Homem se fantasia de grou-americano, dança para fêmea e ajuda a proteger ave em risco de extinção – 05/07/2021 – Ambiente


Uma das aves mais raras do mundo e a mais alta da América do Norte, o grou-americano virou símbolo dos esforços de conservação ao passar de menos de 20 existentes nos anos 1940 para mais de 800 nos dias de hoje. À frente da luta contra sua extinção está um ornitólogo apaixonado que literalmente dançou para ajudar a espécie, ao lado de uma grua chamada Tex, 40 anos atrás.

Aos 75 anos, o canadense George W. Archibald é o maior especialista em grous, ou “cranes” em inglês. Ele cofundou o International Crane Foundation em 1973, um centro de pesquisa em Baraboo, no estado de Wisconsin. O espaço de 300 acres reúne exemplares de todas as 15 espécies de grous do planeta, incluindo o grou-americano (ou “whooping crane”), o grou-siberiano e o grou-da-manchúria, os três mais ameaçados de extinção.

“Eu me apaixonei por essas aves quando era jovem. Podia ouvir seu longo canto, mas não as via. Elas são barulhentas e não acreditei quando peguei meu binóculo e vi um pássaro assim tão grande”, contou o ornitólogo à Folha. “Fico feliz de ter dedicado minha vida a ajudá-las. São criaturas maravilhosas, elegantes. Elas dançam, fazem duetos, têm sua própria linguagem. Continuo fascinado por elas.”

Ao longo dos anos, Archibald desenvolveu técnicas pioneiras de cuidado e reprodução das aves em cativeiro, como uma roupa especial para os criadores que lidam com os pássaros. A vestimenta esconde seus rostos e tem as mangas imitando um grou, fazendo com que os animais não se acostumem com humanos e sigam aptos à vida selvagem.

Mas seu feito mais famoso foi fazer uma grua-americana chamada Tex botar seu único pintinho saudável, em 1982, após sete anos trabalhando com ela em Baraboo. Criada num zoológico do Texas, Tex estava acostumada a humanos, o que dificultava sua reprodução com outros grous. O ato envolve uma “exaustiva mas divertida” dança de acasalamento, nas palavras de Archibald, que entrou na dança para desencadear o ciclo reprodutivo de Tex.

“Quando ela chegou em Baraboo, coloquei minha cama em sua casa e morei com ela por um mês. Conversava com ela o tempo todo e, quando chegou a primavera, comecei a dançar e ela respondeu”, conta o biólogo, que ajudou Tex a fazer um ninho de feno. “Eu pulava, agachava, corria com ela, era um tanto cansativo.”

Durante anos, Tex botou ovos malformados após inseminação artificial até conseguir um filhote saudável, Gee Whiz, que virou patriarca de uma família de 178 grous ao longo de 38 anos. Mais briguento dos grous em Baraboo, Gee Whiz morreu em fevereiro de causa natural.

“Ele teve uma vida longa e produtiva. O que mais podemos pedir, não é mesmo?”, disse Archibald sobre seu “filhote”. “Não me envolvi em sua criação, ele não estava acostumado a humanos, mas deu uma enorme contribuição à população de grous-americanos.”

O grou-americano pode chegar a 1,6 metro de altura e só existe na América do Norte. Tem uma plumagem branca com as pontas das asas pretas e o topo da cabeça vermelho. Não existe nenhum tipo de grou na América do Sul, um grupo de aves que seguem bem similares aos seus ancestrais: o fóssil de um grou de 10 milhões de anos encontrado no oeste americano tem grandes semelhanças com o grou-do-canadá de hoje.

A recuperação da população de grous-americanos teve início nos anos 1960 com a Patuxent Wildlife Research Center, uma agência federal em Maryland que também ajudou Tex. Com mais de 50 anos de experiência em reprodução e soltura, o programa foi encerrado em 2017 devido ao corte de verbas da administração Trump.

“O grou-americano e o siberiano estão numa recuperação estável, mas ainda há muitos problemas de conservação de seus habitats, grandes áreas alagadas, cada vez mais limitadas. Então, preservar o ambiente de uma espécie em expansão é o grande desafio”, explicou Archibald, formado pela Cornell University.

VOLTA AO MUNDO DOS GROUS

Archibald passa boa parte do ano viajando por lugares remotos do planeta atrás de seus pássaros favoritos. Em 2017, fez uma maratona de nove países em seis semanas, passando na África do Sul para visitar os exóticos grous-coroados-orientais e na Etiópia, onde descobriu num passeio de helicóptero um grupo de grous-carunculados nunca antes registrados.

Com a International Crane Foundation, ele colabora com dezenas de países para desenvolver planos de conservação dos habitats das aves, em geral bacias hidrográficas e zonas alagadas que vêm sumindo com a seca e a drenagem para formação de terras de cultivo.

“Em partes do mundo onde as pessoas são muito pobres, como fazendeiros em regiões hindu da Índia, os grous são aves sagradas. Elas fazem seus ninhos no meio das plantações e são protegidas. O mesmo na Etiópia, onde é tabu machucar pássaros. Há muitos tipos de grous por lá”, explicou. “Onde as pessoas se importam, os grous conseguem se adaptar e sobreviver.”

“Agora, em países como Afeganistão, Irã, Paquistão, onde há uma tradição de caça, os grous não vão nada bem. É um de nossos maiores desafios.”

A China traz um bom exemplo recente de preservação do grou-siberiano, dos quais só existem 4 mil no mundo (um grupo que passava o inverno no Irã foi reduzido a uma única ave). Os pássaros migram por 8 mil km de sua região de reprodução na Rússia para passar o inverno no sul da China, no lago Poyang, o maior do país, onde foram estabelecidas áreas de proteção.

O ornitólogo explica que o país só passou a pensar em preservação do meio ambiente nos anos 1980, após um período difícil da Revolução Cultural nos anos 1960 e 1970. “Na última metade do século passado, eles realmente fizeram muito pela conservação. Essas áreas úmidas são críticas e foram protegidas. As aves aumentaram de número”, disse. “Antes de 1981, havia muita caça, e os números estavam muito, muito baixos.”

Entre seus lugares favoritos para observar grous ao ar livre estão Butão e Mongólia, que organizam festivais anuais para celebrar as aves, além do estado de Nebraska, no rio Platte. Aqui, mais de um milhão de grous-do-canadá se reúnem para descansar antes de sua travessia até o norte do Canadá, Alasca e leste da Rússia. “É um dos shows mais incríveis da natureza. Todo mês de março, estou lá.”

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original



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