseguir converter a maioria de votos em maioria de cadeiras”, explica o cientista político Gábor Tóka, pesquisador da Central European University (CEU), em Budapeste.

Assim surgiu a chapa Unidos pela Hungria, que reúne seis partidos, da esquerda à direita. Fundada em dezembro de 2020, é composta por social-democratas, liberais, verdes e conservadores, que por meio de primárias escolheram Péter Márki-Zay, 49, um prefeito do interior, conservador e sem vínculo partidário, para ser o adversário de Orbán.

“É uma aliança incrivelmente diversa, mas conseguimos superar nossas divergências internamente sem ameaçar nosso sucesso”, disse à Folha o prefeito de Budapeste, Gergely Karácsony, eleito em 2019 em uma chapa única contra um político do Fidesz que ocupava o cargo havia nove anos.

Membro do Diálogo para a Hungria (verde), Karácsony concorreu nas primárias, mas acabou retirando seu nome em apoio a Márki-Zay. “Sob circunstâncias normais, eu seria um oponente dele, já que ele é um conservador defensor do livre mercado, e eu, um liberal de esquerda. Mas estou otimista —ele fala não só com a oposição tradicional mas também com conservadores descontentes com o governo.”

Um dos lemas da campanha é o combate à corrupção praticada por Orbán, que enriqueceu nos últimos anos, assim como seus familiares e amigos.

Circulam nos bastidores, porém, impressões de que a diversidade na aliança pode ter tido como efeito partidos mais ou menos empenhados na campanha de Márki-Zay —que, sem ser filiado a nenhum deles, contou com uma rede menos entusiasta.

“Da perspectiva da oposição, a campanha não foi tão bem-sucedida quanto eles esperavam”, avalia Tóka. “Mas não dá para saber o que é culpa do candidato ou do governo, que tem incontáveis vantagens em uma eleição desleal e não democrática.”

São muitos os fatores de desequilíbrio. Um deles é a máquina de propaganda que sustenta Orbán, por meio de canais estatais e emissoras e jornais privados controlados por aliados, além de outdoors e redes sociais. Segundo cálculos da oposição, a diferença nos gastos com redes sociais é da ordem de 50 para 1. Tóka estima que um terço do país “não escute a voz da oposição”.

A questão envolvendo os meios de comunicação está na lista de pontos que estão sendo monitorados pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). O grupo montou em fevereiro uma missão especial de observação in loco do pleito, com mais de 200 pessoas —é a segunda vez que realiza uma missão desse tipo em um país da União Europeia; a primeira foi em 2013, na Bulgária.

Em relatório preliminar divulgado em 21 de março, os observadores afirmam que a emissora estatal MTVA opera sete canais de TV, sete emissoras de rádio e a única agência de notícias do país, nos quais um “viés político sistêmico e uma ausência de políticos da oposição”.

Outra particularidade é a regra que permite que húngaros residentes em países vizinhos possam votar por correspondência —450 mil eleitores, mais alinhados ao Fidesz—, enquanto os que moram em nações mais distantes (incluindo estudantes, por exemplo) precisem se deslocar até um consulado. Segundo a OSCE, uma recomendação anterior para que o governo igualasse esses direitos não foi atendida.

Nos votos de países vizinhos se concentram riscos de fraudes. Na quinta (31), circularam vídeos e fotos de cédulas preenchidas e parcialmente danificadas que teriam sido encontradas em um aterro na Romênia. A oposição e o Fidesz se acusaram mutuamente.

“Não há eleições livres na Hungria, mas estamos lutando, porque é a única chance que temos de derrotar o Fidesz”, disse Márki-Zay nesta quinta, em entrevista a jornalistas estrangeiros. A Folha perguntou se, em caso de derrota, ele reconheceria a vitória do adversário. “Eu já rejeito os resultados agora. Esperamos vencer, mas mesmo assim não terá sido uma eleição justa.”

Neste domingo, além de escolher o primeiro-ministro e a nova composição do Parlamento, os húngaros também votam no referendo sobre a chamada lei da “proteção infantil”, que proíbe menção a questões LGBTQIA+ a menores de 18 anos, incluindo temas educativos. Os eleitores devem marcar “sim” ou “não” como resposta a quatro questões. Uma delas é “Você apoia a exposição irrestrita de crianças menores de idade a conteúdo de mídia sexualmente explícito que possa afetar seu desenvolvimento?”.

Orbán faz campanha pelo “não” para colocar fim ao que chama de “insanidade de gênero”. “O pai é um homem e a mãe é uma mulher, e nossas crianças devem ser deixadas em paz. Esperamos que professores e escolas não reeduquem nossos filhos”, disse nesta semana. A oposição acusa o governo de tentar vincular o “sim” à sua campanha, inclusive com a propagação de notícias falsas.

Assim como o discurso contra imigrantes esteve no centro da campanha de 2018, a expectativa era que os temas do referendo dominassem o debate agora. Mas a 38 dias da eleição a Rússia invadiu a Ucrânia —e isso virou o assunto principal.

Mesmo a Hungria sendo membro da União Europeia e da Otan (aliança militar ocidental), Orbán se tornou, ao longo dos 12 anos em que está no poder, um aliado próximo de Vladimir Putin, ideológica e economicamente. A guerra deixou evidente seu discurso ambíguo, e o premiê busca, nas últimas semanas, equilibrar posições.

Enquanto apoia no bloco as sanções contra Rússia —com exceção das que envolvem petróleo e gás, dos quais a Hungria é dependente—, é contrário ao envio de armas e tropas da Otan para a Ucrânia. No país, seus canais são acusados de veicular propaganda pró-Rússia. “Você tem que decidir com quem está”, disse o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, a líderes europeus, incluindo Orbán.

Na campanha, o primeiro-ministro afirma que, enquanto seu governo defende a paz, a oposição é a favor da guerra e que, se eleita, vai permitir a passagem de “armas letais” pelo território húngaro. No Leste Europeu, Orbán enfrenta a desconfiança de aliados históricos, como Polônia e República Tcheca, que cancelaram a participação em uma reunião de ministros da Defesa prevista para a semana passada.

Gábor Tóka afirma que, enquanto outros líderes políticos do campo da “democracia iliberal”, como Marine Le Pen, na França, e Matteo Salvini, na Itália, puderam rapidamente se afastar de Putin, a posição de Orbán é mais complexa. Sua aproximação com a Rússia era um pilar da visão de que o Ocidente estava em declínio. “Orbán convenceu a audiência doméstica de que era necessário ser pragmático nas relações exteriores. Com a guerra, ficou fora de questão a Rússia fornecer qualquer benefício econômico, e essa oferta está perdendo credibilidade.”

A redefinição da relação com a Rússia é só um dos desafios do futuro premiê, seja quem for. A economia, afetada por gastos pré-eleitorais do governo (em benefícios e isenções fiscais) e aumento da inflação, vai exigir medidas impopulares. O isolamento geopolítico e o bloqueio de fundos da UE por violações ao Estado de Direito são outros ingredientes. “Ganhe Orbán ou a oposição, serão tempos muito difíceis.”


Quem é quem


Viktor Orbán, 58

Primeiro-ministro da Hungria desde 2010, é um dos líderes mais conservadores da Europa. Acusado de interferir na Justiça e educação do país, apoia leis contrárias à comunidade LGBTQIA+. Foi premiê também entre 1998 e 2002 e, hoje, conta com apoio popular expressivo no país.

Péter Márki-Zay, 49

Político independente, é prefeito de Hódmezövásárhely desde 2018 e o nome escolhido pela coligação opositora ao governo. Conservador católico, é pai de sete filhos e explora esse histórico na campanha. Antes da política, trabalhou em multinacionais na Hungria, no Canadá e nos EUA.

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

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